|
|
|
||||||||||||||||||||
|
|
|
|
|||||||||||||||||||
|
A POLÍCIA E OS POBRES:
NEGOCIAÇÃO E CONFLITO EM DELEGACIAS DE POLÍCIA DO RIO DE JANEIRO PAULA PONCIONI MOTA Introdução O presente trabalho tem como objetivo principal analisar as representações sociais elaboradas pelos agentes policiais sobre o seu exercício profissional em relação às tarefas tradicionalmente designadas pelo Estado e às múltiplas e variadas tarefas que costumam ser demandadas à instituição pelo público usuário das delegacias de polícia, em sua grande maioria, constituído pelo segmento pobre da população1 (1). A escolha deste tema tem suas origens na prática profissional desenvolvida no período de outubro de 1984 a dezembro de 1990 em duas delegacias de polícia do município do Rio de Janeiro - uma na zona norte, 21ª D.P. (Bonsucesso), e a outra, na zona sul, 10ª D.P. (Botafogo) - pelo Projeto de Implantação de Serviço Social em Delegacias de Polícia, em execução desde novembro de 19812(2). No decorrer desta experiência, chamou-nos a atenção, a grande afluência de "casos sociais" 3(3) que chegavam às delegacias de polícia, levados espontaneamente pela população, bem como a "ação social" desenvolvida pelos policiais para o seu atendimento. Há que se ressaltar que, muito embora a procura às delegacias de polícia se dê por todas as camadas sociais, sua maior demanda advém do segmento mais pobre da população, que, não tendo onde resolver seus problemas cotidianos, procura a instituição policial na expectativa de mediação dos conflitos, sejam de ordem jurídica ou social4(4). A experiência do serviço
social nas delegacias de polícia propiciou a observação da dinâmica do
funcionamento dessa instituição, bem como a apreensão da postura dos
atores institucionais na relação estabelecida com a sociedade, através de
seus usuários. Ao chegar à delegacia,
o indivíduo é tipificado e, portanto, o atendimento à sua situação será
realizado a partir dos pressupostos contidos na noção de cidadania vigente
elaborada pela instituição policial. Não é demais
sinalizar que a camada mais pobre da população é, sem dúvida, aquela que
vivencia com mais dramaticidade a ausência de seus direitos e garantias no
cotidiano de uma delegacia de polícia. É este segmento da população o
alvo preferencial da ação violenta da polícia. A constatação da alta freqüência de atendimentos aos chamados "casos sociais" no âmbito das delegacias de polícia, bem como a incorporação dessas situações de cunho social, cujas características escapam a uma definição estritamente jurídica, na rotina policial, através de seu atendimento no âmbito das delegacias nos colocou face a duas questões fundamentais para reflexão. De um lado, a procura da delegacia reflete a absoluta carência da população para solucionar seus problemas, seja na área das relações interpessoais e familiares, ou em termos de recursos institucionais, das organizações de "bem-estar social" e da justiça. De outro, revela que a polícia busca resolver assuntos que vão além de sua competência na área do crime, funcionando como uma "instância alternativa de resolução dos conflitos" 5 (5). para aqueles cujos problemas freqüentemente não são atendidos em qualquer outra instituição pública. Uma revisão da literatura existente mostra, porém, que nem a pobreza, nem o padrão violento de atuação da instituição policial dirigida aos pobres e nem tampouco o contato e proximidade entre ambos são problemas surgidos na conjuntura histórica brasileira dos anos 80 6 (6). Historicamente, é a
parcela pobre da população que, despossuída de sua cidadania,
desrespeitada nos regulamentos que definem as normas jurídicas, sem acesso
aos bens e serviços, irá demandar a intervenção da polícia na
perspectiva de solucionar os seus problemas. É ela que se constitui por
excelência em destinatário da ação policial, justamente pelo lugar que a
instituição ocupa na relação entre o Estado e a sociedade, estando mais
próxima e tendo uma certa intimidade para as camadas populares. À despeito de se
reconhecer que na atuação da polícia brasileira predomine a dimensão
repressiva na relação com a sociedade, uma investigação empírica ainda
que superficial mostra que para conhecer o que a polícia é de fato, seu
modo de atuar, seus costumes, deve-se buscar uma produção teórica que
possa fornecer uma leitura mais ampla que a tradicional concepção da polícia
como um mero aparelho do Estado a serviço da dominação de classes
desempenhando as funções essencialmente repressivas, possibilitando a
chave de uma outra leitura que incorpore também a sua dimensão societal. Certamente, esta opção
não elimina a necessidade de abordar a vinculação da polícia com o
Estado, isto é, o lugar que ocupa e as funções que desempenha no seio do
aparelho estatal mas exige também a abordagem de sua relação com a
sociedade, sua proximidade e contato com esta, no cotidiano da prática
policial. Requer, ainda, que a análise das relações estabelecidas entre a
organização policial e seu público usuário se faça à luz de uma
perspectiva teórica que visualize a origem social dessa relação, isto é,
como reprodução das relações sociais produzidas em uma dada sociedade.
Nesta perspectiva, o indivíduo é concebido como agente historicamente
situado, amoldado e orientado pelo mundo objetivo de uma dada sociedade, que
dá a direção tanto de suas representações quanto de suas práticas e
estas, por sua vez, tendem a assegurar a reprodução das estruturas
vigentes. Desse modo, os indivíduos são visualizados como produtores e
reprodutores da ordem social. Assim, o comportamento
e as atitudes dos agentes policiais na relação com seus usuários adquirem
sentido quando "lidos" a partir da compreensão da construção
social da realidade, buscando-se a lógica de articulação das representações
sociais e as práticas sociais concretas. Partindo-se, pois, da
concepção de que, numa formação social, existe uma relação intrínseca
entre as práticas sociais concretas e as representações sociais gestadas
num dado contexto histórico, entendemos que a instituição policial deve
ser estudada como parte da totalidade constituída pela formação social
(no caso, a brasileira), onde se articulam múltiplos processos sociais,
entre os quais, aqueles em que se dá a produção e reprodução das
representações sociais da realidade, que alimenta o imaginário social, ao
mesmo tempo que consome esse mesmo imaginário. A instituição
policial é, assim, concebida como um aparelho do Estado onde se reproduzem
formas de representação da sociedade gestadas dentro e fora desse
aparelho. A instituição, portanto, não apenas produz algumas representações
engendradas no seio dessa sociedade consumindo seus valores, seus
preconceitos e crenças e seus sistemas de representação específicos da
sociedade, como absorve as representações presentes em um dado momento
histórico. Este trabalho procura
abordar a prática institucional desenvolvida nas delegacias de polícia e
analisar as representações dominantes entre diferentes gerações de
policiais, em diferentes níveis hierárquicos da organização policial,
sobre as funções que o policial desempenha em sua atividade profissional
cotidiana, particularmente aquela desenvolvida com relação a um conjunto
de situações - os "casos sociais". Procura, ainda, apreender a
visão que o policial tem da sua profissão e as imagens que tem do seu público
usuário e da sociedade de um modo geral. Para tanto, a investigação
compreendeu pesquisa bibliográfica e trabalho de campo. Buscou-se através
da literatura, examinar historicamente o papel desempenhado pela polícia ao
longo de diferentes períodos da sociedade brasileira, enfocando
fundamentalmente a relação da polícia com o segmento pobre da população. O trabalho de campo foi implementado mais sistematicamente em março de 1994 e foi concluído em maio do mesmo ano. Contudo, desde outubro do ano anterior, vínhamos fazendo alguns contatos "informais" 7(7) com policiais, com vistas à realização das entrevistas. Em março, então, voltamos a contatar alguns desses policiais, fizemos novos contatos e realizamos as entrevistas. Foram contatados vinte policiais, sendo realizadas ao todo treze entrevistas, doze homens e uma mulher, com idades variando entre 33 a 69 anos, lotados em diferentes delegacias de polícia do Estado do Rio de Janeiro. No trabalho de campo foi utilizada a técnica de entrevista semi-estruturada. Além dos temas enfocados por mim8(8), foi dada liberdade ao entrevistado para falar sobre temas de seu interesse imediato. Desse modo, foi possibilitado o aparecimento de outras questões que, por sua recorrência entre os entrevistados, foram incorporadas ao estudo9(9). A escolha de policiais
civis que ao longo de sua carreira estiveram lotados em delegacias
distritais, as chamadas delegacias "de bairro", constituiu-se num
critério fundamental para o trabalho de campo. O interesse por este
tipo de delegacia se justifica pelo atendimento a casos marcadamente heterogêneos
entre si. O policial que ali trabalha (ou trabalhou) tem (ou teve) a
possibilidade de lidar, em sua rotina de trabalho, com todos os tipos de
crime e de contravenções penais e, também, com uma gama enorme de situações,
que nem sempre podem ser denominadas "casos de polícia", mas
afluem cotidianamente em uma delegacia de bairro - os chamados "casos
sociais". Mais ainda, sua localização, em diferentes pontos da
cidade, coloca o policial em contato permanente com as características sócio-econômicas
da população que mora ou trabalha no local, possibilitando ao policial uma
visão mais abrangente da sociedade. Para efeito dos objetivos propostos neste trabalho, foram excluídas de imediato as atividades policiais desenvolvidas em operações "de rua" - rondas e/ou "blitz". Optou-se por entrevistar policiais que, ao longo de sua carreira profissional, tiveram contato sistemático com a população usuária dos serviços daquelas delegacias policiais distritais, levando-se em conta a geração à qual pertence, seu lugar na hierarquia da organização, a ocupação e o setor em que trabalha nas delegacias de polícia10(10). O material recolhido
nas entrevistas serviu fundamentalmente para referenciar, através da ótica
dos próprios policiais, as representações sociais presentes na organização
policial sobre as práticas desenvolvidas cotidianamente em uma delegacia de
polícia, enfocando especificamente aquelas associadas ao desempenho da função
societal. I.
As Práticas Cotidianas em Delegacias de Polícia: Negociando a Lei e a
Realidade Vários estudos sobre organizações11(11) têm apontado para a existência de uma estrutura informal que coexiste, no interior de qualquer instituição, com a estrutura formal. A estrutura formal é
compreendida por alguns elementos que a define enquanto tal. Pode-se
identificar pelo menos, três elementos básicos: Nas organizações
formais, a autoridade baseia-se em normas e regulamentos, que estipulam o
comportamento esperado e os direitos e deveres dos participantes na organização.
Neste sentido, o aspecto legal e documental é um dos elementos que definem
este tipo de estrutura. Como conseqüência da formalidade, a autoridade
manifesta-se nos cargos que compõem a hierarquia. Outro elemento
importante, refere-se ao profissionalismo, isto é, a ocupação do cargo,
deve-se as suas qualificações do seu ocupante que são aprimoradas através
de treinamento especializado. Já a estrutura
informal tende a desenvolver e adotar normas de conduta que definem os padrões
de comportamento a que o indivíduo ou grupo se amolda para realizar suas
atividades cotidianas. A adoção desses padrões de comportamento implica a
utilização de códigos próprios que ratificam ou anulam os regulamentos
da organização. Essas normas de conduta estão baseadas, em sua grande
parte, num conjunto de usos e costumes, alguns instituídos através de
diferentes gerações, que orientam as ações individuais e coletivas,
reproduzindo em escala menor o mesmo fenômeno que se pode observar na
sociedade. Essas normas de conduta constituem uma "legislação não-oficial",
determinante de fato dos padrões de comportamento individual e grupal. Esse
conjunto de normas constitui a cultura organizacional. Visamos, neste trabalho, captar a "cultura policial", isto é, o sistema de representações sociais produzido em diferentes gerações de policiais, não só sobre o papel, as funções e o lugar de sua atividade profissional na sociedade, como também com relação ao seu público usuário. Para a realização deste objetivo, a pesquisa privilegiou três gerações de policiais que se distinguem fundamentalmente pelo contexto social no qual ingressaram na polícia e dentro do qual foram socializados para efetivamente exerceram o cargo policial correspondente. 12 (12) Nesta perspectiva, entrevistamos um policial originário do antigo Departamento Federal de Segurança Pública do antigo Distrito Federal - DFSP13 (13), seis policiais oriundos, em sua maioria, da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Estado da Guanabara - SESP14 (14) e seis policiais procedentes da Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro - SEPC15 (15) crenças, os preconceitos e os estereótipos. O "mundo
policial", isto é, o sistema de representações sociais que é
compartilhado entre os policiais, expressa não só o sistema legal, mas
também as produzidos no interior da própria organização policial sobre
as experiências concretas e diárias do seu trabalho. Neste sentido, os diferentes significados e interpretações sobre o mundo social são codificados num sistema de tipificação16 (16), que estabelece uma articulação entre comportamentos e ações "típicos" e permite ao policial apreender, nos processos interativos, os diversos elementos que envolvem os indivíduos. Assim, observa-se que,
no cotidiano de uma delegacia de polícia, realizam-se continuamente rituais
de "negociação" entre os diferentes esquemas tipificadores que
entram em contato na interação entre os próprios policiais e entre os
policiais e os outros indivíduos, modelando o comportamento e atitudes do
policial, ou seja, a forma de atuação do policial na intervenção e
encaminhamento das situações. Deste modo, a partir de um processo de tipificação do outro, monta-se um acervo organizacional de conhecimento que simplifica o ambiente e reduz ambigüidades de procedimentos e de tomada de decisões17(17). Neste sentido, encontramos na organização policial um sistema de classificação, expresso em categorias verbais, para caracterizar o outro e garantir o bom desempenho da ação policial, que passa a depender da eficiência na identificação. Neste universo
organizacional, a visão construída pelos policiais sobre o "mundo
policial" e o "mundo social" revela-se através de uma
terminologia por eles manipulada para designar "tipos" (de indivíduos
e de situações) que permeiam o seu cotidiano. Na vida cotidiana
desses policiais, identificam-se os "cascudos", os
"menudos", os "almofadinhas", o "policial de
rua" (o "tira"), o "vagabundo", o
"trabalhador", o "fazer polícia", a
"feijoada" e, mais recentemente, no processo de interação com as
assistentes sociais, os "casos sociais". Na organização
policial, o relacionamento entre os policiais de gerações diferentes -
geralmente aqueles designados, neste trabalho, de segunda e terceira geração
- é marcado por inumeráveis atributos que os fazem reconhecíveis como os
policiais "cascudos" e os policiais "menudos". Os jovens
policiais são denominados de "menudos" por antigos policiais e
estes, por sua vez, são chamados de "cascudos" por aqueles. Tanto
uma como a outra geração se diferenciam pelo comportamento e atitudes
requeridos para o exercício profissional. Para os
"menudos", essa diferenciação se pauta particularmente, de um
lado, pelo nível de escolaridade, vestimentas, postura e boa educação que
supostamente os jovens policiais possuem e, de outro, pela ausência desses
atributos nos policiais antigos, por isso, o nome "cascudos",
parecendo conotar "grosseiros" e "iletrados". Para os
"cascudos", os "menudos" são reconhecidos pela faixa etária
(como no grupo musical homônimo, eles eram, na sua maioria, muito jovens na
época de seu ingresso na organização policial) e comportamento, que
parece não combinar com o estereótipo que havia até então do policial. O discurso de antigos
policiais que procura reforçar a diferença de comportamento, existente
entre uma geração e outra, reclama também uma certa maneira de exercer a
atividade profissional num determinado momento histórico, manifesta na
expressão "fazer polícia". A concepção do "fazer polícia", na fala dos policiais, compreende um rol de procedimentos de que o policial lança mão para exercer com "eficiência" as atividades de controle social que lhe são próprias. Muitas vezes o "fazer polícia" é justificado como se fosse o uso do poder de polícia18(18) e em decorrência, confunde-se a arbitrariedade do "fazer polícia" com a discricionariedade19 (19) permitida pelo sistema legal. Segundo Esquenazi
(1981), "o uso do Poder de
Polícia não caracteriza a prática de ato de puro arbítrio, que é
inteiramente desassociado da lei. Caracteriza, ao revés, o emprego da
discrição, que nada mais é do que o poder de agir segundo a prudência e
de acordo com os critérios do Direito Objetivo. Verdadeiro imperium,
o Poder de Polícia é universalmente reconhecido como medida indispensável
à prevenção da criminalidade e à segurança da disciplina geral. Como é
óbvio, seu exercício não reclama prévia autorização judicial; ao
contrario, prescinde dela, atua diretamente. Aliás, sua aplicação não
seria eficaz se houvesse qualquer óbice à sua imediata utilização"
(pp. 74-75). De acordo com Michaud
(1989), "estudos
sobre a polícia e sua rotina diária mostram que a maneira como a polícia
trabalha não está necessariamente de acordo com os processos formais da
legalidade, tendo por objetivo a aplicação eficiente de certas leis e
regras e a manutenção da ordem, muito mais do que o respeito integral da
legalidade". Em sociedades democráticas
onde efetivamente há um controle estatal e societário sobre a ação da
polícia, a aplicação do poder de polícia está estritamente relacionada
com o exercício da função policial. Qualquer utilização para além dos
marcos e necessidades pertinentes a essa função constitui um excesso ou
uso desviado do poder, passível de punições severas. No entanto, na polícia
brasileira, o uso do poder de polícia como prerrogativa para o bom
desempenho de suas funções reitera, mesmo em período democrático, o
autoritarismo e a discriminação presentes ao longo da história social
brasileira, particularmente intensificados em períodos autoritários. Mais
do que isso, o uso abusivo do poder de polícia se generaliza para diversas
situações, de cunho criminológico ou não, que afloram cotidianamente nas
delegacias de polícia e recai preferencialmente sobre aqueles cuja condição
social não lhes dá o status de cidadão, mas sim a "posição
de pedinte" na sociedade (Fischer, op. cit., p. 40). O aparelho policial,
enquanto espaço de realização de determinadas funções socialmente
definidas - sobretudo aquelas que direta e concretamente exprimem o exercício
do monopólio legítimo da violência detido pelo Estado -, produz/reproduz
o conjunto de representações presentes na organização social, muitas
vezes de forma exacerbada, em decorrência da sua própria função. Nesta
perspectiva, as diferenças sociais são transformadas em desigualdades de
direitos pois a cor, o gênero, a ocupação profissional, etc. do indivíduo
ditarão o tratamento que lhe será dispensado. Neste cenário, o
discurso da cidadania plena para todos se desfaz na experiência de vida
cotidiana, imersa numa estrutura rigidamente hierarquizada de direitos
presente, ainda hoje, na sociedade brasileira. Nesta, é atribuída à polícia
a responsabilidade de selecionar, em sua prática cotidiana, os cidadãos e
os não-cidadãos e mostrar o lugar e o espaço reservado a cada um na ordem
da sociedade, para a garantia da tranqüilidade social. Para tanto, a polícia desenvolve um sistema de classificação do público, de acordo com a posição social e econômica do indivíduo, que lhe possibilita a identificação do "doutor" e dos "pés-inchados", de um lado; dos "trabalhadores" e dos "vagabundos", de outro lado20(20) Certamente, a pobreza e
seus sujeitos sem o acesso à condição de cidadão tornam-se objeto
preferencial dos abusos e discriminações na ação policial para o
controle social. Deste ponto de vista, a polícia desenvolve no desempenho de suas atividades o papel de "lixeiro da sociedade"21(21), cuja tarefa precípua é "limpar" da sociedade aqueles que, por sua má conduta, criminosa ou não, perturbam a ordem e a paz social. Neste processo de
interação com o público, o policial desenvolve um processo de negociação
da lei e da realidade, que lhe permite manter a ordem. A manutenção da
ordem ocorre, portanto, através de práticas de controle social e de resolução
de conflitos que, obedecendo às regras e normas reconstruídas pela cultura
organizacional, lhe conferem o papel de intérprete da lei e árbitro, junto
a uma gama variada de situações que não encontra lugar em qualquer outra
instituição da sociedade. À grande maioria
dessas situações, que no âmbito da delegacia de polícia foi denominada
pelo serviço social de "casos sociais", a polícia chama de
"feijoada". Como assinala um
entrevistado: "O
que a gente chama de ‘feijoada’, você sabe bem o que é ‘feijoada’.
Então, a maioria das ocorrências são ‘feijoadas’, são problemas
sociais, conflitos sociais: é barulho de vizinho, é briga. É briga de
marido e mulher, é a mulher que tá gravida e precisa descer lá do morro e
não tem como descer (...), é o outro que tá perdido, você já viu
isso..., e quer voltar pra Minas ou ir pro nordeste, o outro que quer ser
operado, quer ser operado, e não tem dinheiro (...), o cara tem um acerto
com a mulher, de quem ele se separou, de passear com filho sábado e a
mulher não quer entregar o filho dele hoje, como é que faz (...) Estes
conflitos sociais, é o que tem a maior demanda na polícia, no fundo,
entenda bem..., o plantão policial trabalha muito mais com demandas de
conflitos não- criminosos do que fatos jurídicos tidos como crimes. (...)
nós estamos voltados estritamente para o crime, daí (...) da necessidade
extrema, extrema de um Serviço Social junto com o plantão pra resolver
essas questões (...) olha, se eu tô na delegacia pra cuidar de crime, não
tenho tempo pra tanto crime que há, (...) o cara tuberculoso não tem lugar
pra dormir, quer dormir na delegacia (...) o policial não tá preocupado
com problema social, tá preocupado com crime" (Delegado Titular de 1ª
categoria, 47 anos, 2ª G.) A "feijoada"
pode ser interpretada, através da fala de policiais, como uma categoria
principalmente empregada para designar problemas de cunho não-criminológico
que chegam à delegacia predominantemente através da população pobre, que
por sua própria condição sócio-econômica não tem acesso a outra
instituição que responda a sua demanda. A relação
estabelecida entre a "feijoada" e a pobreza é fartamente
sinalizada quando os policiais descrevem as situações que freqüentemente
emergem no seu cotidiano. Ademais, o policial, ao
relacionar a "feijoada" aos diversos problemas e dificuldades da
população pobre e às atividades desenvolvidas por ele para solucioná-los,
manifesta a percepção de uma dupla desqualificação que a instituição
policial sofre por parte do Estado e da sociedade. Além do atendimento a
situações absolutamente desprovidas de caráter legal e/ou penal, o
policial ainda tem que "solucionar" os "casos sociais",
para os quais nem a legislação em vigor, nem a organização social
fornecem respostas satisfatórias. Via de regra, estas tarefas não são do
domínio de sua profissão e não lhe conferem prestígio algum. Assim argumenta um
entrevistado: Entenda
bem, o policial, ele tá lá pra ver problema de roubo, de furto, de agressão,
de morte. Ele tá lá pra isso. Então, quando chega a "feijoada"
ele resolve, ele tem que resolver, porque da "feijoada" sai também
aí um crime, uma contravenção. (...) Não é nem que seja menor, até
demanda muito mais tempo. (...) não é afeto ao policial. É e não é
(...) a gente não aprende na Academia a cuidar desses problemas, sabia?
(...) É uma demanda que te toma muito tempo, complica teu plantão, mas que
não é computado" (Delegado Titular de 1ª categoria, 47 anos, 2ª
G.). A percepção que o
policial tem de seu papel e de sua imagem na sociedade é a do "lixeiro
da sociedade". Para ele sobra o resíduo da sociedade e o
"trabalho sujo" a ser realizado para "filtrar" as situações
indesejadas por essa sociedade. Ressalta-se ainda que,
apesar de socialmente aceitas, não há qualquer valoração positiva por
parte da sociedade com relação as práticas "saneadoras" da polícia
desenvolvidas na rotina de seu trabalho. Ao contrário, a organização
policial é sistematicamente rejeitada e hostilizada por parcela
significativa do conjunto da sociedade, que evita o contato com a organização
e seus integrantes, procurando seus serviços como última alternativa no
conjunto de instituições da sociedade. De um lado, constata-se
que a polícia é alvo de estereótipos negativos e discriminatórios por
parte de diferentes segmentos da sociedade, o que contribui
significativamente para o isolamento da organização em relação à própria
sociedade e ao Estado. De outro lado, verifica-se a incorporação de
valores discriminatórios à percepção do mundo e à ação profissional
da polícia, que manifesta-se na atitude e na conduta desta com relação a
sociedade, reservando a cada um lugar na sociedade. Esta visão da sociedade
reproduz o modelo hierárquico das relações sociais e a lógica excludente
que permeia estas relações nos diferentes contextos de interação. No
contexto da organização policial, a imagem do pobre é reatualizada dentro
do quadro de valores dominantes na sociedade, que ainda condiciona o pobre
ao lugar do não-direito. Paradoxalmente, um
grande contingente de policiais civis é oriundo das camadas pobres da
população, isto é, sua origem social advém dos mesmos extratos sociais
de sua clientela. Segundo o depoimento de
um policial: "As
pessoas não entendem que o policial vem do povo, do povo para o povo. Ele
tem mãe, ele tem pai, ele tem mulher, ele tem filhos, ele é uma pessoa
comum, só investido de uma função coercitiva que é a função da polícia.
Então existe aquela discriminação, "polícia, eu não gosto de polícia".
Ninguém gosta de polícia, porque o polícia ele existe numa atividade
coercitiva. Ele incomoda, chama, ele prende, ele bate. Então, ninguém quer
ser incomodado, né? (...) Então como o policial, eu falei no início, ele
vem do povo, ele vem da mesma casta que ele vai tentar defender ou prender
ou fazer qualquer coisa" (Detetive, mais de 40 anos, 3ª G.). Note-se que, em todas
as sociedades democráticas do mundo, a polícia tradicionalmente
encarregada de aplicar a lei e manter a ordem, desempenha na sua rotina diária
uma série de outras atividades que se voltam para o atendimento a uma ampla
e variada gama de problemas sem qualquer relação com o crime ou a delinqüência.
Essas atividades são demandadas pelo público em geral e são atendidas
através das chamadas "tarefas assistenciais da polícia". Neste contexto, a
organização policial funciona como um orgão de serviço público, que
acorre às necessidades do cidadão e cuja missão fundamental é garantir o
livre e pacífico exercício dos direitos reconhecidos pela lei. A versão brasileira da
função societal da polícia adquire, porém, outros contornos que precisam
ser matizados. No caso brasileiro, a
organização policial, produto do Estado, mas também desta sociedade, têm
desempenhado menos o papel de orgão de serviço público, garantindo os
direitos do cidadão, do que um obstáculo ao próprio exercício da
cidadania. Historicamente, nesta sociedade, a noção do público é
inteiramente relegada, em proveito, de modo quase absoluto, dos interesses
privados de toda ordem, de maneira que a concepção de cidadania, como
garantia de direitos igualitários de participação para todos, realiza-se
na prática da vida cotidiana para apenas alguns segmentos da população. Neste país, não por
acaso, a noção da polícia como um órgão de segurança pública não foi
o principal objetivo a ser implementado na rotina do trabalho policial. À
polícia foi destinada a missão quase exclusiva de "limpar" do
meio social aqueles designados como os "inimigos" da ordem pública.
De forma geral, os pobres, os negros, etc. são aqueles que, de um modo ou
de outro, objetiva ou simbolicamente, ameaçam a sociedade, constituindo-se
no "out-group" desta sociedade, nos "não-cidadãos"
e nos alvos preferenciais da ação policial. Na "hierarquia de
credibilidade" estabelecida pela sociedade brasileira, o lugar
reservado à pobreza e seus sujeitos é o do descrédito, do desrespeito e
do desprezo aos direitos mínimos de cidadania. Por analogia, a posição da
polícia nesta hierarquia não podia ser outra: Além de lidar com a
marginalidade criminosa, a polícia no Brasil lida prioritária e
majoritariamente com os marginalizados, econômica, política e
culturalmente, por esta mesma sociedade. Deste modo, na
sociedade brasileira a função societal distingue-se por duas características
fundamentais. De um lado, a função societal da polícia consiste em um
conjunto de atividades dirigidas de maneira quase exclusiva para o
atendimento às múltiplas solicitações para a resolução de situações
que emergem no cotidiano das camadas pobres da população. De outro lado, o
comportamento e atitudes da polícia no trato com as demandas da população
pobre, em vez de assegurarem os direitos de cidadania deste seu público usuário,
negam-nos, obstruindo qualquer possibilidade de sua realização no âmbito
do atendimento policial. No acervo de práticas utilizadas na rotina de
trabalho da organização policial, manifestam-se atitudes de violência e
de arbitrariedade, que vão desde a admoestação, à intimidação, a
persuasão, que lembram o lugar reservado aos pobres nesta sociedade. Neste sentido, chama a
atenção o fato de que, na convivência diária e intensa entre a polícia
e a população, a polícia que socorre é a mesma polícia que oprime. A função societal
desenvolvida pela polícia brasileira sofre as influências sociais,
culturais, morais da comunidade em que atua, logo não podia apresentar
outra face que não a da violência e do autoritarismo para com as camadas
pobres da população. A polícia, pelo lugar
que ocupa entre o Estado e a sociedade, precisa ser conhecida e reconhecida
como um orgão importante da administração pública que deve servir como
um serviço público a todos os cidadãos. 2.
Este
projeto foi fruto de um convênio firmado em 1981 entre a Secretaria de
Segurança Pública - R.J. e a Secretaria de Ensino Superior (SESU) do MEC,
que indicou a Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de
Janeiro para implantar a experiência, tendo por objetivo realizar a prestação
de serviços, o ensino e a produção de pesquisas. Posteriormente, o convênio
entre a Secretaria de Estado de Polícia Civil - R.J. (então Secretaria de
Segurança Pública) e a Escola de Serviço Social foi intermediado pela
Fundação Universitária José Bonifácio da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. 3.
Preliminarmente,
o serviço social foi implantado em três delegacias policiais e, em 1984, o
trabalho foi expandido para mais dez delegacias de polícia no Rio e Grande
Rio, sob a coordenação da Escola de Serviço Social. Passados nove anos
desde sua implantação, essa experiência encerrou-se em dezembro de 1990
em conseqüência do cancelamento do convênio entre a Secretaria de Estado
de Polícia Civil - R.J. e a Escola de Serviço Social. O Serviço Social
funcionava em doze delegacias de polícia, entre distritais e especializadas
no atendimento à mulher no Rio e Grande Rio, a saber: 6ª D.P. (Cidade
Nova); 10ª D.P. (Botafogo); 21ª D.P. (Bonsucesso); 34ª D.P. (Bangu); 38ª
D.P. (Irajá); 52ª D.P. (Nova Iguaçu); 59ª D.P. (Caxias); 64ª D.P. (São
João de Meriti); 72ª D.P. (São Gonçalo); Delegacia Especializada no
Atendimento à Mulher - DEAM (Centro e Caxias).
4.
De maneira
geral, os chamados "casos sociais" podem ser caracterizados como
aquelas situações que não contêm especificamente componentes criminológicos.
5.
Ver,
especialmente, os trabalhos de Oliveira (1984) e Fischer (1985).
6.
Aqui me
utilizo da concepção adotada por Oliveira (1984) em sua dissertação de
mestrado "Sua Excelência O Comissário", na qual apresenta um
estudo descritivo e analítico acerca das práticas judiciais exercidas pela
polícia na resolução de pequenos casos de natureza penal protagonizadas
pelas classes populares no Grande Recife.
7.
Da
literatura examinada por nós, destacam-se os seguintes estudos: sobre a
pobreza como fenômeno presente ao longo da história social brasileira, ver
: Brandão, Mattos e Carvalho (1981), Silva (1981), Telles (1991),
Valladares (1991); sobre a violência policial perpetrada contra as camadas
populares, ver: Pinheiro (1979), Oliven (1980), Pinheiro e Sader (1985);
sobre a relação próxima entre polícia e população, ver na literatura
brasileira: Oliveira (1984), Fischer (1985), Gomes (1986,1987), Bretas
(1988), Silva (1990); na literatura estrangeira: Bossard (1983), Rico
(1983), Vignola (1983), Gleizal (1985), Rico e Salas (1992).
8.
Esses
contatos, que chamamos de "informais", foram feitos de várias
maneiras. Inicialmente, realizamos algumas "visitas" à unidade
policial onde havíamos trabalhado para verificar se havia algum policial
"conhecido" ainda lotado naquela delegacia. Em pelo menos duas
"visitas", encontramos alguns policiais com quem havíamos
trabalhado e, ainda, através deles, conseguimos localizar outros para
contato. Fizemos, também, contatos com policiais em encontros absolutamente
casuais na rua, quando aproveitamos a oportunidade para conversar sobre a
proposta da pesquisa e a possibilidade de obter uma entrevista. Contactamos,
ainda, dois policiais "conhecidos", após assistir, em diferentes
ocasiões, a reportagens policiais de programa jornalístico de televisão,
nas quais foram mencionadas as delegacias a que pertenciam.
9.
Nas
entrevistas foram abordadas questões sobre ocupação anterior, ingresso na
organização policial, razão(ões) que levou(aram) à escolha da carreira
policial, expectativas com relação a essa carreira profissional, tarefas
desenvolvidas no cotidiano da organização policial - aquelas, demandadas
pelo Estado e pela população usuária, o tipo de público que procura mais
os serviços da polícia, a imagem que tem da população atendida, a imagem
que a sociedade tem da polícia - influência da mídia, convívio com a sua
família e os vizinhos. 10.
Foram,
ainda, colhidos dados relativos a idade, naturalidade, estado civil e situação
atual, filhos, tipo de residência - casa e/ou apartamento (próprio,
alugado, cedido), escolaridade, religião que tem e/ou que pratica, tipo de
leitura, tipo de lazer.
11.
Todas as
entrevistas foram gravadas e subseqüentemente transcritas para análise
posterior. 12.
Em todas as
entrevistas surgiram questões relativas ao passado e ao presente da profissão
policial, da sociedade, da administração de diferentes governos estaduais,
questões referentes ao bom e ao mau policial no desempenho de suas funções,
entre outras. 13.
A delimitação
do setor onde o policial exerce (ou exerceu) suas atividades mereceu atenção,
pois, nas delegacias policiais distritais e/ou especializadas, cada setor
tem competências específicas e, conseqüentemente, as atribuições
funcionais dos policiais variam de acordo com a sua localização (setor) na
delegacia. Há setores que não lidam diretamente com o atendimento ao público
em geral. 14.
Desse modo,
privilegiaram-se para a entrevista aqueles policiais, em exercício na
atividade policial, que estavam ou estiveram à frente do plantão das
delegacias (detetives e/ou detetives inspetores plantonistas), da sindicância
(detetives e/ou detetives inspetores) e da administração geral das
unidades policiais (delegados titulares). 15.
Convém
sinalizar que o número ínfimo de entrevistas a policiais-mulheres está
relacionado ao cumprimento da exigência metodológica acima mencionada,
segundo a qual a escolha do entrevistado deveu-se a experiência policial
variada. Em face, portanto, deste critério ficaram excluídos das
entrevistas as policiais-mulheres e os policiais-homens que não
contemplaram as referidas condições. No que se refere mais especificamente
às mulheres, seu ingresso em todos os níveis hierárquicos do quadro de
funcionários da Secretaria de Estado de Polícia Civil - R.J. é muito
recente, se deu efetivamente a partir dos anos 80, ampliando-se durante toda
essa década. 16.
Consultar a
respeito: Paixão (1982); Maximiano (1985); Fleury (1989); Minardi (19992);
Franca (s/d). 17.
Para o
reconhecimento da geração a que pertence a fala do policial entrevistado,
adotamos um sistema de identificação que divide em três os períodos de
ingresso na carreira policial: à primeira geração (1ª G.) pertencem
aqueles policiais oriundos do Departamento Federal de Segurança Pública,
que entraram na instituição até 1960. A segunda geração (2ª G.) é
composta por policiais da antiga Secretaria Estadual de Segurança Pública,
que ingressaram na polícia até 1980. A terceira geração (3ª G.) é
aquela que ingressou na organização policial até 1990.
18.
Este
policial, delegado titular de uma delegacia de polícia na zona norte,
ingressou na instituição em 1947 e pertenceu à Polícia Especial criada
por Getúlio Vargas.
19.
número
reduzido, em nosso estudo, de policiais oriundos deste período histórico
deve-se, em parte, pela dificuldade em encontrá-los ainda na ativa e
dispostos a conceder uma entrevista. 20.
Na época
do trabalho de campo, contactamos para entrevista um delegado titular ainda
em exercício, cuja procedência era do Departamento Federal de Segurança Pública
do Distrito Federal. Apesar de ter nos recebido em seu gabinete, não nos
concedeu a entrevista.
21.
Este grupo
de policiais, procedente da polícia carioca e fluminense, ingressou na
organização na década de 60. Porém, sua origem na carreira policial não
é uniforme, um deles foi policial federal, outros foram guardas municipais,
vigilantes, carcereiros do sistema penal. Com a fusão dos dois estados em
1975, esses policiais foram incorporados à Secretaria Estadual de Segurança
Pública do Estado do Rio de Janeiro.
22.
Este grupo
de policiais participou de concurso público realizado em 1982 pelo primeiro
governo Brizola. Entretanto, o seu ingresso na instituição se deu ao longo
desta década, na medida em que foram nomeados tanto no governo Brizola como
no governo Moreira Franco.
23.
Neste
trabalho, utilizamos o conceito de tipificação no sentido conferido a ele
por Berger e Luckmann (1985).
24.
Consultar a
propósito Paixão (1981); Berger e Luckmann (1985) e Fischer (1985).
25.
Observe-se
ainda que não é só a organização policial que detém o poder de polícia.
Esse poder é próprio da administração em geral para a manutenção da
ordem e segurança da população, como no caso das inspeções da Saúde Pública,
Corpo de Bombeiros, etc. A polícia exerce-o de dois modos: pela prevenção
e pela repressão. Ver a respeito Esquenazi (1981) e Kant de Lima (1989).
26.
Sobre o
poder discricionário da polícia, consultar também: Rico (1983); Paixão
(1981, 1988); Pinheiro (1982); Kant de Lima (1989, 1994); Rico & Salas
(1992). 27.
Sobre o
sistema de classificação utilizado pela polícia para identificar o público,
ver Kant de Lima (1989, 1994); Carvalho (1991); Paixão (1981, 1982).
28.
A título
de ilustração, citamos uma matéria publicada em 23/06/95, no Jornal do
Brasil, sobre a intervenção realizada pela prefeitura da cidade do Rio de
Janeiro no dia anterior para retirar das ruas da zona sul a chamada
"população de rua". Chama atenção na matéria o título dado
pelo prefeito Cesar Maia para esta intervenção, "Operação
Faxina", e também os profissionais envolvidos em tal empreitada,
policiais civis e militares e a guarda civil da cidade.
Bibliografia A
Instituição Policial.
Documento elaborado na sistematização da prática do serviço social no
Projeto de Serviço Social em Delegacias de Polícia apresentado no seminário
"Democratização, Cidadania e Instituição Policial" promovido
pela Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
junho de 1990, mimeo. A
Prática do Serviço Social em Delegacias de Polícia do Estado do Rio de
Janeiro.
Documento elaborado pela equipe de assistentes sociais que trabalhou em
delegacias, Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de
Janeiro, setembro de 1986, mimeo. BACZKO,
Bronislaw. "Imaginação Social". In: Enciclopédia Einaud, v. 5,
Antropos -Homem, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1985, p. 296-332. BARBOSA, Lívia Neves de Holanda. "O Jeitinho, ou a Arte de Ser Mais Igual que os Outros". In: CIÊNCIA HOJE, Revista de Divulgação Científica da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, v. 7, no. 42, 1988. BECKER,
Howard S.. Uma
Teoria da Ação Coletiva,
Trad. Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes, Rio de Janeiro, Zahar Editores,
1977, (Antropologia Social), pp. 9-36; 122-157. BERGER,
Peter L. & LUCKMANN, Thomas. A
Construção Social da Realidade:
Tratado de Sociologia do Conhecimento. Trad. Floriano de Souza
Fernandes, Petrópolis, Vozes, 1985. BOBBIO, Norberto et alli. "Polícia". In: Dicionário de Política, Brasília, Editora Universidade de Brasília, Gráfica Editora Hamburg Ltda, 2o ed., 1986, p. 944-949. BOSSARD,
André. "Las Funciones Policiales". In: RICO, José Maria (comp). Policía
y Sociedad Democrática, Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 148-174. BRETAS,
Marcos Luiz. "Policiar a Cidade Republicana". In:
LEMGRUBER, Julita (coord.) A
Instituição Policial,
Revista da OAB, julho de 1985, p. 47-60. __________________.
A Guerra das Ruas. Povo e Polícia na Cidade do Rio de Janeiro.
Dissertação de Mestrado, Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de
Janeiro, 1988. CANCELLI,
Elizabeth. O Mundo da Violência: a Polícia na Era Vargas, Brasília,
Editora Universidade de Brasília, 1993. CARVALHO,
José Murilo. "O Povo do Rio de Janeiro: Bestializados ou
Bilontras?". In: Revista do Rio de Janeiro, Niterói, vol. 1, no. 3,
mai/ago, 1986, p. 5-16. ____________________.
"Brasileiro: Cidadão?". Ciclo de Debates sobre o Brasileiro e a
Cidadania. Transcrição da palestra proferida pelo cientista político José
Murilo de Carvalho, Curitiba, Auditório Maria José de Andrade Vieira, 7 de
outubro de 1991, p. 3-20, (mimeo). DIAS,
Francisco Mauro. "Da Responsabilidade Administrativa do Policial
Civil". In:
LEMGRUBER, Julita (coord.). A
Instituição Policial,
Revista da OAB, julho de 1985, p. 105-112. ESQUENAZI,
Elias. "O Poder de Polícia". In: Revista de Polícia, Rio de
Janeiro, Associação das Autoridades Policiais do Estado do Rio de Janeiro,
ano III, no. 3, julho de 1981, p. 74-78.. FRANCA,
Roberto. "Segurança e Mediações Institucionais". In cadernos
CEAC, no. 123, s/d, p.24-28. FISCHER,
Rosa Maria. O Direito da População à Segurança: Cidadania e Violência
Urbana. Petrópolis, Vozes, CEDEC, 1985. GLEIZAL,
Jean Jacques. Le Désorder Policier. Paris,
Presses Universitaires de France, Collection Politique d' aujour' hui, 1985,
(caps. 1 e 2). GOMES,
José Maria. A Lógica da Instituição Policial. Palestra proferida
na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
1986, p. 1-7, mimeo. _________________.
A Prática do Serviço Social em Delegacias de Polícia do Rio de Janeiro
- Algumas Possibilidades de Pesquisa. Palestra proferida na Escola de
Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1987, p. 1-6,
mimeo. GUIMARÃES,
Alberto Passos. As Classes Perigosas, Rio de Janeiro, Graal, 1982. HUGHES,
Everett C.. "Good People and Dirty Work". Social
Problems, Vol. X, verão, 1962, p. 85-97. JAMUR,
Marilena (coord). Projeto Integrado de Pesquisa: Representações Sociais
da Pobreza e Práticas de Assistência na História do Rio de Janeiro,
Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1991. JODELET,
Denise. "Représentation sociale: phénomènes, concept et théorie".
In: MOSCOVICI, S. (org.), Psychologie Sociale. Paris,
Presses Universitaires de France, 1984. Trad. Marcelo Saldanha da Gama,
Revisão Celso Sá e Marisa Viale, mimeo. KANT
DE LIMA,
Roberto. "Cultura Jurídica e Práticas Policiais: A Tradição
Inquisitorial". In: Revista Brasileira Ciências Sociais, v. 4, no 10,
1984, p. 65-84. ____________________.
A Polícia no Rio de Janeiro seus Dilemas e Paradoxos, Tradução
de Otto Miller, Rio de Janeiro, Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro, 1994. LEMGRUBER,
Julita. "O Policial Civil: Conflitos e Contradições". In:
LEMGRUBER, Julita (coord.) A
Instituição Policial,
Rio de Janeiro, Revista da OAB, 1985, p. 207 -236. MAXIMIANO,
Antonio Cesar A.. "A
Administração e as Organizações". In: Introdução à Administração,
São Paulo, Editora Atlas, 1985. p. 21-72. MICHAUD,
Yves. A Violência, São Paulo, Editora Ática, 1989. MINARDI,
Guaraci. "Controle Governamental e Policiamento". In: Anais do
Seminário Polícia Militar, Estado e Sociedade. Os Desafios da Modernidade,
Minas Gerais, Fundação João Pinheiro, novembro de 1992, p. 47-55. MOTA,
Paula P. "Pobreza: Conceitos, Métodos e Indicadores Sociais".
Trabalho realizado no quadro do Subprojeto: "Pobreza dá Ibope? O Lugar
do Pobre na Imprensa Carioca e nas Telenovelas pertencente ao Projeto
Integrado de Pesquisa: Representações Sociais da Pobreza e Práticas de
Assistência na História do Rio de Janeiro", Escola de Serviço Social
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1994, (mimeo). Objetivos
da Expansão da Prática do Serviço Social em Delegacias de Polícia.
Documento elaborado pela equipe de assistentes sociais do Projeto de
Implantação do Serviço Social em Delegacias de Polícia, Escola de Serviço
Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1984. (mimeo) OLIVEIRA,
Luciano. Sua Excelência, o Comissário. Dissertação de Mestrado,
PIMES/UFPE, Recife, 1984. PAIXÃO,
Antônio Luiz. "A Distribuição de Segurança Pública e a Organização
Policial, V Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa
em Ciências Sociais, GT "Organizações e Sociedade", Nova
Friburgo, 1981. ____________________.
"A Organização Policial numa Área Metropolitana". In: Dados -
Revista de Ciências Sociais, v. 25, no 1, 1982. PAIXÃO,
Antônio Luiz.. "Crime, Controle Social e Consolidação da
Democracia". In: REIS, Fabio & O'DONELL, Guilhermo (org).A
Democracia no Brasil: Dilemas e Perspectivas, São Paulo, Vértice,
Editora Revista dos Tribunais, 1988, p. 168-199. PINHEIRO,
Paulo Sérgio. "Violência do Estado e Classes Populares", Dados,
Vol.. 22, 1979. PINHEIRO,
Paulo Sérgio e SADER, Emir. "O Controle da Polícia no Processo de
Transição Democrática no Brasil", Temas IMESC - Sociedade, Direito,
Saúde, São Paulo, vol. 2, no. 2, 1985, p. 77-95. RELATÓRIO
AMERICAS WATCH.
Violência Policial no Brasil. Execuções Sumárias e Tortura em São
Paulo e Rio de Janeiro, dezembro de 1987. REISS
Jr., Albert. "Policía y Comunidad. In: RICO, José Maria (comp) Policía
y Sociedad Democrática, Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 186-210. RICO,
José Maria. "Presupuestos
para una Reforma de la Policía". In: RICO, José Maria (comp) Policía
y Sociedad Democrática, Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 12-28. RICO,
José Maria. "Sistemas
Comparados de Policía". In: RICO, José Maria (comp) Policía y
Sociedad Democrática, Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 29-47. __________________.
"El Poder Discrecional de la Policía y su Control". In: RICO, José
Maria (comp) Policía y Sociedad Democrática, Madrid, Alianza
Editorial, 1983, p. 211-233. RICO,
Jose Maria e Salas, Luis. Delito, Insegurança do Cidadão e Polícia:
Novas Perspectivas. Trad. Mina Seinfeld De Carakushansky, Rio de
Janeiro, Polícia Militar, 1992. SANTOS,
José Nunes dos. "A Polícia Civil: Ligeiro Esboço Histórico". In:
LEMGRUBER, Julita (coord.) A
Instituição Policial,
Revista da OAB, julho de 1985, p. 15-25. SANTOS,
Wanderley Guilherme dos. Cidadania e Justiça: A Política Social na
Ordem Brasileira, Rio de Janeiro, Campus, 1987. SILVA,
Marlise V.. Violência contra a Mulher: Rompendo Barreiras. Dissertação
de Mestrado, Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de
Janeiro, 1990, (Capítulo I). TEMPONI,
Maria Augusta de A. et alli.. "Violência e Cidadania". In: Rocha,
Alexandre Sergio (org,). Violência e Cidadania. Estudos e Debates dentro do
Projeto Participação, UFRJ/JB, 1983, p. 17-23. TELLES,
Vera. Questão Social e Cidadania. XV Encontro Nacional da ANPOCS,
Caxambu, Minas Gerais, 1991. VALLADARES,
Lícia. "Cem Anos Pensando a Pobreza (urbana) no Brasil". In:
BOSHI, Renato R. (org.): Corporativismo e Desigualdade: a Construção do
Espaço Público no Brasil, Rio de Janeiro, Rio Fundo/Ed. IUPERJ, 1991,
p. 81-112. VAN
MAANEN,
John. "Processando
as Pessoas - Estratégias de Socialização Organizacional". In:
FLEURY, Maria Teresa L. [et al]. Cultura e Poder nas Organizações,
São Paulo, Atlas, 1989, p. 45-62. VELHO, Gilberto e VIVEIROS DE CASTRO, E. "O Conceito de Cultura e o Estudo de Sociedades Complexas: uma Perspectiva Antropológica". In: Artefato, Rio de Janeiro, Ano I, no. 1, jan. 1978, p. 4-9. VELHO, Gilberto. "Violência e Cidadania", In: Dados-Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Ed. Campus, v. 23, no. 3, 1980, p. 361-364. _______________.
"Memória, Identidade e Projeto". In: Projeto Metamorfose:
Antropologia das Sociedades, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994, p.
97-105. VELHO,
Gilberto. "O Grupo e seus Limites". In: Projeto e Metamorfose:
Antropologia das Sociedades, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994, p.
106-113. VIGNOLA, Henri-Paul. "La Administración de los Servicios de Polícia". In: RICO, José Maria (comp) Policía y Sociedad Democrática, Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 145-165. |
|
|||||||||||||||||||
|
Web designer: Otálio Afonso |