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Zero Hora de 02/06/02

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GANGUES MARCAM ZONAS DE GUERRA EM PORTO ALEGRE

Quadrilhas de traficantes transformaram áreas de vilas e bairros da Capital em campos
de batalha. Na disputa por territórios para a venda de drogas, impedem moradores de
circular, andam nas ruas com armas de grosso calibre à mostra e não hesitam em trocar
tiros, inclusive durante o dia, quando encontram a facção inimiga. Porto Alegre ainda
não enfrenta situação como a do Rio, onde centenas de pessoas tiveram de sair de casa
na semana passada para fugir da luta entre traficantes. Um caso, porém, é emblemático
do que já ocorre na Capital gaúcha: um jovem de 23 anos pediu escolta da Brigada Militar para
conseguir se mudar de sua casa na Vila Tronco, no bairro Santa Tereza, depois de um tiroteio

A Porto Alegre que está em guerra

ADRIANA IRION E CLARICE ESPERANÇA        

        Há uma Porto Alegre em guerra.

        Nas zonas conflagradas, os moradores encontram buracos de bala em suas moradias, temem falar com estranhos, trancam-se em casa à noite e sabem que atravessar uma rua pode significar a morte. Eles vivem sob o domínio de grupos armados, geralmente traficantes, detentores de um arsenal que inclui fuzis.

        No Loteamento Cavalhada, na Zona Sul, o palco da batalha é a empoeirada Rua 4.523 ou Avenida Principal. Há anos, ela está dividida por um conflito que amedronta as cerca de 500 famílias que vivem no local. Quem percorre os seus primeiros 300 metros está na base geográfica de um grupo. Os 350 metros adiante, em direção ao interior do loteamento, são dominados por inimigos.

        Neste segundo trecho ficam uma escola, uma creche, o posto de saúde e campos de futebol. A Rua da Fé é o limite dos territórios. Quem ousa cruzá-la, é recebido a tiros.

        – O pessoal lá de baixo, os marcados, não pode vir aqui no posto. E muitos moradores de lá fazem um desvio para chegar aqui – conta uma funcionária do posto de saúde.

        Em 29 de dezembro, a estudante Thielen Fontoura Scartezine, 10 anos, pisou em área de risco e morreu baleada na cabeça em meio a uma troca de tiros. A menina havia se afastado poucos metros de casa para comprar um sorvete. O caso está sem solução até hoje.

        – As crianças viram ela no caixão sendo enterrada. Uma menina pergunta até hoje “por que botaram a Thielen no buraco?” As crianças têm medo até do som de foguetes – diz uma moradora, que teme ser identificada.

        A mesma divisão de territórios impera quilômetros ao Leste, na Vila Jardim. No bairro de classe média, as áreas são demarcadas por exércitos de traficantes com clientela abundante, formada por freqüentadores de casas noturnas próximas. A disputa pelos consumidores é feita à bala, entre grupos estabelecidos na Rua Aldrovando Leão, na parte alta do bairro, e os que dominam o chamado Cantão, na parte baixa, um cruzamento das ruas Alberto Barbosa e Marajó.

        O combate impede moradores jurados de morte de cruzarem certas ruas, de ir ao posto de saúde cujo zoneamento pertencem e de sair de casa depois que escurece. Sete pessoas já foram mortas desde janeiro. A maioria, suspeita de envolvimento com as gangues.

        – Muitas mulheres têm ansiedade, problemas para dormir. A população é muito vulnerável a tiroteios – conta Angela Carmela Arena, assistente social do posto de saúde Vila Sesc, na Rua Aldrovando Leão.

        Uma dona de casa de 49 anos teve de fazer um tratamento depois de assistir, com toda a família, à execução de Charles Wilson Nunes de Assunção, 31 anos, em um campo de futebol próximo, durante um torneio do bairro, no dia 14 de abril, um domingo. No meio da tarde, um grupo invadiu o campo e começou a disparar. Ao lado do corpo, a polícia encontrou 15 cartuchos intactos e 22 deflagrados.

        – Eles vinham com toucas, óculos escuros, jaquetas de couro e muitas armas. Achei que era brincadeira. De repente, começaram a atirar. Um amigo do meu filho foi baleado de raspão, e a minha filha só não foi atingida porque se atirou no chão. Quando me deito e me lembro, fico em pânico – relata.

        O medo aumenta nos fins de semana, quando o risco de tiroteios é maior. Na madrugada da Sexta-feira Santa, outra moradora, uma faxineira de 32 anos, foi atingida por uma bala perdida dentro de sua casa de madeira. O disparo perfurou-lhe a nádega e saiu pela virilha.

        – Entrou uma coisa ardendo, minha perna ficou dormente e eu vi o sangue saindo. Hoje, quando chega sexta-feira, boto meus seis filhos para dormir no chão, até o domingo. Não tenho paz – confessa.

        Se Porto Alegre não chegou ao ponto de ter de transferir centenas de moradores devido à luta de traficantes – como ocorreu no Rio semana passada –, também aqui há refugiados. No último dia 23, um jovem, catequista de uma comunidade religiosa, foi até o posto da Brigada Militar (BM) na Vila Tronco, bairro Santa Tereza, Zona Sul. Chorando, pediu ao único PM de plantão uma escolta para fazer a mudança de seu barraco.

        O rapaz de 23 anos temia ser morto. Era ameaçado por ter permitido à polícia entrar em seu pátio, onde, na noite anterior, havia tombado um homem ferido em um tiroteio. Na troca de tiros, morrera outro jovem.

        – Não agüento mais. Eles coagem jovens a participar da venda de drogas. Primeiro fazem o cara se viciar, depois o obrigam a participar do negócio, ameaçando com violências contra ele ou contra sua família. Dominam tudo. À noite, a BM pede licença para entrar – desabafou, enquanto esvaziava o casebre onde morava com a irmã, o cunhado e o sobrinho de dois anos, sob o olhar vigilante de três PMs com espingardas em riste.

        A algumas quadras, na Rua Banco Inglês, um aposentado de 66 anos conta que o cotidiano da família se transformou em suplício por causa da ameaça dos soldados do tráfico, que andam pelas ruas com as armas à mostra e o rosto oculto por toucas ninja:

        – Espero meu filho, que chega todos os dias da faculdade às 23h, de arma na mão. Num domingo, durante um churrasco, um homem que fugia de um grupo armado pulou dentro do meu pátio. Eles só não penetraram na minha residência porque peguei minha arma e ameacei: “Vivo, ninguém entra aqui”.

        Também há áreas conflagradas na Zona Norte. No bairro Rubem Berta, por exemplo, o enfrentamento se dá entre “os de cima” e “os de baixo” da Rua Wolfran Metzler, onde fica uma escola, um posto de saúde, duas creches e a associação dos moradores. Em abril, o assassinato de um traficante gerou dias de terror, com tiroteios e toque de recolher.

        – Estamos no meio do conflito, sujeitos a sofrer violências. Há casos de mães que pedem a transferência de seus filhos de outras escolas próximas porque ele está jurado de morte na outra quadra – afirma Iara Ramme, diretora da Escola Municipal Grande Oriente.

        Quadras distante, o industriário Réverson Souza de Oliveira, 33 anos, morador do Condomínio Costa e Silva, no mesmo bairro, também se ressente. Seus filhos não estudam em escolas na região. E o namorado de sua filha foi ameaçado por não ser da área.

        O mesmo terror que ultrapassa os limites dos campos de batalha no Rubem Berta, na Vila Jardim e em Santa Tereza já extrapolou também o Loteamento Cavalhada. O bangue-bangue invade apartamentos e coberturas da Avenida Cavalhada. Na manhã de Natal, o advogado Osvaldo Lucas, 50 anos, descobriu um buraco na parede da cobertura e achou uma cápsula deflagrada no chão. Ele guarda até hoje o cartucho, como um símbolo:

        – Sempre sonhei com uma cobertura. Agora, sonho viver em outro lugar. Todos os dias chego em casa e vou ver se os vidros não foram quebrados por tiros.

“Não existiria guerra sem armas”

        “Tiroteios, em tudo que é vila é normal, uma rotina. A briga aqui (Loteamento Cavalhada) é coisa antiga. Começou de família. Não vou dizer que não tem traficante. Em toda a vila tem. Mas a briga não é por espaço.

        Na realidade, os caras que assaltam, que derrubam (matam) são os lá de cima (da gangue oposta). Aqui não tem ladrão. Mas lá em cima não, lá em cima já é desde pequenos. Os pais morrem ou os mais velhos largam a firma (o crime) e já botam os gurizinhos com 11, 12 anos com um oitão (revólver calibre 38) na cintura a meter (assaltar) ônibus, lotação.

        Quem dá os tiros, até quando mataram a menina (Thielen Scartezine, 10 anos, morta em dezembro), é tudo gurizinho. Se a gente não usar arma aqui, vai morrer.

        O pessoal daqui não pode pegar ônibus lá em cima, e os de lá não pegam aqui. No posto de saúde, não podemos ir. O posto é deles, o colégio é deles, a creche é deles, os campos de futebol são deles, as quadras de esporte são deles, é tudo deles. As crianças aqui de baixo não vão para aquele colégio. Se a gente vai no posto, eles ameaçam e dão tiro nos pés.

        A polícia sabe, mas passam a mão por cima. Para eles, tanto faz. Não é a família deles.

        Quem está chegando para morar, tem de escolher. Se moras aqui, desce para lá e não faz o que eles querem – dizer o que está acontecendo aqui –, eles ameaçam. Correm os moradores a tiros e tomam as casas, depois vendem por R$ 1,5 mil, 2 mil, e compram arma.

        Eles têm condições de comprar pistola, fuzil e outras armas pesadas. Aqui, o trabalhador pode comprar uma pesadinha, uma 16 ou uma 12 (espingarda calibre 16 ou 12), um oitãozinho, um revólver pequeno.

        Quando eles descem atirando, os daqui também atiram. São obrigados, para se defender. É normal. Não ia existir uma guerra, se não existissem as armas dos dois lados.”

CONTRAPONTOS

O que diz o coronel Ilson Pinto de Oliveira, comandante do Policiamento da Capital (CPC) da Brigada Militar:

“Temos conhecimento de todos estes locais e mantemos operações neles. Estamos trabalhando em conjunto com o Ministério Público para identificar pessoas e desarmar gangues. Não somos onipresentes, não temos como cobrir todos os espaços, mas temos feito prisões diárias.
Não encaramos como uma guerra. O crime é complexo, se dá no meio dos bairros ou de vilas, quando a polícia não está no local. Não é uma coisa que você possa prever e estar lá em todos os momentos. Não são todos os lugares que se consegue acessar para prevenir essas disputas. Elas são motivadas por uma questão que vai além da polícia preventiva: o tráfico.
Temos acesso a todos os locais em Porto Alegre, inclusive a Vila Tronco. Eu mesmo, entro em todos os pontos. Essa afirmação (que a BM pede licença para entrar à noite na Vila Tronco) não é verdadeira.”

O que diz o delegado Jerônimo Pereira, chefe do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM) da Polícia Civil:

“Temos uma média anual de 1,3 mil flagrantes por tráfico de drogas no Estado. Hoje, no RS, 40% da massa carcerária é por tráfico. A polícia nunca trabalhou tanto quanto nos últimos quatro anos, mas somente ações policiais não resolverão o problema.
No Brasil, os jovens destas vilas ficam muitas vezes sem oportunidade de profissionalização, sem emprego, sem acesso à cultura, sem chance de se sentirem gente. Eles são arrebanhados pelo tráfico. Ganham um dinheiro semanal, passam a ser respeitados, a se sentir alguém. Sentimento esse que acaba os levando para a prisão ou para a morte, muitas vezes.
A sociedade tem de estabelecer projetos capazes de disputar cada jovem com o tráfico. Projetos que não sejam só policiais, como o que estamos implantando na Restinga. As medidas devem envolver todos os setores."

 

 

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