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Zero Hora de 04/05/03

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Retratos da guerra brasileira

Os enviados especiais de ZH ao Rio acompanharam chacinas, perseguições e ocupações de favelas na mais cruenta batalha urbana do país, na semana em que o ex-governador Garotinho deu início a nova estratégia de combate ao narcoterror (foto Ronaldo Bernardi/ZH)


Cenas da guerra civil no Rio

TEXTOS: HUMBERTO TREZZI FOTOS: RONALDO BERNARDI/ Enviados Especiais/Rio

A guerra civil que assola o Rio há duas décadas inverte valores e subverte a lógica. PMs escondem a farda quando saem do quartel para não serem mortos por bandidos, enquanto repórteres vestem coletes à prova de balas e usam carros blindados para subir os morros. Policiais são alvo de atentados, peritos só trabalham com escolta e presos ditam quem vive, quem morre e quem deve ser banido das favelas.

Por trás deste cenário, ronda a morte, transformada em espetáculo banal. Como torcidas de clubes, facções criminosas disputam território em nome de siglas temidas por todos, como CV, ADA e TC. A diferença é que, em lugar de bandeiras, os torcedores carregam fuzis e lança-granadas. Em vez de festas, promovem chacinas.

Na semana em que o novo secretário da Segurança Pública, Anthony Garotinho, assumiu a função, ZH foi ao Rio retratar a guerra que contamina o Estado.

 

Brincando no rádio antes do combate

Sargento no Grupamento Especial Tático Móvel (Getam), bicho-papão da PM carioca, Ramiro tira o dedo do fuzil por um instante e aperta o botão do rádio Motorola: - Fala aí, Três C... Vou rodar geral, vou quebrar coco. Te cuida, tá ligado!

Logo uma voz aguda rompe a estática do rádio. Entre chiados, alguém avisa:

- Tem nada pra fazer aí não, ô verme? Vem que a parada é dura.

O que parece um diálogo entre amigos é o desafio a um duelo. Na gíria dos morros cariocas, Três C... é o integrante do Terceiro Comando, uma das três principais facções criminosas do Rio e que controla cerca de 40 favelas. Verme (ou comando azul) é como os policiais são chamados pelos bandidos.

Na noite de quarta-feira, 30 de abril, os PMs que patrulham a Linha Amarela (artéria viária que corta a Capital de Leste a Oeste), nas cercanias da Cidade de Deus, estão irritados porque têm o silêncio do rádio cortado sistematicamente por criminosos que invadem a freqüência.

Mais aborrecidos ainda porque têm ordens expressas do novo secretário da Segurança Pública, Anthony Garotinho, de não ocupar morro sem um forte motivo. A idéia é acalmar os ânimos, ocupando as vias expressas do asfalto (além da Linha Amarela, a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, no sentido Norte-Sul) e evitando as invasões de favelas. As ocupações se limitam a avenidas, sem incursões pelas vielas.

Cansados de provocar pelo rádio os policiais e não obter reação, os traficantes da Cidade de Deus se divertem atiçando os rivais do CV (Comando Vermelho), que dominam a vizinha Vila do João e outras 80 favelas.

- O rodo vai passar, vai ser faxina geral - ameaça o integrante do TC, recebendo palavrões como resposta.

A faixa de onda da PM vira zona livre. Quase sempre a brincadeira termina mal. Há 10 dias, na Linha Amarela, bandidos numa passarela atacaram um comboio de PMs com metralhadora antiaérea. Um microônibus foi furado a tiro e caiu em um valão.

Atirar nos policiais, depois de brincar no rádio, é outra das diversões escolhidas pelos traficantes para quebrar o tédio. Que o diga o soldado Paulo (o nome foi trocado), 28 anos, oito de PM, que na noite de quarta-feira patrulhava em dupla uma das 15 confluências da Linha Amarela com favelas da periferia. O Gol que ele e o colega usam, com giroflex, é o alvo do treinamento de tiro dos traficantes do Morro do Adeus (dominado pelo TC), em guerra com os da Vila da Penha (sob domínio do CV).

A mureta central da pista da Linha Amarela, junto à viatura da PM, está toda furada a tiro.

- O pior é que, quando a gente ouve o barulho, a bala já passou. É tiro toda noite, até acostuma. E nem posso devolver, senão mato algum inocente num barraco - explica o soldado.

Sem água nem banheiro, com ordens de ficar parado 12 horas no mesmo ponto da via, Paulo é o retrato do desânimo. Ganhando R$ 800 mensais, está atrás de um bico, mas não consegue, porque as vagas de segurança estão disputadas. Quando faltou casa para morar, meteu o pé na porta de uma residência que estava com placa de "Aluga-se" há três anos, invadiu e deixou ali a família:

- Era isso ou morar em favela, morte certa.

O soldado é nostálgico da época em que "para cada policial morto baixavam 10 bandidos no inferno". Para surpresa do PM, a média está próxima disso. Em março deste ano, morreram 113 pessoas no Rio em confronto com policiais, contra 63 no ano passado. Entre civis e militares, o número foi 13.

Baixas de março

Morreram 113 pessoas em confronto com policiais.

Entre policiais civis e militares,o número de mortes foi 13.


Imprensa usa carro blindado e PM tira a farda

"É a nossa guerra, não é brinquedo", diz o fotógrafo do jornal Extra Guilherme Pinto (à direita na foto), que anda em carro blindado com o repórter Jorge Machado (de colete à prova de balas)

Todo mundo já sabe que repórter carioca não precisa sair de casa para ser correspondente de guerra. A novidade é que os jornalistas do Rio, ao entrar em favelas, passaram a usar parafernálias de segurança características de países em conflito.

Nas Organizações Globo, a orientação virou regra, apelidada Efeito Tim Lopes (repórter da TV Globo esquartejado por traficantes no ano passado). Os jornais do grupo têm veículos blindados para subir morros que vivem situações de confronto.

No jornal Extra, um Golf. Em O Globo, uma Blazer. As TVs Globo e Record adotaram ainda coletes à prova de balas para profissionais em missões de risco.

- O legal dessa história é que o carro tem ar-condicionado - brinca o repórter Jorge Machado, 23 anos, há três atuando no Extra, que dispõe de colete à prova de balas com as inscrições Imprensa desenhadas em letras garrafais.

- Essa é a nossa guerra, não é brinquedo - justifica o experiente fotógrafo Guilherme Pinto, também do Extra.

Enquanto os repórteres cada vez mais se parecem com soldados, os militares, quando de folga na PM, fazem de tudo para esconder a identificação.

O motivo é a série de assassinatos premeditados que estão sendo cometidos contra policiais civis e militares fluminenses desde que o chefão do tráfico carioca, Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, jurou vingança por ter sido exportado para prisões de outros Estados (São Paulo e Alagoas).

Só na primeira semana da gestão de Anthony Garotinho, três policiais (dois civis e um militar) foram executados a tiros. Um deles, o detetive André Luiz Prata (lotado na 37ª Delegacia da Polícai Civil, da Ilha do Governador), foi esquartejado.

- Saio do quartel vestido de camiseta, calça jeans e tênis. Escondo a farda numa sacola, e a pistola, embaixo da blusa. Vou de ônibus para casa, e os vagabundos fazem blitze nas pistas para assalto ou somente para conferir se tem inimigo dentro. Se desconfiarem de que sou policial, sou morto na hora - justifica o tenente Sérgio S., que atua no Batalhão de Choque, um dos mais temidos da Polícia Militar.

Só em março deste ano, o tenente Sérgio perdeu dois colegas oficiais da sua unidade, um deles assassinado dentro de um ônibus, quando bandidos perceberam a sua carteira funcional.


PMs viram alvo e pastor pede proteção

Depois de alguns dias de trégua, o narcoterror voltou a mostrar as suas garras na madrugada da última quinta-feira no Rio. Armados com metralhadoras, quatro ocupantes de um Siena abriram fogo contra uma cabine da Polícia Militar no subúrbio do Méier (Zona Norte).

Eram aproximadamente 3h, e os três policiais que estavam de plantão na cabine se jogaram ao chão para escapar das rajadas. A vidraça foi destruída, e balas acertaram os prédios vizinhos, mas ninguém se feriu. Os bandidos foram perseguidos, mas conseguiram escapar do local.

Longe dali, em Manguinhos (Zona Oeste), uma viatura da PM foi atingida por uma série de disparos. Ali também ninguém ficou ferido.

Em Cidade de Deus, famosa por ter inspirado o filme brasileiro de maior sucesso no ano passado, o pastor evangélico Orlando Pacheco requisitou proteção policial para se mudar. Amigo pessoal do secretário da Segurança Pública, Anthony Garotinho, ele acusou os traficantes Pará e Carlinhos, que mandam no bairro, de tentar extorqui-lo em R$ 4 mil.

Ex-governador, Garotinho ordenou uma blitz na favela, mas não foram efetuadas prisões. O pastor e sua família foram escoltados pela PM até um refúgio no centro da cidade.

No mesmo dia, a violência fez uma confeitaria centenária fechar as suas portas para o público. A Leiteria Silvestre, instalada no centro do Rio há mais de um século, deixou de funcionar na sexta-feira "em função dos assaltos contra os clientes que deixavam o prédio", justificou o gerente do estabelecimento, o português Armando Jorge.

Ele culpou também as brigas entre os camelôs e os fiscais da prefeitura pela perda de 50% da clientela ao longo deste ano. Os 13 funcionários do estabelecimento, situado na Rua São José e um dos mais conhecidos do Rio, ficaram desempregados.

 

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