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Zero Hora de 17/06/02

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ZONA DE COMBATE
O assassinato do jornalista Tim Lopes expôs para o Brasil o
poder paralelo dos tribunais de traficantes, que julgam, expulsam
e matam nos morros do Rio. Zero Hora entrou na área de
guerra e relata o desespero dos cariocas

Os tribunais do tráfico

HUMBERTO TREZZI
Enviado especial ao Rio
        

        Se o Brasil é uma democracia, falta informar isso aos traficantes encastelados nas favelas cariocas. Os bandidos do Rio executam adúlteras, esquartejam delatores, mutilam ladrões e decidem quando carteiros, eletricitários e lixeiros podem entrar no morro.

        A Constituição Federal do Brasil, que veta todas essas práticas, é letra morta (literalmente) para os tribunais do narcotráfico. Foi um deles que decidiu, há duas semanas, o destino do repórter Tim Lopes, da Rede Globo, torturado, queimado e esquartejado por documentar com uma microcâmera de vídeo crimes que os traficantes não queriam ver expostos.

        Nos júris improvisados pelos narcotraficantes cariocas não existem advogados de defesa, apenas acusadores. Até porque defender o réu é encarado como atitude suspeita. E a suspeita equivale à morte nas favelas onde vigora a Lei do Cão – aquela do “manda quem pode, obedece quem precisa”.

        A guerra chegou a tal ponto nos morros do Rio que repórteres da TV Record, por exemplo, passaram a usar coletes à prova de balas. Zero Hora esteve no Rio esta semana. Acompanhou policiais investigando em morros, ouviu sobreviventes das batalhas diárias nas vilas e escutou relatos sobre as cruéis regras que imperam nas 368 bocas-de-fumo mapeadas na cidade, que atingem quase 1 milhão de cariocas favelados.

        Ladrão não tem perdão

        A tradição muçulmana de cortar a mão do ladrão ganhou uma versão moderna nas favelas cariocas. O autor do furto é punido com tiros nas mãos. Em abril de 2001, 10 jovens suspeitos de praticar assaltos próximo ao Morro São Carlos foram espancados e baleados nas mãos. Na Cidade de Deus, em janeiro de 2001, duas mulheres acusadas de furtar num supermercado denunciaram à polícia terem sido entregues pelos seguranças do estabelecimento aos traficantes da favela. Tiveram sorte: foram espancadas, mas sem mutilações.

        Traidor esquartejado

        O esquartejamento (separar os membros e a cabeça do corpo) virou moda entre os traficantes fluminenses. É reservado para suspeitos de roubo cometido dentro da própria quadrilha. Em 2001, o traficante Wagner Leal Fernandes, o Waguinho, foi condenado por um tribunal de traficantes do Morro do Fubá, acusado de “dar um banho” (calote) na quadrilha. O corpo foi encontrado no porta-malas de um Monza. A cabeça foi apunhalada, cortada e colocada entre as pernas. Em abril de 2002, Michel Fábio Rodrigues (dono de um ponto de drogas em Copacabana) foi esquartejado por traficantes do morro Pavão-Pavãozinho. Os seus membros foram colocados na porta de uma boate, no bairro. Ele teria perturbado uma festa dos bandidos, além de não repassar valores devidos.

        Fogueiras humanas

        Ser queimado vivo é um dos destinos possíveis para quem revela os segredos das quadrilhas. Foi o que os traficantes da Vila Cruzeiro reservaram para o repórter Tim Lopes, que gravou em vídeo o poderio armado do bando. A vítima, geralmente, é imobilizada dentro de pneus, modalidade de execução importada da África do Sul, onde era reservada aos informantes da polícia nos tempos de Apartheid. A técnica foi apelidada de “microondas” pelos cariocas. Peritos criminais ouvidos por ZH dizem que é uma morte lenta e dolorida. O torturado morre por asfixia, porque a musculatura queimada comprime os pulmões.

        Às vezes, a queima é aplicada para delitos considerados menos graves. Em julho de 2000, motorista Antônio Ferreira de Lima se negou a entregar sua Kombi a traficantes do Morro do Adeus, que queriam fazer um transporte de emergência. Os bandidos trancaram o motorista no veículo e atearam fogo. A vítima sobreviveu, com queimaduras gravíssimas.

        Carrascos humilham vítimas

        A maioria dos tribunais do tráfico não se contenta com a pena de morte. Em vários casos, a vítima é humilhada antes ou até depois de morrer, para servir de exemplo à comunidade. Há um mês, o detetive Marcelo Gomes, da 58ª DP (Duque de Caxias), foi amarrado por traficantes ligados a Jurandir, da Favela do Dique. Foi espancado e obrigado a desfilar seminu em uma favela na Zona Norte, antes de ser executado. Em 2000, um homem suspeito de trair a quadrilha de Celsinho da Vila Vintém foi amarrado e apunhalado dezenas de vezes, antes de morrer. Os punhais foram deixados no corpo, abandonado no meio de uma rua, para dar o exemplo.

        Os carrascos também gostam de adotar apelidos que ajudam a espalhar o terror. ZH entrevistou, há alguns anos, um pistoleiro ligado ao narcotráfico na Baixada Fluminense, cujo apelido era Serginho da Doze (referindo-se à espingarda calibre 12, com a qual executava as vítimas). O jornal O Dia publicou entrevista com um carrasco apelidado Paulinho Já Era – quando a vítima chega a se encontrar com ele, já era.

        Os sentinelas das favelas

        Ingressar nas vielas de qualquer uma das 80 favelas cariocas sem convite é pedir para se incomodar. Perigo redobrado, se a ousadia for cometida à noite. Na terça-feira passada, Zero Hora subiu, num carro locado, o Morro dos Macacos, em Vila Isabel (Zona Norte). Eram 16h quando o primeiro morador avistado fez sinal para parar e perguntou aonde o repórter ia.

        – Tá perdido, compadre? O que tá procurando aqui? – questionou o jovem, com um celular junto à orelha.

        A segunda parada ocorreu na quadra seguinte, quando um rapaz com radiocomunicador perguntou se éramos mesmo repórteres. No topo do morro, meninos estouraram foguetes. Em outra ocasião, ZH esteve em Vigário Geral e topou com a terceira linha de identificação do tráfico: jovens armados com fuzis e pistolas revistaram os repórteres e exigiram documentos. Na ausência de polícia, fazem o papel de guardiões da favela.

        Entrega regida pelo tráfico

        Carteiro, técnico em telefonia, eletricitário e entregador de mercadorias no Rio só sobem o morro com licença do tráfico. Quando há combates, o morador fica sem notícia de parentes, sem luz nem telefone. Em muitos morros, como o Dona Marta, o carteiro deixa a correspondência na associação comunitária, que usa dois jovens para redistribuírem o material. A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) terceirizou o serviço em favelas, contratando 2 mil jovens para recolherem o lixo. Mantém assim a integridade dos funcionários.

        Líderes comunitários sob suspeita

        A Polícia Civil acusa muitos líderes comunitários de serem a fachada respeitável do narcotráfico. Em abril, o presidente da associação de moradores da favela Jacarezinho, Antônio Carlos Gabriel, o Rumba, foi preso. Escutas telefônicas o surpreenderam em diálogos sobre venda de armas com Luís Caetano Rodrigues, o Lourinho, traficante da Favela do Rato. Já na Vila Cruzeiro (Penha), o presidente da associação de moradores responde a inquérito por suposta promoção de bailes funk envolvendo drogas e meninas.

        Luto imposto pelo crime

        Morte de bandido em favela é chorada por todos. Ai daquele que ousar desrespeitar o luto imposto pelo tráfico. Quando Cy de Acari foi encontrado morto na prisão, os comerciantes desse bairro com mais de 50 mil pessoas na Zona Norte nem esperaram aviso. Cerraram as portas de aço. Fecharam-se as biroscas, os ambulantes se retiraram das ruas, parecia feriado. O chefão do Terceiro Comando foi pranteado como benfeitor, embora sobre ele pesassem acusações judiciais de mandar executar a ex-namorada e a mãe dela, encontradas num carro, crivadas de balas. Mesmo a morte dos mais humildes soldados do tráfico exige panos negros nas janelas dos barracos.

ADULTÉRIO É PAGO COM A VIDA

O caso mais emblemático de punição de adultério está retratado no diálogo entre Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e o motorista de ônibus Michel Anderson do Nascimento, 21 anos, suspeito de ter um caso com uma das namoradas do traficante, Joelma Carlos de Oliveira. Na escuta feita pela Polícia Federal e divulgada em março de 2000, Beira-Mar comanda por celular, do Paraguai, uma sessão de tortura. Os corpos do casal nunca foram encontrados. Confira o diálogo:
Beira-Mar – E aí, tudo tranqüilo?
Michel – Tô todo cortado, as duas orelhas... e os dois pés. O dedo está pendurado.
Beira-Mar – É mesmo? E a orelha? Orelha é gostosa?
Michel – Se eu soubesse, nunca teria me envolvido.
Beira-Mar – Garanhão, é?
Michel – Não, não senhor. (Beira-Mar pede para falar com o carrasco)
Beira-Mar – Ô Bomba, dá mais um couro bem dado. Daqui a 10 minutos eu ligo de volta para saber o que fazer com ele. Não tenho pressa, não. Bem devagarinho. Passam-se os 10 minutos.
Beira-Mar – Como tá?
Voz – Tá sem as duas mãos, ele, patrão. Sem as duas orelhas, sem os dois pés, falando ainda...
Beira-Mar – Deixa eu falar com ele. E aí, tranqüilo?
Michel – Tô todo quebrado.
Beira-Mar – Todo quebrado, porra? Você é gostosão, gosta de comer mulher de vagabundo? Me passa pro Bomba. Ouvem-se cinco tiros.
Beira-Mar – Tá bom. Manda sumir, manda sumir.

A cova dos executados fica no paraíso

        O repórter Tim Lopes foi executado em um local que teria tudo para ser um paraíso, não tivesse sido transformado pelos traficantes numa sucursal do inferno.

        O alto do Morro da Grota tem uma das vistas mais deslumbrantes do Rio de Janeiro. Fica de frente para a belíssima Igreja da Penha, folheada a ouro e com centenas de anos de existência.

        O monte é emoldurado por mata nativa, de onde é possível avistar o mar. Pois o bando de Nei Maluco escolheu uma clareira no meio da mata, um cartão-postal carioca, para transformar em cemitério clandestino. Ali são queimadas e esquartejadas as vítimas da quadrilha.

        Na quinta-feira, Zero Hora acompanhou a descoberta de mais um corpo, picado em pedaços miúdos e com sinais de que a morte era recente. Chinelos, um cinto e até um anel estavam junto do morto.

        Não foi difícil para os policiais da Divisão de Homicídios acharem o cadáver. Onde o picão e a enxada penetram, neste terreno com o tamanho pouco maior do que um campo de futebol, topa-se com ossos humanos: tíbias, fêmures e perônios em profusão. Eram partidos numa pedra grande, manchada de sangue, situada no meio da clareira.

        Nesse mesmo local foram encontrados objetos pessoais de Tim Lopes, além de seu material de trabalho – a microcâmera com a placa patrimonial da Rede Globo. Na quinta-feira, cinco arcadas dentárias já haviam sido desenterradas na cova coletiva.

        Um dos trunfos da quadrilha para cometer seus crimes é a dificuldade de acesso. Uma estrada esburacada e quase intransitável leva ao alto do morro. Além disso, os traficantes vigiam cuidadosamente quem sobe na Grota.

        O repórter de ZH e outros colegas de imprensa foram recebidos com disparos de fuzil quando documentavam uma gigantesca bandeira vermelha estendida ostensivamente sobre a parede de um barraco no Morro do Alemão, contíguo ao Morro da Grota.

        Na mesma manhã, policiais civis da Delegacia de Homicídios haviam trocado tiros com bandidos, no mesmo local. Informações repassadas pela comunidade aos policiais indicam que mais de 60 corpos podem estar enterrados na Grota, sem sepultura ou identidade. A maioria esquartejada e queimada.

Legião de refugiados

        Foi a cabeça de um homem negro – ou melhor, o que restou dela, depois de ser explodida por um tiro de fuzil – junto à entrada da garagem de casa que fez o comerciante português João Martins pensar em abandonar o Rio de Janeiro.

        – Nunca amei tanto uma cidade, estou aqui há 40 anos, mas sabes o que é acordar com um sujeito destroçado na porta? Sabes o que é ter a caixa d’água vazada a tiros todo mês, o carro do filho furado a tiro de fuzil? – vociferava Martins, terça-feira passada.

        Dono de uma peixaria na Ilha do Governador, Martins era um entre dezenas de moradores desse bairro de classe média dispostos a se mudar, assim que surgisse uma chance.

        A disputa entre duas facções rivais ligadas ao Terceiro Comando (TC) pelo controle das bocas-de-fumo no Morro do Querosene resultou em três horas de tiroteio e 18 carros perfurados a tiros ou explodidos por granadas. Dois carros pertenciam a bandidos. Os demais eram de populares.

        Os moradores querem indenização do Estado. O presidente da associação de moradores do bairro, Melchiades Martins, disse que vai fechar a creche comunitária que ajuda 45 crianças, metralhada duas vezes este ano.

        O homem explodido era um dos invasores, o quarto a morrer desde domingo passado, nos confrontos locais. O morto permaneceu sem identificação oficial por horas. Motivo: os peritos criminais esperavam reforços para subir o morro. ZH acompanhou a maratona dos especialistas. Eles passaram num posto da PM, requisitaram um carro, foram ao 37º Distrito Policial e solicitaram outros quatro.

        Os peritos começaram a subida do Querosene, escoltados por cinco equipes de policiais com fuzis e metralhadoras para fora das janelas, atiradores com meio corpo de fora. Ao chegarem perto do corpo, os peritos sacaram pistolas. A população olhava de longe.

        Os policiais aproveitaram para fazer uma incursão nas proximidades da boca-de-fumo. Acharam três granadas não-detonadas.

        – De noite, isso aqui tava o inferno na terra. Os vagabundos de fora cortaram fios de luz e de telefone, a gente teve de se esconder no banheiro – relata Alex, cuja casa tinha mais de 20 marcas de projéteis de fuzis.

        A Ilha do Governador foi a bola da vez. A cada semana, um ou mais morros entram em guerra com fuzis, granadas e lança-foguetes disparados pelas ruas. Há duas semanas, a batalha ocorreu no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte. Durante quatro dias, um bonde do terror formado por bandidos do Comando Vermelho tentou tomar as bocas do morro, controladas pelo TC. Oito pessoas morreram no confronto.

        Os tiroteios foram de tamanha intensidade que cinco escolas tiveram as aulas suspensas, e a população começou a abandonar o morro. Centenas de pessoas, em pijamas, abandonaram de madrugada suas casas em busca de abrigo na quadra da Escola de Samba Vila Isabel, que virou campo de refugiados.

        Entre o domingo, 26, e a terça-feira, 28 de maio, mais de 2 mil pessoas deixaram o morro rumo à casa de parentes, longe dali, declarou a ZH uma das diretoras da associação comunitária, Valesca Carlos. A PM calcula que os refugiados somavam apenas 300 pessoas. A calmaria no Morro dos Macacos voltou no início de junho. E, com ela, os moradores.

OCUPAR OU NÃO A FAVELA

Marina Magessi – Uma das mais experientes policiais civis cariocas, a chefe de investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Marina Magessi, coleciona relatos escabrosos sobre os chefões do narcotráfico.
Para ela, ocupar os morros e desarmar os traficantes é uma medida urgente e necessária:
– Chamar de animalescas as práticas destes bandidos é ofender os animais. Tem de bloquear a entrada de munição nas favelas, com ajuda federal. Porque bandido sem arma é como deficiente sem muleta. E, depois de invadir as bocas-de-fumo, arranjar emprego para favelado, senão o ciclo se repete.
André Fernandes – Ocupação de morros é tudo o que não quer o teólogo André Fernandes, presidente da Associação de Moradores da Favela Dona Marta, na Zona Sul. Ele criou o movimento Favelania, que divulga noções de cidadania (noções de Código Penal, impostos e educação) a moradores de 30 favelas cariocas. Fernandes controla também a Agência de Notícias das Favelas, um site na Internet.
– O tráfico é, possivelmente, o maior empregador de gente nas favelas. Vai acabar com isso dando tiro e ocupando morro? Jamais. Temos 22 mil presos no Rio, cada um deles custando R$ 700 mensais ao Estado. Prisão não resolve. Tem é de botar as crianças que estão fazendo movimento (tráfico) em filas de cursos profissionalizantes – acredita.
Fernandes diz que uma alternativa às “tropas de ocupação” nos morros, como o Batalhão de Operações Especiais (unidade de elite da PM), está na própria PM: o policiamento comunitário. É o caso do Grupo de Policiamento de Áreas Especiais (GPAE), que patrulha os morros Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, na Zona Sul. Os 110 PMs conhecem moradores pelo nome, socorreram 199 pessoas enfermas entre janeiro e maio deste ano e efetuaram apenas 66 prisões. Nenhum tiroteio ocorreu nos morros.
A sede do GPAE é contígua ao projeto Criança Esperança, que atende 2,5 mil crianças com aulas de informática, ginástica, boxe e outras atividades. Informalmente, os próprios policiais comentam:
– Só vai preso quem dá mole.
Julita Lengruber – A socióloga Julita Lengruber, que foi ouvidora da polícia fluminense e hoje coordena um centro de estudos da violência na Universidade Cândido Mendes, elogia o GPAE.
– É um tipo de polícia que proteje realmente a comunidade, não aquele que vai ao morro pegar dinheiro do tráfico e até do pequeno comerciante. Mas tem de vir acompanhado de outras presenças do Estado, como escola e saúde – ressalva.

 

 

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