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Zero Hora de 08/05/02

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Manuscritos de sem-terra orientam a “revolução”
Documentos apreendidos pela polícia mostram o planejamento e o objetivo das invasões

HUMBERTO TREZZI

        Empresários, partidos de “direita”, Judiciário, seitas evangélicas e sindicatos “pelegos” defendem os ricos. Camponeses, partidos de “esquerda”, o MST e centrais sindicais como a CUT defendem os pobres.

        A lição está na página marcada com a data de 25 de março, numa agenda apreendida pela Polícia Civil em poder de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que invadiram a Cabanha Santa Bárbara, em São Jerônimo, em 12 de abril. O diário estava com um dos sem-terra detidos pelos policiais na saída da fazenda.

        A doutrinação era um dos atos preparatórios para a invasão, consumada poucas semanas depois de a “análise de conjuntura e modelo econômico” ter sido descrita pelo sem-terra, na agenda. Um total de oito diários, agendas e manuais apreendidos com integrantes do MST durante a invasão da Santa Bárbara faz parte do inquérito que apura os crimes ocorridos na fazenda. A existência das cartilhas foi revelada pelo repórter Giovanni Grizzotti, da Rádio Gaúcha. Nesta reportagem, Zero Hora aprofunda o conteúdo das agendas.

        O material é um mostruário de como se organizam e se consolidam invasões. E o pesadelo de qualquer um que tema rupturas revolucionárias. Um dos diários louva o projeto socialista de Cuba e aponta que 150 estudantes do MST estão fazendo um curso na ilha governada por Fidel Castro. Uma agenda com impressos da direção do MST, de circulação nacional, tem retrato de corpo inteiro de Che Guevara e recomenda que os sem-terra se inspirem na mística do comandante de guerrilhas.

        – Não há fronteira nessa luta de morte. A vitória nossa ou a derrota de qualquer nação engajada é a vitória e a derrota de todos – destaca a agenda, parafraseando o argentino executado na selva boliviana em 1967.

        As investigações da Polícia Civil prosseguem. O delegado João Carlos de Mendonça, de São Jerônimo, diz ter provas para indiciar quatro invasores por dano e furto. Entre eles, um ex-soldado da BM, que seria o dono de 21 cartuchos de munição de revólver apreendidos em um Gol usado por seis integrantes do MST que deixavam a fazenda. O ex-soldado não foi localizado por ZH – tampouco pela polícia – para falar sobre o assunto.

        Hinos e Cuba

        A preparação para a “revolução” ocupa diferentes páginas das agendas, como a que fala em “método revolucionário de direção”. Na página de 31 de agosto de 2001, uma agenda reproduz trechos de cânticos que devem ser entoados “para manter a mística” da militância. Um dos trechos salientados:

        “Nova revolução. Povo organizado, povo sofrido/ que vive lutando, que acredita em gritos/ e cantos vencendo os canhões/ Quem é este povo/ que traz, lembrando heróis/ o cântico novo da Revolução?/ É o Sem Terraaaaa, o Sem Terraaaaa (refrão).

        Outra página descreve uma Cuba idílica e culpa os russos por seu empobrecimento:

        “Em Cuba, de Fidel e “Tche” Guevara, existe um projeto socialista para atendimento do pobre, sem lucro financeiro. Hoje existem aproximadamente 150 estudantes do MST em Cuba. A União Soviética cortou relações com Cuba quando deixou de ser socialista, o que tornou Cuba mais fraca.”

        Planejamento

        Em 9 de abril, três dias antes da invasão da Cabanha Santa Bárbara, a agenda de um militante anota as expressões:

        – Fazer a ação, sem local, sem saber o tipo. Formar a equipe. Reunir a direção. Apareceu um arrendatário e temos de invadir a fazenda, para entrar na disputa pela área.

        “Usar a mídia”

        Uma agenda ensina o receituário para se tornar um militante sem-terra:

        – Usar a mídia a nosso favor (no momento certo).

        – Disposição para ações: ocupar latifúndios, prédios públicos, rodovias.

        – Cortar matos, derrubar cercas.

        – Fazer o enfrentamento, resistir.

        Num manual intitulado Normas Gerais do MST, de capa vermelha, podem ser lidas outras regras:

        – Quem desobedecer normas fica seis meses sem bebida alcoólica (num dos trechos, é descrito como um militante foi punido com duas horas de guarda, por “chutar as bolinhas” de outro sem-terra).

        – A comissão de segurança é encarregada de avaliar mau comportamento, falta de responsabilidade, autoritarismo, provocações, desrespeito com mulheres e casos de bebedeira.

        – Na hora da prestação de contas, relatar todos os gastos, menos com bebida e cigarros. As notas devem ser retiradas pela AECA (que seria uma entidade que ministra cursos dos sem-terra).

        Pobres e ricos

        A mesma agenda que fala como “usar a mídia” diz, em página datada à mão com o dia 25 de março, como o mundo está “dividido”. A folha está repartida ao meio por uma linha que simula uma cerca de arame farpado. Num lado, intitulado “Projeto dos Pobres”, estão listados PT, PC do B, PSB, PCB, PV, CUT, Fetag, MPA, MMTR e a expressão “construir um país juntos”. No outro, “Projeto dos Ricos”, estão PMDB (Simon), PFL (Onyx), PTB (Zambiazi), PPB (“Selso” Bernardi e Maluf), PSDB (Vicente Bogo), PPS (Britto e Ciro), Fiergs, Farsul, “sindicatos pelegos”, Judiciário, deputados de direita, prefeitos de direita e seitas religiosas. Em página seguinte, na coluna Projeto dos Ricos estão alinhados os dizeres: “apenas 5% de agricultores no campo, monocultura, 11 milhões de sem-terra, transgênicos, mecanização, produzir para exportar, privatizações e 51 milhões de indigentes”

        Metade do salário

        Numa das agendas é relatado o esquema de recolhimento de “contribuições” para o MST. É citado o exemplo de uma cooperativa, a Coopertchê, que lida com safristas contratados para a colheita da maçã em Vacaria.

        O contrato é por 60 dias, e eles recebem R$ 12 por dia. Destes, metade vai para o MST, conforme a agenda, que discrimina a contribuição: parte será usada para cobrir despesas administrativas da cooperativa, parte para Cofins, para PIS, para Imposto de Renda, sendo R$ 2,63 efetivamente para o MST.

        Cheques em branco

        Cheques em branco em nome do ex-soldado PM Valdoir Antônio Lacerda da Silva foram apreendidos no carro ocupado por integrantes do MST e retido pela Polícia Civil ao final da invasão da Santa Bárbara. Os canhotos dos cheques estavam preenchidos com a sigla MST. No mesmo carro foram apreendidas munição de revólver, que os sem-terra disseram pertencer ao ex-soldado.

        Os policiais civis requisitaram à BM a lotação do soldado – acreditavam que estivesse na ativa – e sua apresentação para depoimento – mas não obtiveram resposta oficial.

Diaristas descontam salário para o MST

RAMÃO MARQUES
Agência RBS/Vacaria

        Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que trabalham como diaristas na colheita da maçã destinam entre 30% e 50% do salário para manter os assentamentos do movimento no Estado.

        A confirmação é do presidente da Cooperativa Gaúcha do Trabalho (Coopertchê), ligada ao MST, Volmir Pilatti.

        Segundo ele, o percentual custeia também alimentação, atendimento médico e encargos sociais dos 350 trabalhadores de uma agropecuária ligados ao movimento. Ele diz que o desconto está previsto no estatuto da Coopertchê, fundada há seis anos, em Palmeira das Missões, e que intermedeia a contratação de trabalhadores nos pomares. Cada agricultor recebe, líquidos, cerca de R$ 8 por dia.

        O chefe do posto do Ministério do Trabalho de Vacaria, James Pires Silva, vistoriou ontem a Schio, localizada a 23 quilômetros do centro do cidade, notificou a empresa e a cooperativa e deu prazo até o dia 15 para que sejam entregues documentos contábeis que comprovem o destino do dinheiro arrecadado junto aos trabalhadores.

        Silva apurava as queixas de trabalho escravo feitas por José Pedro Siqueira e Roberto Iuchun, que disseram ter fugido de uma propriedade de Vacaria e caminhado até Canoas, onde deram queixa à Polícia Civil – nenhuma das acusações foram comprovadas pelo fiscal do Trabalho até o momento.

CONTRAPONTO

O que diz a direção estadual do MST em nota:

“Esta semana, o MST ocupou um dos maiores latifúndios do Rio Grande do Sul, com mais de 17 mil hectares – a fazenda Ana Paula, em Hulha Negra –, território maior do que 183 municípios gaúchos. Lutamos pela aprovação da lei que limita o tamanho de propriedade da terra no Brasil em 35 módulos fiscais (cerca de 700 hectares).
Exatamente porque denuncia os latifúndios é que os latifundiários e seus porta-vozes vêm requentando velhas e falsas acusações ao MST. Diante disso, esclarecemos a população gaúcha que vem recebendo essa onda de inverdades:
– Sobre as frentes de trabalho – O povo nos acampamentos se organiza para fazer educação, saúde e trabalho. A frente é uma forma organizada de trabalho para sustentar o acampamento. Os recursos são usados coletivamente para adquirir alimentos, medicamentos, transportes e para fazer as lutas, sem as quais a reforma agrária não avança no Brasil.
– Sobre as normas do MST – São estabelecidas através de combinações coletivas, aprovadas pela maioria das pessoas acampadas. Somos uma organização de famílias comprometida com a luta pela reforma agrária e com o resgate de valores éticos, com a valorização de homens e mulheres como sujeitos sociais. As penalidades, também estabelecidas coletivamente, são medidas educativas. Somos um movimento social que organiza trabalhadores e trabalhadoras a lutar por terra e dignidade, nossos acampamentos são em beiras de estradas, são áreas abertas que diariamente recebem visitas da população. Denunciamos que aqueles que querem fazer CPI para nos investigar, alguns parlamentares de direita, latifundiários e alguns meios de comunicação, é que deveriam ser investigados, porque pesam sobre eles acusações mais graves e consistentes."

 

 

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