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DE PESCARIAS E DE PROGRAMAS 

    Alberto Afonso Landa Camargo 

Os automóveis pararam na sinaleira da avenida larga. No prédio em frente onde funciona importante periódico discutem-se as notícias mais importantes do momento, desfilando pelas telas dos seus computadores as guerras e outras tragédias e catástrofes que povoam diariamente as suas páginas e atraem os compradores que sustentam este comércio de desgraças por trás do sangue e das lágrimas dos seus atores que ora são vítimas diretas, ora são atingidos indiretamente por elas.

Absortos na discussão do que é mais importante e mais significativo para sustentar a venda e superar a concorrência com outros jornais, repórteres e jornalistas não se distraem sequer para prestar atenção ao menino maltrapilho e franzino que na rua se aproxima das janelas dos automóveis com a mão estendida e quase chorando.

- Uma moedinha aí, tio, prá que eu possa comprá um pão porque não almocei hoje e tô com fome.

O homem do automóvel mexe nos bolsos e estende ao menino franzino uma nota de cinco reais. Ele pega o dinheiro sem muito entusiasmo, parecendo que está acostumado a ver nas mãos valores sempre insuficientes para um almoço. Olha de novo para a cédula que abre com as duas mãos e muda aquela fisionomia triste que de tanto tempo já fez marcas no rosto. Olha novamente e aproxima mais o objeto dos olhos.

- Eba! – grita enquanto se afasta saltitando, alargando um sorriso que toma conta do rostinho, e pula para o canteiro que divide a larga avenida sem preocupar-se em pedir para os demais motoristas parados à sinaleira.

- O meu almoço! Eba!

Imagino que o motorista acaba de cometer um pecado mortal, pois há muito tempo venho lendo nos jornais que entidades assistenciais e religiosas recomendam que não seja dado nada para pessoas necessitadas, mas que se encaminhe as doações para esses órgãos para que façam a redistribuição. Não são poucas as pessoas com que já conversei que disseram que nunca mais doaram nada para pedintes. “Não lhes dê o peixe; ensine-os a pescar”, dizem. Outras anunciam que através de programas governamentais estão sendo distribuídos recursos para que famílias pobres tenham suas necessidades básicas satisfeitas e não mais precisem andar pelas ruas como pedintes. Informam, inclusive, sobre o sucesso de tais programas e alardeiam números de sorridentes pessoas, em montagens televisivas, que estão satisfeitas e felizes com as doações governamentais.

As crianças em especial, no entanto, continuam nas ruas. Ou as aulas de pescaria estão sendo mal ministradas e ninguém está aprendendo nada, ou os alardeados programas governamentais só têm sucesso nas telas dos aparelhos de televisão, tal como as novelas que encantam enquanto desfilam contos de fadas na tentativa de substituir a realidade na mente daqueles que assistem a ficção. E o menininho continua ali na rua olhando aparvalhado para os cinco reais, custando a acreditar que aquilo não é a ficção dos programas dos governos e das escolas de pescaria.

Abre o sinal, os automóveis arrancam e seus motoristas sequer se dão conta de que o pequeno, quase ínfimo, peixe de cinco reais acabou de fazer a felicidade, ainda que momentânea, de uma criança. Também alheios a isto continuam os jornalistas e repórteres do jornal vizinho a fazer suas matérias. Amanhã as páginas coloridas do periódico falarão sobre a guerra no Oriente Médio, as ogivas nucleares da Coréia, a purificação do urânio no Irã e o discurso de três horas que o presidente da Venezuela fez na reunião do Mercosul enquanto o um outro aumenta o preço do gás que o povo brasileiro terá que pagar porque a Bolívia é pobre. E certamente sobrará espaço para os candidatos anunciarem que se eleito forem vão tirar as crianças das ruas, dar-lhes educação e segurança.

E pela importância e significação destes temas, tantos pedintes e seus dramas, por tão comuns no cenário cotidiano, já não chamam mais a atenção.

Por que, então, deveria chamar a atenção a inusitada cena de uma criança miserável que momentaneamente saltita de felicidade em meio a um canteiro público?

Leia mais:   Artigos   -   Trabalhos   -   Notícias/pesquisas

 

 

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