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Zero Hora de 09/06/02

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O crime quer calar a sociedade

HUMBERTO TREZZI

        Completam-se neste domingo sete dias do desaparecimento de um dos mais experientes e premiados repórteres brasileiros, Tim Lopes.

        O jornalista da Rede Globo sumiu na Vila do Cruzeiro, no Rio, onde tentava flagrar com uma câmera oculta meninas que consomem droga e fazem sexo com traficantes em um baile funk. O desaparecimento de Lopes, atribuído ao narcotráfico, denuncia um novo estágio de abusos do crime organizado.

        Depois de tomar o poder nos morros cariocas, de montar estruturas de corrupção com tentáculos por toda a sociedade e de enfrentar a polícia como a um exército inimigo, o narcoestado em vigor no Rio promove um ataque contra a liberdade de expressão, numa tentativa de calar a população e seu porta-voz, a imprensa.

        As pistas colhidas pela Polícia Civil indicam que Lopes foi torturado e incendiado até a morte, ao ser descoberto pelos criminosos. Desapareceu no cumprimento do dever, durante a apuração de uma reportagem. O esclarecimento do caso é uma exigência de jornalistas e entidades de imprensa que na sexta-feira realizaram um protesto na Cinelândia, centro do Rio.

        – Este fato muito nos preocupa, visto que consiste em grave ameaça à liberdade de imprensa. É hora de o governo demonstrar a real intenção e a coragem de enfrentar os Estados paralelos, que submetem especialmente as comunidades carentes à humilhante condição de prisioneiros de uma guerra suja e descontrolada – afirmaram, em nota conjunta, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

        Tim Lopes teria sido atraído a uma armadilha por moradores ligados aos bandidos, com o argumento de que poderia registrar cenas inéditas de aliciamento de menores para o crime. Os traficantes estariam se vingando da reportagem Feira de Drogas, do ano passado, que registrava o tráfico e o porte de armas pesadas por parte da quadrilha que controla a mesma região onde o repórter desapareceu.

        A jornalista Cristina Guimarães, que participou da reportagem Feira das Drogas (ganhadora do Prêmio Esso de TV no ano passado) com Tim Lopes, diz que os traficantes conheciam bem o repórter. Ela contou a ZH que um operador de câmera da TV Globo foi seqüestrado por traficantes para informar a identidade de cada um dos autores da reportagem, que revelou os bastidores do narcotráfico no Complexo do Alemão (onde está situada a Vila do Cruzeiro). O seqüestro é confirmado por Flávio Fachel, outro participante da investigação. Traficantes também teriam oferecido R$ 20 mil por informações sobre os autores das denúncias.

        – Eu me demiti, escapei e estou morando no Exterior, exilada e com proteção. O Lopes optou por continuar e voltou à mesma área na qual fizemos a reportagem, onde acabou reconhecido, torturado e morto – comenta Cristina.

        O desaparecimento de Tim Lopes é preocupante por ocorrer em pleno regime democrático. Um dos raros casos desse tipo até então é o assassinato de Mário Eugênio, radialista de Brasília, executado em 1984 por uma gangue composta de traficantes e policiais que ele denunciara. Os autores da morte foram presos e condenados. Nelson Hoineff, um dos mais experientes diretores da TV brasileira, sintetizou, em artigo no Jornal do Brasil, as razões pelas quais o repórter da Globo foi convertido em alvo.

        – Repórteres como Tim Lopes acabaram se tornando os mais eficazes instrumentos de defesa de uma sociedade carente de qualquer outro tipo de proteção. Jornalistas tornaram-se mais confiáveis do que a polícia ou mais rápidos do que a Justiça. Em meio à corrupção deslavada dos poderosos, prestam serviços insubstituíveis à cidadania.

        Apesar do recado ameaçador enviado pelos traficantes, setores da imprensa já adiantaram que não vão se intimidar.

        – Em nossa profissão, a palavra medo não pode existir. Vamos continuar cobrindo o tráfico de qualquer maneira. Eles não vão nos calar e nos impedir de informar a população – garantiu o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio, Nassif Elias.

        A favela onde Tim Lopes sumiu é comandada por Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, integrante do Comando Vermelho e um dos 10 mais procurados pela Justiça fluminense. Um telefonema recebido pelo serviço de Disque-Denúncia da Polícia Civil, a cujo conteúdo Zero Hora teve acesso, relata em detalhes como teria sido a morte de Lopes.

        Conforme o informante, o repórter foi surpreendido portando uma microcâmera e amarrado por cinco traficantes, que o conduziram pela rua principal da favela e o espancaram diante dos moradores. Depois, segundo o mesmo relato, amordaçaram-no e o levaram aos empurrões para uma caverna no alto do morro, onde foi novamente torturado. Os bandidos teriam amarrado tecidos de fibra de vidro ao corpo de Lopes, colocado o jornalista dentro de pneus e ateado fogo, enquanto ele ainda estava vivo. O procedimento é chamado pelos traficantes de “microondas”.

        Policiais realizaram durante a semana buscas no morro onde Lopes desapareceu. São esperados resultados de exames de DNA em ossadas encontradas no bairro, para verificar se pertencem ao repórter.

Jornalista revelava temor

JOSÉ LUÍS COSTA

        Dias antes de desaparecer, Tim Lopes, 51 anos, comentou com amigos da redação da TV Globo:

        – Estou ficando velho, não quero mais fazer isso. Essa vai ser a última matéria com microcâmera.

        Lopes sabia que o trabalho era arriscado:

        – No dia em que pegarem um de nós, vai ser perna para um lado e braço para o outro – dissera recentemente, segundo relatou na sexta-feira o jornalista gaúcho Flávio Fachel, 36 anos, colega de Lopes na TV Globo.

        Os dois trabalharam juntos na série de reportagens Feira de Drogas, em agosto de 2001, que recebeu o Prêmio Esso Especial de Telejornalismo. No sábado passado, um dia antes de desaparecer, ambos conversaram, e Lopes revelou outra preocupação com relação à investigação em que estava envolvido.

        – Ele disse que desta vez seria diferente e que os traficantes tinham muitas armas – contou Fachel.

        Lopes estava de plantão no domingo. Trabalhou até as 15h, revendo imagens que fizera em visitas anteriores à favela de Vila do Cruzeiro, na Penha. Mais tarde, retornaria ao bairro onde sumiu.

        Lopes é considerado pelos colegas como um dos mais corajosos e audaciosos repórteres em atividade. Gaúcho de Pelotas, morava no Rio desde os oito anos. Criado no Morro da Mangueira, é apaixonado pela escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

        – Ele diz que é carioca, mas não consegue esconder aquele jeito de gaudério bonachão do nosso interior – descreve Fachel.

        O Vasco da Gama é outra das paixões de Lopes. Ele é casado com Alessandra Wagner e tem um filho de 19 anos, do primeiro casamento. Com 30 anos de profissão, está há seis na TV Globo. Já trabalhou na revista Placar e nos jornais O Globo, Jornal do Brasil, O Dia e O Repórter, pelo qual produziu reportagens disfarçado de operário, para denunciar as péssimas condições de trabalho em canteiros de obras.

        – Ele tem o biótipo do brasileiro e uma conversa fácil e convincente. Pode se disfarçar de feirante, de empresário e de policial – diz o jornalista João Antônio de Barros, de O Dia, amigo de Lopes.

        Ativista dos direitos humanos, Lopes procura retratar em suas matérias os dramas dos trabalhadores. Um de seus projetos é fazer uma reportagem revelando a ação de quadrilhas de ladrões de caminhões nas estradas do país e a cobrança de propina por policiais.

        Lopes gosta de escrever poemas. Em sua mesa, na Redação da TV Globo, há um recorte com a frase “Um bom jornal se faz com bons jornalistas”. Tem como mestre o repórter policial Octávio Ribeiro, o Pena Branca, que morreu em 1986, aos 54 anos.

A “colombianização” do Rio

        O sumiço de Tim Lopes é mais um sintoma da colombianização do Rio de Janeiro.

        A exemplo do que ocorre na Colômbia, onde estão os mais poderosos cartéis da droga, o território fluminense tornou-se palco de sangrentas vendetas praticadas por traficantes.

        Em um Estado como o Rio de Janeiro, onde os policiais são caçados pelos criminosos, atacar jornalistas era o óbvio passo seguinte. Apenas neste ano, ocorreram no Rio 14 ataques a Delegacias de Polícia Civil (DPs), postos da Polícia Militar e repartições da Secretaria de Segurança. A 27ª DP foi atacada com metralhadoras e granadas. Dois PMs morreram fuzilados por bandidos, sem tempo de sacar armas.

        Os policiais do Rio passaram a fazer plantões nas DPs com fuzis automáticos M-16 e a montar barricadas em frente às delegacias. O hospital Moreira Costa, da Polícia Civil fluminense, atende a cada dia 15 policiais com estresse. As libertações de presos das delegacias, em ataques feitos por comboios de criminosos, são freqüentes.

        O quadro lembra a Colômbia, onde o ex-ladrão de carros e punguista Pablo Escobar ergueu um império movido a cocaína e desencadeou uma campanha terrorista contra todos os que tentavam prendê-lo ou criticá-lo, na virada dos anos 80 para os 90. Apenas entre 1986 e 1991, Escobar foi responsabilizado pela morte de 260 policiais em Medellín, cidade onde erigiu seu cartel. Também mandou assassinar um ministro da Justiça e o candidato favorito à corrida presidencial, além de dezenas de magistrados que expediram ordens para prendê-lo.

        Os jornalistas também entraram na lista de Escobar. Guillermo Cano, editor do El Espectador, escreveu um editorial intitulado O cartel da droga tomou a Colômbia. Morreu assassinado, em 1986. Em 1989, o cartel de Medellín seqüestrou e matou Hector Giraldo (consultor do jornal El Espectador), Luís Vera (jornalista de Bucaramanga) e Jorge Vallejo (radialista de Medellín). Foram seqüestrados ainda Francisco Santos (diretor do El Tiempo) e Andrés Pastrana, que viria a se tornar presidente da Colômbia. Escobar foi morto pela polícia em 1993, mas a violência prosseguiu.Em vão, a população colombiana saiu as ruas para pedir paz.

        Faltava um ingrediente para o Rio se inserir definitivamente nos padrões colombianos: uma tentativa de calar a boca da imprensa.

 

 

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