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Zero Hora de 28/04/02

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Violência expulsa alunos da escola
Estudantes estão abandonando salas de aula em Porto Alegre por medo do confronto entre gangues

RODRIGO LOPES

        – A situação aqui está difícil. Não temos liberdade para ir à escola. Eles ficam armados na porta e não têm horário para assaltar. Já deixei de ir à aula porque há tiroteios de manhã e de tarde. Penso em largar o colégio.

        O desabafo de uma estudante de 16 anos, moradora do Loteamento Cavalhada, zona sul de Porto Alegre, expõe uma chaga aberta na educação gaúcha: a violência está tirando alunos da sala de aula.

        Em Porto Alegre, 140 estudantes da Escola Municipal Neuza Brizola abandonaram ou pediram transferência do colégio entre dezembro e março, segundo o Conselho Tutelar da Microrregião 6, responsável pelas zonas centro-sul e sul da Capital. Pelos cálculos da direção, dos 580 alunos matriculados este ano, apenas 380 continuam freqüentando as aulas. Para a direção da escola, o motivo do alto índice de evasão é um só: o medo.

        A tensão no bairro aumentou depois da morte da menina Thielen Fontoura Scartezine, 10 anos, atingida na cabeça durante um tiroteio, quando saía para comprar sorvete perto de sua casa, no final de dezembro. A Neuza Brizola fica no centro de territórios disputados a tiros por quadrilhas rivais.

        Sob condição de anonimato, a estudante de 16 anos revela que, em dias de troca de tiros nos arredores da escola, os alunos são obrigados a ficar agachados ao final das aulas no interior do prédio.

        – Tenho de fazer um trajeto maior para chegar à escola, porque não posso passar pela avenida principal, dominada por uma das gangues – conta.

        As declarações da jovem rompem o tradicional silêncio. No bairro Rubem Berta, zona norte da Capital, por exemplo, assassinatos ligados ao tráfico de drogas estão entre as maiores causas de morte. Os estudantes sabem de cor as áreas proibidas, mas o terror faz com que prefiram não falar à polícia.

        Pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) revelou índices de violência em Porto Alegre comparáveis a números alarmantes de Rio e São Paulo. Na Capital, 49% dos professores entrevistados apontaram o conflito entre quadrilhas pelo controle do tráfico como um dos maiores problemas.

        – As escolas viraram reféns das gangues e das drogas. Estão brincando com a vida dos alunos. Falta policiamento – alerta Raul Gomes de Oliveira Filho, presidente da Federação das Associações e Círculos de Pais e Mestres do Estado (ACPM).

        A violência transformou colégios em fortalezas, nem sempre invulneráveis. Na Escola Estadual Itamarati, no bairro Sarandi, onde um PM que vigia a entrada foi espancado e baleado na frente dos alunos no ano passado, um portão de aço de dois metros protege a entrada há quatro anos. Desde o incidente, em dezembro, a escola está sem guarda. Aparatos de segurança como câmeras, na Escola Estadual Oscar Tollens, no Partenon, e catracas eletrônicas, no Colégio Protásio Alves, Azenha, tentam manter o medo do lado de fora.

MEDO NA SALA DE AULA

Pesquisa da Unesco ouviu 2 mil alunos, 311 professores e 557 pais em 21 escolas (16 públicas e cinco particulares) da Capital. Veja o que eles relataram:

Gangues ou tráfico de drogas são o maior problema – * 49%
Relatos de roubos de carros ou objetos pessoais na escola – ** 38%
Relatos de depredação da escola – ** 26%
Relatos de agressões ou espancamento de alunos, pais ou professores – 23%
Relatos de assaltos a alunos, pais ou professores no ambiente da escola ou imediações – 16%

* Respostas da amostra de professores
** Respostas da amostra de alunos

QUEM FAZ A SEGURANÇA

Arrombamentos com furto em escolas do Estado

2001 – 2.128
2000 – 2.192

Furto simples em escolas do Estado

2001 – 3.530
2000 – 3.207

Número de escolas

ESTADUAIS – 3.031 (490 na Capital)
MUNICIPAIS DA CAPITAL– 91
PARTICULARES 1.648 – (503 na Capital)

Seis instituições arrombadas por dia no Estado

        Seis escolas, em média, são vítimas de furto e arrombamentos no Rio Grande do Sul a cada dia, segundo a Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS).

        Em 2001, foram 2.128 arrombamentos no Estado. Com pequenas variações, as cenas se repetem: vidros quebrados, equipamentos eletrônicos e merenda roubados e uma legião de estudantes sem aula.

        Na madrugada de quarta-feira, assaltantes invadiram a Escola Municipal Lauro Rodrigues, no bairro Jardim Ingá, zona norte da Capital, e roubaram aparelhos de fax, telefones, computadores, merenda e R$ 1 mil do cofre.

        O guarda municipal de plantão na escola percebeu três homens no pátio por volta das 4h30min. Ao verificar a movimentação, encontrou próximo ao muro cinco monitores de computador, duas copiadoras, teclados e CPUs em sacos no chão, prontos para serem carregados. As salas reviradas e o material escolar jogado no chão revoltaram a orientadora educacional Telma Machado Lamas, há 12 anos no local.

        – Quando vim para cá, não tinha luz nem água, hoje tem até computador. A gente está sempre batalhando pelo melhor, mas o melhor não chega – desabafa.

        As aulas foram suspensas por um dia, prejudicando mil alunos.

        No bairro Petrópolis, a violência deixou outro 600 estudantes fora da Escola Estadual Imperatriz Leopoldina por cinco dias, depois de um arrombamento no último final de semana. Os assaltantes levaram uma copiadora, extintor de incêndio, caixas de som, bolas, furadeira, microscópio, telefone, impressora e parte da merenda escolar.

        – Quando dissemos que não teria aula, os alunos pequenos baixaram a cabeça, como se estivessem de luto. Isso dói – lamenta a diretora, Rosiane Taim Stankievich.

        O arrombamento foi antecedido por duas ligações a cobrar com ameaças nos dias 17 e 18. Segundo Rosiane, até sexta-feira pelo menos dois estudantes e duas professoras pediram transferência da escola.

QUEM FAZ A SEGURANÇA

PM Residente

PMs que moram nas escolas estaduais. Nas horas vagas, são zeladores. São 280 PMs (141 na Região Metropolitana)

Corpo Voluntário de Militares Inativos (CVMI)

É a guarda escolar. PM da reserva, que atua voluntariamente na segurança de escolas estaduais manhã e tarde. Limite de idade de 60 anos. São 1.371 PMs (77 na Região Metropolitana)

Programa Educacional de Resistência à Violência (Proerd)

Desde 1998, 74.849 crianças participaram do programa da BM. Ao longo de um semestre, os alunos estudam as conseqüências do álcool e do cigarro, aprendem a diferenciar maconha, cocaína e inalantes e são orientados a se afastar da violência. Em 2001, o programa atingiu 1.624 escolas de 451 municípios

Guarda Municipal da Capital

A segurança nas escolas municipais da Capital é feita por 300 homens, que trabalham fixo em 60 estabelecimentos

Fontes: secretarias Estadual da Educação, da Justiça e da Segurança e Municipal de Educação e Brigada Militar

Mães zelam pelos filhos no recreio

        Preocupadas com a falta de segurança, um grupo de mães do bairro Medianeira, na Capital, decidiu acompanhar a vida escolar dos filhos em tempo integral. A dona de casa Cláudia Regina Martinez, 31 anos, mãe de duas filhas, de sete e de 10 anos, que estudam na Escola Estadual Venezuela, integra um grupo que acompanha o recreio das crianças.

        Cláudia é uma das sete integrantes do Projeto Mães Voluntárias, iniciado ano passado pela direção e pelo Círculo de Pais e Mestres. O objetivo é a participação das famílias na recreação dos alunos: as mães jogam bola, pulam corda e brincam. Segundo Cláudia, com o aumento da violência nos arredores do estabelecimento, o grupo passou a atuar também na prevenção de assaltos.

        – As mães são a segurança da escola – garante.

        Na última segunda-feira, um homem armado invadiu o pátio do colégio quando as crianças preparavam uma apresentação do Dia do Índio e tentou render o PM que guarda a entrada.

        – Foi um pânico geral. Depois do Hino Nacional, o homem entrou e ficou apontando a arma – conta uma das mães.

        O PM sacou a arma, e o assaltante fugiu. A polícia investiga o caso. Os pais dizem que a região é disputada por gangues.

Desenhos e redações denunciam o medo

        No centro da guerra travada entre quadrilhas no bairro Rubem Berta, na Capital, estão os 2.208 alunos, 120 professores e 25 funcionários da Escola Municipal Grande Oriente.

        O cotidiano de medo é refletido em aula. Professores dizem ser comuns desenhos e redações em que alunos expressam cenas de violência.

        Maior bairro do Estado, com 78 mil habitantes, o Rubem Berta é alvo de um toque de recolher diário a partir das 17h, imposto a moradores e comerciantes pelas gangues. O confronto das facções divide a área mais alta e a baixa do bairro.

        – O tiroteio ocorre à noite, mas há dias em que é impossível sair de casa de manhã para ir à aula. Há risco de bala perdida. Já faltei a muitas aulas por isso. Morro de medo – relata uma jovem de 15 anos.

        A violência aparece nos trabalhos escolares. Um aluno descreveu em um texto um jogo de futebol com uma bola feita de um saco recheado com gatos vivos. Em um desenho, outro estudante retratou uma pessoa rindo enquanto chuta a cabeça de outra, no chão.

        – Alguns têm comportamento agressivo. Se um colega olha diferente, é suficiente para um empurrão. Falam que um cara está morto como se estivessem vendo alguém passar – conta a diretora, Iara Ramme.

        Para a psicóloga e psicopedagoga infantil Aidê Knijnik, os estudantes vivem uma realidade que banaliza a violência. A saída, diz a especialista, é canalizar a energia para o esporte ou outras atividades. Na Grande Oriente, há aulas de capoeira e dança.

        – Graças a Deus, ainda há sentimento. À noite, os estudantes demonstram mais cuidado com os professores. Pedem para usar crachá com foto, para que possamos identificá-los. Quando saem, desejam: “vai com Deus” – diz Iara.

CONTRAPONTO

O que diz o coronel Ilson de Oliveira, comandante do Policiamento da Capital da BM:

“Não há como pôr um homem em cada local de risco. O policiamento se faz por meio da possibilidade de estar no local com mais rapidez. Em Porto Alegre, nos horários de aula, cobrimos quase todas as escolas. Em 77, tem o guarda escolar. Nas demais, temos patrulhas escolares.
Nos fins de semana, não há como deixar um guarda em cada escola. As entidades têm de criar dispositivos que colaborem com sua segurança. Em relação às escolas do Rubem Berta e da Cavalhada, estamos trabalhando fortemente. Na Zona Sul, está havendo um trabalho integrado com o Ministério Público contra essas gangues.

CONTRAPONTO

O que diz João Carlos Feix, da 1ª Coordenadoria Regional da Secretaria Estadual da Educação:

“Garantimos o maior número de alunos em sua escola de zoneamento. Isso faz com que o aluno fique um pouco longe da violência. Não é só pela violência que temos evasão. A maioria dos arrombamentos ou destruição do patrimônio escolar era feito por pessoas próximas à escola. Com a Constituinte Escolar, procuramos pautar discussões sobre segurança, tentando apontar que a escola se transforme em um espaço referencial.
Não queremos trabalhar na lógica de que a saída é a intimidação ou a repressão. Temos PMs residentes em mais de cem escolas de Porto Alegre. Temos essa preocupação do policiamento, mas não apostamos nele como solução.

CONTRAPONTO

O que diz Davi Schimidt, secretário adjunto da Secretaria Municipal de Educação (Smed) de Porto Alegre:

“Temos 300 guardas municipais em nossas escolas. Todas têm alarme integrado. Onde não há guarda fixo, existe ronda noturna. Estamos nomeando mais 101 guardas, dos quais 80% vão para escolas. Criamos um fórum municipal de prevenção à violência no meio escolar, que se reúne periodicamente para analisar como está a situação e para coordenar ações. Temos uma política de educação para a paz. É muito sério constatar que a violência impede o desenvolvimento dos nossos alunos.

 

 

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