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Zero Hora de 27/01/02

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Estresse e álcool corroem policiais
PMs envolvem-se com bebida e com drogas, ameaçam carreiras e colocam em risco segurança da população

CARLOS ETCHICHURY

        A tensão e o álcool estão corroendo a vida de homens remunerados pelo Estado para garantir a segurança dos cidadãos.

        Durante uma semana, Zero Hora ouviu depoimentos surpreendentes de policiais militares e familiares que mostram situações de degradação extrema e comprovam pesquisas da própria Brigada Militar sobre alcoolismo e estresse dentro da corporação gaúcha.

        São praças como um soldado de 41 anos (o nome e o batalhão são preservados a pedido dos policiais), que atua há 15 anos no policiamento ostensivo de Porto Alegre. Ele conta que costuma tomar o primeiro gole de álcool às 10h “senão os braços e as pernas começam a tremer”.

        – Depois, bebo dois martelinhos e fico normal. Coloco um chiclete na boca e vou trabalhar – revela o PM, que patrulha ruas entre 12h30min e 18h30min.

        Outro PM, hoje com 31 anos, lembra, quando, embriagado, perdeu o controle na rua. Começou a beber às 8h, e às 11h, quando foi atuar junto a uma manifestação perto da Usina do Gasômetro, viu-se bêbado sobre um cavalo. Atualmente, ele se submete a um tratamento para largar a bebida.

        – Dava vontade de mudar o mundo. Uma vez, chumbado (alcoolizado), espanquei um criminoso. Depois, bateu o arrependimento e a depressão. Não faria isso novamente – diz o policial.

        O PM, há 12 anos na corporação, trabalha no policiamento e faz bico como segurança em um posto de gasolina durante a madrugada, para complementar a renda familiar. Mora numa casa simples na periferia da Região Metropolitana.

        Os índices de estresse da atividade policial, apontados em uma pesquisa realizada por quatro capitães na Academia de Polícia da BM, em novembro de 2000, alarmam. Dos 983 policiais militares de batalhões operacionais (1º BPM, 9º BPM, 11º BPM, destacamentos especial do Sarandi, do Partenon e da Restinga, Batalhões de Operações Especiais e de Policia Rodoviária) que participaram da pesquisa, metade (50,85%) apresentava sintomas psicossomáticos de estresse. Ou seja, precisavam de acompanhamento psicológico ou médico.

        Outra pesquisa, abrangendo 561 PMs – 10% do efetivo de praças da BM na Capital –, constatou que 25,13% eram alcoólatras e outros 7,66% tinham risco de se tornarem alcoolistas. O estudo foi feito pela socióloga Maria Caetana Pedroso Rodrigues em março de 2000.

         Novo trabalho, desta vez entre os oficiais, constatou que 10,27% dos entrevistados eram alcoólatras, e 4,32% eram suspeitos de ter o vício. Os autores, Hélio Beck Leão Filho e Nélio Tedesco Sperling, testaram 185 policiais – 30% do efetivo de oficiais de Porto Alegre.

        O alerta maior, porém, vem do relato emocionado dos próprios PMs. Protegidos pelo anonimato, eles chegam a admitir até o consumo de drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack por representantes da corporação. Um soldado alcoólatra, abstêmio há um ano e meio, assegura que policiais que trabalhavam com ele à noite, em um município da Região Metropolitana, “bebiam, cheiravam (cocaína) ou fumavam maconha”.

        O Código Penal Militar prevê pena de seis meses a dois anos de detenção para o militar que se embriagar em serviço, ou apresentar-se bêbado no quartel. Para a promotora de Justiça das Auditorias Militares da Capital, Sandra Goldman Ruwel, a embriaguez em serviço é um delito gravíssimo e fere o princípio da disciplina.

        Na Academia de Polícia da BM, em Porto Alegre, um grupo de PMs, suas mulheres e mães se reúnem duas vezes por semana para relatar suas experiências.

        Há histórias quase surreais, como a do soldado que, embriagado, matou a mulher com um tiro. Há o praça que, em meio a uma bebedeira no quartel, resolveu sair e passar a noite em um bordel – quando deveria estar de serviço. A do policial de 38 anos, que chegou a beber um litro de uísque com um colega em uma noite de trabalho e, depois, participou de tiroteios.

        – Graças a Deus, não deu nada. Éramos seis PMs, sendo que cinco tinham bebido. Podia acontecer uma coisa muito séria – recorda.

        O grupo é coordenado pela própria Maria Caetana, autora da pesquisa sobre a incidência de alcoolismo entre praças da Capital.

        – Os dependentes que participam recebem alta após dois anos de abstinência – explica.

        Ao final de 2000, quando o grupo foi montado, receberam alta 22 policiais. No ano seguinte, outros oito obtiveram alta. Também integram o programa um médico psiquiatra e uma psicólogo.

        O objetivo é tentar acabar com casos como o de um soldado de 38 anos, que admite ter trabalhado embriagado, com uma arma na cintura e no comando de um carro da BM. Hoje, sóbrio, o soldado continua nas ruas. Sua mulher acha que ele deveria estar afastado do policiamento.

        – Meu marido usa diariamente um antidepressivo, um anticonvulsivante, um ansiolítico (medicamento contra ansiedade). Você acha que os reflexos dele são os mesmos que os meu? – questiona.

OS NÚMEROS

USO DE ÁLCOOL ENTRE OFICIAIS

Pesquisa com 185 oficiais (30% do efetivo de oficiais em Porto Alegre)
Principais conclusões:
Alcoolistas: 10,27%
Bebedores-problema (apresentam risco de se tornarem alcoolistas): 4,32%
Não-alcoolistas: 85,4%

USO DE ÁLCOOL ENTRE PRAÇAS
Pesquisa com 561 soldados, cabos e sargentos do efetivo da BM (10% do efetivo da Capital)
Principais conclusões:
Alcoolistas: 25,13%
Bebedores-problema: 7,66%
Não-alcoolistas: 67,20%
CONTRAPONTO

O que diz o coronel Luiz Antônio Brenner Guimarães, subcomandante-geral da BM:

“Não tenho dados científicos, mas sei que organizações que trabalham com grande risco e tensão têm problemas com álcool. Temos um departamento de saúde com médicos e serviço social para que as pessoas procurem. A orientação é de que policiais identificados com o problema (uso abusivo do álcool) sejam encaminhados para atendimento especializado. Além disso, os policiais devem ser retirados do policiamento e não devem portar armas.
Pode ocorrer um ou outro caso de que um oficial não proceda desta forma, mas não é a regra. É preciso compreender que há mecanismos utilizados pelos dependentes que dificultam a identificação dos casos dentro da corporação. Mas se identificamos o problema, o policial é encaminhado para tratamento. O importante é tranqüilizar a sociedade de que o problema existe, mas diz respeito a um universo restrito de policiais. As pessoas não devem achar que o problema é generalizado”.

Psicólogos acompanharam PMs durante seqüestro do lotação

        As conseqüências do estresse na atividade policial vem preocupando a cúpula da Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS).

        Tanto que secretário da SJS, José Paulo Bisol, sugeriu que quatro psicólogos e um enfermeiro acompanhassem a atuação de praças e oficiais da BM durante o seqüestro com reféns do lotação 350, no início do mês, pelo auxiliar de cozinha João Sérgio dos Santos Pereira, 27 anos. Conforme a técnicos da SJS, foi a primeira vez no Estado que policiais foram avaliados por profissionais de saúde em meio a uma ocorrência.

        O acompanhamento buscou dar apoio técnico aos PMs envolvidos na operação e fazer um diagnóstico do comportamento deles ao longo do seqüestro. A psicóloga da SJS, Alneura Ana Provenzi, revela que os técnicos chegaram à Avenida Osvaldo Aranha na madrugada de sábado. Eles passaram a conversar com os policiais diretamente envolvidos na negociação e com PMs do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM) e do Batalhão de Operações Especiais (BOE).

        – Procurávamos saber como eles estavam psicologicamente. Caso não tivessem condições de permanecer, iríamos orientar o comandante à substituí-los. Mas isso não ocorreu – recorda Alneura.

        A psicóloga explica que o cansaço físico foi o maior problema enfrentado pelos participantes da megaoperação, que mobilizou 119 policiais militares.

        – A idéia é repetir o procedimento sempre que houver eventos como motins e seqüestros – afirma.

        A SJS promete colocar em prática um programa de saúde mental dedicado aos servidores da segurança pública. O objetivo é diagnosticar, com critérios científicos, quais os principais problemas de ordem psíquica que atingem os servidores da segurança. A partir desse levantamento, será oferecido tratamento aos servidores.

        Um convênio com Fundaçao de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs) deve garantir profissionais das áreas de psiquiatria, psicologia, enfermagem, serviço social, sociologia, antropologia, educação física, terapia educacional, arte e pedagogia no atendimento dos servidores. Centros de atendimento à saúde mental devem ser instalados em Porto Alegre, Santa Maria, Pelotas, Passo Fundo, Caxias do Sul e Santo Ângelo.

        Entre os praças da BM, o índice de alcoólatras apontado pela pesquisa da socióloga Maria Caetana Pedroso Rodrigues é uma vez e meia superior a estimativa de alcoolistas existentes entre a população de Porto Alegre. Na Capital, estudos estimam que 10% da população adulta é dependente de álcool. O levantamento feito pela socióloga com 10% dos praças locados em Porto Alegre constatou um universo de 25,13% de alcoolistas entre soldados, cabos e sargentos envolvidos na pesquisa.

        O psiquiatra e psicanalista Sérgio de Paula Ramos, da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, não se surpreende com a constatação do estudo.

        – Profissões que lidam com uma carga maior de estresse vulnerabilizam esses profissionais para o alcoolismo. É o caso de pessoas ligadas a segurança (policiais), médicos, jornalistas, coveiros – exemplifica o especialista.

        Ramos pondera que o consumo excessivo do álcool entre policiais também é registrado em outros países.

        – É um fato que vulnerabiliza ainda mais a segurança – constata Ramos.

“Estava alcoolizado em vários tiroteios”

        Aos 40 anos, o soldado que atua em um batalhão da Região Metropolitana é um dos policiais dispostos a vencer o álcool. Pai de três garotas e três rapazes, divide a atividade militar com a profissão de pedreiro nas horas vagas. Ele ingressou na BM aos 22 anos, e há um ano e meio não bebe. A seguir, trechos da entrevista:

        Zero Hora – Quando o senhor começou a beber?

        PM – Bebo socialmente desde os 15 anos. Mas quando vim para o policiamento ostensivo, na Região Metropolitana, há oito anos, passei a beber todos os dias.

        ZH – Bebia em serviço?

        PM – Sempre, todos os dias. Trabalhava das 19h às 7h. Lá pelas 22h, chegávamos em um bar e começávamos a tomar. Eu esquecia o policiamento. Só levantava quando tinha de ir embora. Bebia o que aparecia, de cerveja a cachaça.

        ZH – A turma de policiais era sempre a mesma?

        PM – Mudava, mas os parceiros acompanhavam. A maioria dos que trabalhavam à noite bebiam. Outros, cheiravam (cocaína) ou fumavam maconha. Eles facilitavam que eu bebesse, e eu facilitava que eles usassem droga. A noite permite o uso da droga, do álcool, a corrupção, tudo. O cara viciado sempre vai querer trabalhar à noite.

        ZH – Vocês tinham dinheiro para gastar com álcool e droga?

        PM – O álcool era dado por comerciantes e donos de cabaré. E a droga era retirada de marginais. Para os comerciantes, é vantagem o PM estar ali porque se sentem seguros. Eles não sabem as conseqüências.

        ZH – O senhor já participou de uma ocorrência alcoolizado?

        PM – Estava sob o efeito do álcool em vários tiroteios. Efetuei prisões, tive o carro furado a tiro.

        ZH – Por que o senhor bebe?

        PM – A pressão dentro e fora do quartel é muito forte. Você tem de estar sempre bem e resolver o problema das pessoas. Somos seres humanos. Não estamos sempre bem. Então, você pensa: “vou tomar um trago, não vai dar nada”. As coisas ficam mais fáceis. Depois, o corpo passa a exigir o álcool.

        ZH – O senhor conhece muitos PMs que bebem no trabalho?

        PM – No meu quartel, dos 150 policiais, cerca de 30 bebem e uns cinco ou seis usam droga.

        ZH – O que estes policiais representam andando na rua?

        PM – Um perigo. Eles agem sob o efeito de droga e não estão conscientes do que fazem. Você perde o controle. Tornam-se perigosos. Você vai com tanta raiva, com tanta gana em uma ocorrência, que se puder executar um marginal, executa.

        ZH – Já tentou o suicídio?

        PM – Duas vezes, quando estava bêbado. A primeira eu estava dentro do quartel. Fui para o banheiro, retirei o cadarço do coturno, amarrei na janela e tentei o enforcamento. Acordei no hospital. Na outra vez, há um ano e meio, quando fazia o policiamento de rua, coloquei meu revólver 38 na cabeça e disparei duas vezes. A arma falhou.

        ZH – O senhor faz bico?

        PM – Trabalho como pedreiro. O salário de R$ 600 da BM é pouco. Eu não queria morar aqui (uma área ocupada irregularmente, na Região Metropolitana). Na casa grudada à minha, por exemplo, moravam assaltantes. Os marginais contavam dinheiro, usavam droga e faziam festas. Cheguei a ser ameaçado de morte. Registrei queixa na delegacia. Você se sente impotente. Hoje, por sorte, eles estão presos.

“Tomo três ou quatro doses em serviço”

        O soldado de 37 anos, há 12 na BM, conversou com a reportagem de Zero Hora semana passada. Antes, havia tomado quatro doses de cachaça. O militar, que começou a beber aos 25 anos, quando entrou na BM, tentou explicar os motivos que o levaram a comprometer sua carreira com o álcool.

        ZH – O senhor trabalha quantas horas por dia?

        PM – São seis horas na BM mais 12 horas de bico, como segurança.

        ZH – Por que o senhor começou a beber?

        PM – Você vai começando a aturar certas coisas e procura um subterfúgio. São coisas que não se consegue mudar. Soldados, cabos e sargentos só executam ordens. Eles (os oficiais) dizem assim: pega um revólver, fica lá na vila. Não querem saber se você tem mulher, filho, mãe. Fica lá, com um revolverzinho, como se fosse o dono do mundo. Pensa bem, um lugar escuro, de noite, sozinho...Você busca forças onde não tem.

        ZH – Como foi o início?

        PM – Comecei nessas de beber um pouquinho. Hoje, a minha necessidade é tanta que não sou a mesma pessoa se não tomar um gole. É vital. Tenho de tomar um gole para ficar mais ou menos ligado.

        ZH – Há quanto tempo o senhor vem bebendo todos os dias?

        PM – Há uns cinco anos.

        ZH – Qual o horário que o senhor toma o primeiro gole?

        PM – Chego em casa, em torno de umas 8h, quando venho do bico. Aí tenho que tomar um gole. É primordial. Relaxo. Quando levanto, para ir para o quartel, tenho de tomar outro gole. Fico cansado. Lá pelas 11h30min, saio para o quartel.

        ZH – Bebe no serviço?

        PM – Tomo umas três ou quatro doses quando estou na rua.

        ZH – Gasta quanto com álcool?

        PM – Nós não gastamos. São os comerciantes que dão a bebida.

        ZH – Já teve algum enfrentamento armado embriagado?

        PM – Graças a Deus, ainda não. Mas tenho medo de enfrentar uma situação como esta sem beber.

        ZH – A família reclama?

        PM – Estou separado da mulher. Ela não agüentou a rotina.

        ZH – Já teve depressão?

        PM – Imagina você em uma vila, num tiroteio, e você tentando se abrigar num canto mais seguro para não morrer. Chega uma pessoa para você e diz que você está errado, que tem de ficar mais visível porque a população tem de te ver. Você descobre que não tem valor nenhum. Só o que tem valor é a farda.

 

 

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