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Zero Hora de 25/08/02

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Crianças vendem droga em ponte internacional

CARLOS WAGNER
Barra do Quaraí

Flagrante: uruguaio se aproxima de menino e lhe estende dinheiro, apanhando em seguida a droga (foto Antônio Pacheco/ZH)

        

        Crianças brasileiras estão traficando maconha na Ponte Internacional Rio Quaraí, uma travessia de 672 metros entre Barra do Quaraí, no Brasil, e Bella Unión, no Uruguai.

        Segundo a polícia, criminosos aliciaram e transformaram pelo menos 10 jovens da região em soldados do tráfico.

        Cada um deles recebe por dia de cinco a oito baseados (cigarros de maconha) para vender, pelo preço médio de R$ 0,50 cada um. Eles também vendem trouxinhas da droga. Com isso, conseguem faturar até R$ 40 semanais.

        O tráfico se restrige à maconha porque é uma droga barata e a região é pobre. Segundo a polícia, os traficantes compram a droga de fornecedores na maior cidade da região, Uruguaiana, a 70 quilômetros da Triplíce Fronteira.

        Os garotos escondem a droga debaixo da ponte que liga Barra do Quaraí a Bella Unión. A poucos metros dali, o Quaraí desemboca no Rio Uruguai, na frente do município argentino de Monte Caseros. As três cidades formam a Triplíce Fronteira Brasil/Uruguai/Argentina.

        Os pequenos traficantes atravessam a ponte várias vezes por dia levando um baseado de cada vez para atender aos consumidores. Geralmente à tarde e nas sextas-feiras o movimento é mais intenso. A sede do tráfico é Barra, a menor das três cidades que somam em torno de 50 mil habitantes. O maior número de consumidores está em Unión.

        Um dos meninos é um garoto de 11 anos que passou a atuar na ponte depois que se mudou, com a mãe e os irmãos, para Barra do Quaraí. Antes, ele ajudava o pai, safrista das lavouras de arroz no interior de Uruguaiana. O abandono paterno da família provocou a mudança.

        História semelhante de dificuldade conta outra criança. Aos 12 anos, ele fazia biscates em Bella Unión para auxiliar a família. A crise e a perspectiva de uma renda melhor levaram-no às drogas.

        A diminuição no fluxo do chibo – pequeno contrabando – é a razão apresentada por um jovem de 15 anos para atuar no tráfico de drogas. O adolescente também trabalha metade do ano como safrista nas granjas de arroz. Quando acabava o serviço, ganhava dinheiro passando pelo rio mercadorias de um país para o outro. Com a queda do chibo causada pelos problemas econômicos dos países, encontrou um meio de vida no tráfico de drogas.

        Outro jovem, de 17 anos, diz que a venda de maconha é a única possibilidade de ganhar dinheiro. Os R$ 10 semanais que arrecada com a droga são difíceis de obter com o trabalho regular na região. O rapaz era ajudante na pesca nos rios Quaraí e Uruguai. Recentemente, a quantidade de peixe diminuiu e ele perdeu o emprego. Tentou ganhar a vida como pequeno contrabandista, sem sucesso. Então, aceitou a oferta de serviço de um conhecido, e tornou-se traficante do Rio Quaraí.

        – Ou é isso ou é roubar. Prefiro isso – diz um terceiro garoto, de 15 anos, que costuma vender maconha nos fins de tarde na ponte.

        O vaivém dos adolescentes não despertava a atenção em meio ao trânsito cotidiano entre os dois países. Em junho, porém, alertados pelo depoimento de um jovem flagrado vendendo a erva, os guardas uruguaios da fronteira passaram a usar um cachorro que fareja droga. O animal descobriu um adolescente transportando maconha dentro dos canos do quadro de uma bicicleta.

        A descoberta da polícia causou uma mudança no tráfico. Agora, além de vender a droga na ponte, os garotos também ficam nas margens do rio pescando e os clientes buscam a maconha em barcos a remo ou motor, as chalanas.

Sob domínio de pequenos traficantes

        A proliferação do tráfico de pequenas quantidades de maconha na fronteira nasceu de um acerto de contas entre um grupo que comandava a venda de drogas em Uruguaiana e seus fornecedores, diz o delegado Luiz Dall’Agnese, da Polícia Federal.

        A região de Barra do Quaraí, Bella Unión e Monte Caseros é pouco povoada – em torno de 50 mil habitantes, e de baixo poder aquisitivo. É um mercado que não interessa para o grande traficante porque o risco não compensa o lucro. Segundo a PF, o local serve como corredor da droga vinda do Paraguai e que se destina à capital uruguaia, Montevidéu.

        De acordo com Dall’Agnese, a venda de drogas na região de Uruguaiana na década passada era partilhada entre o bicheiro Jairo Machado Ribeiro, Nelson Ricardo Cuty Camara, o Massa de Tomate, e Carlos Renato Rodrigues, o Caio. Em conjunto, os três teriam comprando um partida de 30 quilos de cocaína, no valor de R$ 300 mil, de fornecedores de Araranguá (SC). Esses atravessadores seriam ligados a Nei Machado, ex-patrão de CTG em Passo Fundo que vivia refugiado no Paraguai e era associado de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, hoje preso no Rio.

        A apreensão de parte da droga pela PF teria desencadeado uma crise no grupo. Como a carga havia sido fornecida aos traficantes pelo sistema de consignação – o pagamento da mercadoria ao fornecedor ocorre depois da venda aos consumidores – os traficantes não teriam conseguido saldar suas dívidas. Acabaram sendo mortos, entre 1998 e 2000. Depois disso, outros outros seis traficantes foram presos.

        A retirada dos grandes ou médios traficantes do mercado abriu oportunidades de negócios para pequenos criminosos, que estariam tentando se tornar patrões, como descreve Dall’Agnese.

        – Sem os cabeças (chefes), os soldados (pequenos revendores de droga) tomaram conta do tráfico – sustenta o delegado.

        Boa parte dos consumidores de maconha experimentou a droga pela primeira vez em festas em Uruguaiana. Além da erva, o contrabando de lança-perfume, produto que tem venda proibida no país, é comum nas épocas de carnaval. Os frascos são adquiridos em Monte Caseros e trazidos para o Brasil.

Prefeitos temem alastramento do crime

        Autoridades municipais e policiais do Brasil e Uruguai estão se aliando para tentar impedir que o tráfico de drogas se alastre em Barra do Quaraí e em Bella Unión.

        Há dois meses, o capitão de corveta da Marinha do Uruguai, Juan José Nieto, subprefeito do Porto de Bella Unión, observou que das 30 principais ocorrências policiais registradas em sua cidade, 25 envolviam problemas com drogas. Dessas, 40% era tráfico feito por brasileiros de 12 a 16 anos. Nieto levou o fato ao conhecimento das autoridades de Barra do Quaraí e da Polícia Federal (PF), em Uruguaiana.

        – No início das investigações, pensávamos que o problema era apenas de um grupo de adolescentes. Mas logo notamos que o tráfico estava se enraizando e se espalhava pela comunidade – comenta.

        O problema também preocupa o prefeito de Barra do Quaraí, Ely Manoel Rosa (PTB):

        – Aqui todos se conhecem. Fica difícil lidarmos com o problema. Por outro lado, é preciso tratar o assunto de frente porque senão amanhã vamos estar recebendo ordens de traficante.

        A estratégia traçada por Ely foi denunciar a situação às autoridades brasileiras e uruguaias durante um seminário sobre problemas da fronteira que aconteceu em Santana do Livramento, no início de julho. A uma platéia formada também por policiais das cidades fronteiriças do Brasil e do Uruguai, Ely disse ter aumentado a exploração de crianças e jovens pelo tráfico em seu município nos últimos três anos.

        Como não há Polícia Civil na cidade, o sargento Paulo Augusto, responsável pelo destacamento local da Brigada Militar mapeou suspeitos pelo recebimento da maconha em Barra do Quaraí, com auxílio da Polícia Federal. Segundo o policial, a droga vinha de ônibus de Uruguaiana. Durante vários dias, a BM e a PF fizeram barreiras nas estradas.

        A tática não surtiu resultado durante muito tempo, admite a polícia. Os traficantes acabaram mudaram o itinerário: a droga agora vem de ônibus até uns 30 quilômetros da cidade e dali é transportada a cavalo ou de bicicleta até o distribuidor local.

Polícias devem trabalhar em conjunto

        A região de Barra do Quaraí e Bella Unión sediará um dos seis núcleos compostos por representantes consulares, das polícias e dos poderes judiciários do Brasil e do Uruguai que começam a trabalhar em setembro na fronteira.

        A criação dos núcleos foi definida na 2ª Reunião de Alto Nível da Nova Agenda de Cooperação e Desenvolvimento Fronteiriço Brasil-Uruguai, realizada no dia 10 de agosto, em Porto Alegre.

        Na ocasião, foi firmado um acordo para dar início às operações integradas de combate à criminalidade nas áreas de fronteiras dos dois países, localizadas no Rio Grande do Sul. Os núcleos coordenarão os estudos de ações conjuntas de cooperação e intercâmbio.

        Além de Barra do Quaraí-Bella Unión, também haverá núcleos em Chuí-Chuy, Jaguarão-Rio Branco, Santana do Livramento-Rivera, Aceguá-Acegua e Quaraí-Artigas. Entre as propostas apresentadas está a criação de um posto policial fronteiriço, compartilhando informações sobre crimes como roubo e furto de veículos, abigeato, e ocorrências envolvendo foragidos e desaparecidos, entre outros. O termo de cooperação também definiu metas para ações nas áreas de saúde, educação, ambiente e saneamento.

 

 

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