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Revista Isto É Independente nº 1714

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O fator Elias Maluco
Mergulhados na pobreza, moradores da Vila Cruzeiro, onde Tim Lopes foi assassinado, agora sofrem com o estigma do lugar

Francisco Alves Filho

Ap Photo/Paulo Araujo/Ag. O DIa

Reprodução/Ag. O Globo

Tim Lopes e Elias Maluco: a morte fez a fama trágica

Desempregado há um ano e três meses, o carioca Gutenberg Vieira, 36 anos, tem encontrado nas últimas semanas ainda mais dificuldade para conseguir um trabalho que sustente a mulher e os quatro filhos. Ao preencher as fichas de cadastro como candidato a alguma vaga, desperta atenção quando no espaço dedicado ao endereço escreve Vila Cruzeiro. Os responsáveis pelo recrutamento e seleção mudam de atitude. Foi assim da última vez, quando concorria ao emprego de auxiliar de serviços gerais em uma indústria. “O rapaz comentou que eu moro num lugar muito perigoso e nunca mais me recebeu”, conta Vieira. A favela, localizada no bairro da Penha, zona norte do Rio, tem 22 mil habitantes e ficou internacionalmente conhecida depois que traficantes torturaram e assassinaram o jornalista Tim Lopes, no dia 2 de junho. Desde então, muita gente procurou a associação de moradores para reclamar do estigma. “Nossa comunidade está sendo discriminada”, denuncia o presidente da Associação Comunitária da Vila Cruzeiro, Antonio Tiburcio Nogueira. É mais um problema que se soma aos vários do lugar. Um levantamento da entidade comunitária mostra que 60% dos chefes de família da favela estão desempregados, 38% das moradias não dispõem de rede de esgoto, o único ambulatório é o da associação de moradores e a evasão escolar é grave. A ação dos traficantes completa o quadro de abandono.

Carlos Magno

 

Por alguns dias, ISTOÉ circulou pela Vila Cruzeiro para conhecer o lugar que passou a ser visto como a principal área de risco na guerra diária que o Rio de Janeiro trava contra o tráfico. “Estão agindo como se aqui só houvesse bandidos. A grande maioria é de gente direita, que quer trabalhar para amenizar a pobreza”, reclama Nogueira. Os verdadeiros bandidos, integrantes da quadrilha do traficante Elias Maluco, estão mais cautelosos. Durante o dia, policiais bem armados rondam e intimidam os marginais. À noite, o movimento da polícia diminui e o comércio de drogas é retomado, ainda que em menor escala. Depois da morte de Tim Lopes, pelo menos um caso de tortura e estupro foi registrado no local. O baile funk, onde traficantes desfilavam com fuzis AR-15, metralhadoras e grande quantidade de drogas, nunca mais voltou a ser realizado. Apesar do aparato policial, algumas rajadas de metralhadoras foram ouvidas no início da tarde de terça-feira 23 de julho, quando a reportagem de ISTOÉ estava na favela.

Carlos Magno

Na Associação dos Moradores, Gutenberg Vieira (de boné) e Júlio Pereira buscam emprego: morar na Vila Cruzeiro virou mais uma dificuldade na vida de 22 mil pessoas trágica

Promessas – Depois do assassinato de Tim Lopes, as únicas providências governamentais além do reforço de policiamento foram ações esporádicas de atendimento médico e expedição de documentos. Nada foi feito para amenizar o desemprego – problema que a má fama do lugar só agravou. Um grande programa de ação social, organizado pelos governos municipal, estadual e federal foi anunciado para começar ainda este mês, e o presidente Fernando Henrique Cardoso prometeu visitar a favela. Pai de duas filhas, Júlio Pereira, 30 anos, está sem trabalhar há 11 meses e espera que essas providências amenizem a imagem negativa da favela. Ele também costuma ouvir comentários pejorativos ao declarar o endereço nas entrevistas de emprego. “O tom da conversa fica diferente”, afirma. A associação de moradores passou a recolher currículos para tentar ajudar a resolver o problema. Mesmo aqueles que conseguem emprego continuam longe das condições ideais de vida. O Censo 2000 do IBGE mostra que os chefes de família das favelas cariocas recebem em média R$ 352, apenas 23% da média salarial registrada no restante da cidade, que é de R$ 1.534.

Cidadania

 

Fotos: Carlos Magno

O professor Antônio Veríssimo e seus alunos de artes cênicas no palco improvisado dentro da escola local: Romeu e Julieta ao som de rap para evitar a apologia ao tráfico de drogas

Vila Cruzeiro é vizinha de outras duas favelas, o Parque Proletário e o Grotão – tão coladas que é difícil saber onde uma começa e a outra termina. A principal via de tráfego é a Estrada José Rucas, onde uma multidão se aglomera nas estreitas calçadas e se derrama no asfalto, obrigando motoristas a reduzir a velocidade. Ali se concentra o comércio local, lojas como o Mercadinho Ganha Pouco ou o Jô-Juli Bazar. Também os raros recantos de lazer da comunidade, o campo de futebol Ordem e Progresso e o Grêmio Recreativo Bloco
Carnavalesco Fura Zói. O lugar é servido por seis linhas de ônibus
e conta com cinco escolas públicas. Na favela existem oito igrejas – uma católica e sete evangélicas.

Marcelo Regua/Ag. o Dia

Adriano: “Tem que cuidar desde pequeno”

O pastor Waldemar Vieira, 49 anos, é o responsável pela Igreja Batista do Grotão. Nasceu na Vila Cruzeiro e há 19 anos faz trabalho de evangelização na comunidade. Uma de suas principais preocupações é tirar jovens do tráfico: cerca de 50 fiéis de sua igreja foram recuperados. “A maioria é de jovens entre 21 e 23 anos, que não passaram das primeiras séries do ensino fundamental”, conta. O número de escolas poderia ser suficiente, caso o sistema público de ensino não estivesse tão debilitado. A historiadora Marize Bastos da Cunha escreveu uma dissertação de mestrado sobre os movimentos sociais na Vila Cruzeiro e já foi professora de uma das escolas locais. Ela acredita que o sistema educacional não está preparado para lidar com esse quadro de exclusão. “A escola está mal aparelhada, não cumpre o papel de difundir o conhecimento nem o de preparar para o mercado. Sua atual tarefa é apenas estimular a sociabilidade e tentar manter a população jovem sob controle”, explica Marize, que coordena a ONG Gestão Comunitária.

Arte é vida – A Escola Municipal Leonor Coelho Pereira, onde cerca de mil alunos estudam da alfabetização à oitava série, funciona num prédio de dois andares, com salas que chegam a comportar 45 crianças. Nos muros, pichações com declarações de amor ou apologia às facções marginais. A questão da violência é um dos vários problemas da Vila Cruzeiro que acabam desaguando na escola. A gravidez de adolescentes e a jornada de trabalho de crianças pobres costumam tirar muitos alunos das salas de aula.

 

Fotos: Carlos Magno

 

Crianças jogam bola no Cantinho do Adriano (no detalhe): o jogador, hoje no Parma da Itália, virou ídolo da favela e serve de exemplo no trabalho do pastor Waldemar (acima)

Para driblar as dificuldades, os professores usam a criatividade. Antônio Veríssimo dá aulas de artes cênicas e transforma em palco a sala de aula. Normalmente encena com os alunos peças que nascem de criação coletiva. “Eles sempre incluem personagens que representem um traficante ou um bandido”, observa. A última peça chama-se 313, alusão a uma linha de ônibus. Entre vários tipos, há uma dupla de assaltantes que aparece para roubar os passageiros. “A gente quer mostrar a realidade de quem anda de ônibus, então colocamos um ladrão”, afirma a aluna Natália Correa, de 13 anos. Para tentar esvaziar a tensão que envolve os personagens marginais, Veríssimo acrescenta uma pitada de humor, que os torna meio trapalhões. “É uma forma de evitar a apologia”, explica. Veríssimo também leva aos alunos da Vila Cruzeiro os clássicos universais e transporta histórias de época para a realidade de hoje. Foi assim quando encenou Romeu e Julieta, de Shakespeare. A clássica disputa entre as famílias dos dois amantes se transformou num confronto entre o morro dos Montechio e o morro dos Capuleto. Uma das alunas criou um rap para cada lado, bem ao estilo das músicas que a juventude dança nos bailes funk das favelas. De um lado: “Se brotar na pista/ Vai virar peneira/ No morro dos Montechio/ Não estamos de bobeira.” E do outro: “É chapa quente/ Só tem menor valente/ No morro dos Capuleto/ É tudo de repente.”

Cidadania

Fotos: Carlos Magno

Crianças jogam bola no Cantinho do Adriano (no detalhe): o jogador, hoje no Parma da Itália, virou ídolo da favela e serve de exemplo no trabalho do pastor Waldemar (acima)

Além da escola, as crianças identificam nos campos de futebol outra possibilidade de deixar para trás a pobreza. Do campo de pelada da Vila Cruzeiro saiu Adriano, que depois de algumas temporadas no Flamengo foi vendido ao Internazionale, da Itália, e hoje joga no Parma. Nascido na Vila Cruzeiro, onde morava até três anos atrás, Adriano, hoje com 20 anos, tornou-se modelo para os pequenos da favela que jogam futebol e buscam um futuro melhor. Com o esporte, a família manteve Adriano longe da influência do tráfico. “Vi muitas coisas erradas, mas procuro não julgar nem discriminar”, disse a ISTOÉ. Adriano dá uma receita para diminuir o envolvimento de jovens com o tráfico: “Tem que cuidar desde pequeno. Dar educação, ajudar as crianças a terem uma memória diferente.” Éderson de Souza, dez anos, conhecido como Baby, é um dos craques mirins que querem repetir a trajetória de Adriano. Tem oito irmãos, o pai faleceu de infarto e a mãe está desempregada. “Isso aqui é minha única esperança”, admite. Histórias como a de Éderson são comuns. “Os jovens que vão pelo caminho errado têm tênis de marca e namoradas bonitas. É preciso instalar quadras de esporte, mostrar que é possível se destacar por atividades positivas”, reivindica o presidente da associação de moradores.

Mas a chamada ocupação social não resolve os problemas da favela. O desemprego e o salário baixo são os principais fatores de degradação. “É preciso trabalho, salário decente”, pede Deise Aparecida, 27 anos. Atendente de um consultório dentário, com salário inferior a R$ 300 e o marido desempregado, ela recorre ao ambulatório de psicologia da associação de moradores para tratar do filho Gabriel, 6 anos, que é hiperativo. Não tem dinheiro para pagar a fonoaudióloga que o menino necessita. “Se a gente não tiver trabalho, não adianta nada.”

 

 

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