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REFLEXÕES Fritz
Utzeri UMA
- Juro que gostaria de falar de outra coisa. Contar causos, trazer de volta
o Flor do Lavradio, o Magu, Seu Manoel, Otília, Lindalva, Apolônio, o
Indignado, ou Rosalvo, o Despreocupado, mas não dá. A barra está pesada, merrrmão.
Ser brasileiro chega a ser opressivo, dá falta de ar. Vivemos numa
sociedade que derruba todos os limites e caminha celeremente para a
selvageria. Estamos nos transformando num gigantesco Big brother. Será
que não há ninguém disposto a clamar? Ou já é o deserto? DUAS
- Está na hora de nós, jornalistas, fazermos uma reflexão séria sobre
nosso papel na sociedade. Num programa de rádio perguntaram-me se a TV, ao
procurar mostrar cenas de sexo e drogas em bailes funk, sob a denominação
de ''jornalismo investigativo'', não estaria saciando a vontade dos
espectadores de ver essas cenas, atendendo a uma demanda do mercado? Aí
começa o problema: atender a demandas de mercado. Isso é jornalismo? Acho
que estou na profissão errada há 35 anos. Droga! Como sou burro! Só não
entendo uma coisa. Se for para investigar o mundo do sexo e droga para
mostrar no Fantástico, por que perder tempo com bailes funk, onde
todos sabem o que rola? Por que não arranjar logo um ''repórter
investigativo'', de preferência com cara de gente fina, equipá-lo com câmera
oculta e deixá-lo em certas festinhas da Zona Sul, na região serrana ou no
litoral do Rio, ou ainda em São Paulo, Brasília & alhures, reuniões
freqüentadas por socialites, políticos, empresários, artistas e mostrar
como são esses encontros no que diz respeito a sexo, drogas & rock
n'roll? E que tal usar essas mesmas microcâmeras em certas ''reuniões de
negócios'' filmadas desse jeito? Ou em certos ''encontros políticos''? TRÊS
- O mundo da droga não começa nem acaba no Complexo do Alemão. Elias
Maluco, Fernandinho Beira-Mar ou Celsinho da Vila Vintém não são os chefões
do negócio. Sequer são gerentes. São apenas distribuidores de porte médio.
O volume do dinheiro movimentado pela droga é maior do que o PIB da maioria
dos países do mundo, 10 vezes maior do que o faturamento de uma
multinacional como a General Electric. Se fosse cotada na bolsa de NY, a
droga seria uma blue chip fácil, fácil. Achar que essa montanha de
dinheiro é controlada por bandidos bárbaros, semi-analfabetos e
sul-americanos é conto da carochinha. Há
múltiplas ligações da droga com os setores ''limpos'', ''respeitáveis''
da economia. Qual o jornal ou TV, no mundo, que resolveu fazer (aí sim)
jornalismo investigativo e apurar isso a fundo? Nem
o New York Times. O dinheiro das drogas é lavado em bancos
legítimos, passa do ilegal para o legal em montantes que alcançam bilhões
de dólares. Como na piada, não me surpreenderia nem se ''il papa no, ma
um certo cardinale'' estivesse envolvido nesse business. No
plano mais terra-a-terra, numa bela reportagem do Tim Lopes no Cantagalo, um
morador dizia que ali não há refinarias de coca, não se fabricam armas
nem munições. ''Vem tudo de baixo.'' Está aí uma boa pauta para o nosso
jornalismo investigativo em memória do bravo Tim. Como as armas entram no
país nas barbas da Polícia Federal e das Forças Armadas? Como granadas de
uso exclusivo do Exército vão parar nas mãos de traficantes? Até onde a
polícia e as autoridades estão corrompidas? Eu ainda era foca e o tráfico
começava a ensaiar seus primeiros passos. Um dia fui ao batalhão da PM na
Barão de Mesquita e um capitão mostrou-me um mapa do Borel indicando:
''Aqui é a boca de fumo do Turco, ali é a de fulano, lá é a de
sicrano''. Perguntei por que não iam lá e fechavam, se sabiam onde
ficavam. Recebi um sorriso desdenhoso como resposta. Será
que a polícia não sabe que Elias Maluco mantém cemitérios clandestinos
onde enterra suas vítimas? E as denúncias de que mais de 200 pessoas foram
assadas no ''microondas'' (uma gruta no alto do morro) do traficante,
incluindo Tim Lopes? Por que os principais encarregados do tráfico nos
morros e favelas do Rio, presos em cadeias de ''segurança máxima'',
continuam dando ordens de vida ou de morte? Quais são os advogados que
participam ativamente do mundo do crime? Com a palavra, a OAB. QUATRO
- Recentemente, o mundo ficou chocado quando Daniel Pearl, jornalista do Wall
Street Journal, foi seqüestrado no Paquistão e executado por bandidos.
Exatamente o mesmo ocorreu no Rio de Janeiro com Tim Lopes. Vila Cruzeiro é
tão perigosa quanto o lugar mais remoto e selvagem do Afeganistão. Lá, na
Penha, há uma terra onde quem manda é o Elias Maluco, que dita e desdita a
sua lei. A pena de morte existe, é aplicada largamente e agravada por
tortura. O que faz esse Elias Maluco nas ruas? Leio nos jornais que, após
matar oito policiais, seqüestrar e cometer toda sorte de crimes, esse indivíduo
foi preso e SOLTO POR HABEAS CORPUS PORQUE AS MANOBRAS DE SEUS ADVOGADOS
IMPEDIRAM O JULGAMENTO. Quer dizer que se a defesa conseguir atrapalhar o andamento da Justiça, o réu, um assassino, será solto? Dá pra entender o nosso sistema Judiciário? Como é possível algo assim? Que leis temos no Brasil? Pessoalmente, sou radicalmente contra a pena de morte, mesmo dos Elias Malucos da vida. Esse assassino deveria ser trancado para o resto da vida. Sem regalias, sem celular, visita íntima, TV, condicional, redução de pena, nada! Trabalharia duro como aparece naqueles filmes americanos, quebrando pedras, abrindo estradas com macacão laranja, correntes nos pés e nas mãos e um monte de guardas com trabucos à sua volta e com ordem de atirar para matar se tentar algo. |
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