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Zero Hora de 21 e 22/10/01

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ENTERRO DE BANDIDO 

Novatos silenciados pelo crime

Última acolhida: pais velam Fabrício em casa (Ronaldo Bernardi/ZH)

        – Esses jovens perdem a vida tão novos! Se todos escutassem a voz da mãe, não teríamos esses crimes. Se as mães fossem obedecidas, nada de maldade aconteceria neste mundo.

        Pregando ao lado do corpo do assaltante Fabrício Wietzycoski, o pároco Ivo José Copi falou sobre mães e filhos numa referência à data em que o rapaz de 19 anos morreu, 13 de maio, Dia das Mães.

        Fabrício teve o caixão exposto na sala da casa cujas paredes ajudou o pai, gesseiro, a levantar. O motivo para o velório domiciliar, o amor da mãe explica:

        – Queria que meu filho viesse uma última vez em casa – diz Amélia Wietzycoski, 51 anos.

        Centenas de pessoas se revezaram por 15 horas na sala para se despedir do jovem que ficou em coma por quatro dias e morreu em silêncio, eternizando uma dúvida no seio da família.

        Quem visitou Fabrício guardado por velas equilibradas em garrafas e a camiseta do time do bairro aos pés não enxergava um bandido. Amigos e familiares homenageavam ali o rapaz nascido em Erval Grande relutante a festas e a ser fotografado. Que ouvia música mas não dançava. Um jovem que saiu de casa na noite de 9 de maio para ir à escola e só foi encontrado no hospital pela família, no dia seguinte, graças a um amigo, informado pelo jornal sobre o assalto em que a vítima baleou os dois ladrões.

        Fabrício morreu quatro dias depois de ferido. O parceiro dele, no instante do assalto. Treze horas e meia depois da tentativa de roubo frustrada, familiares localizaram o corpo do assaltante Leomar de Oliveira, 18 anos, no Departamento Médico Legal.

        Na frente do prédio, pediram um jornal para tentar compreender o que aconteceu depois que Leomar saíra de casa para ir ao colégio. Com as mãos trêmulas, um dos irmãos lia a notícia palavra por palavra.

        – Se a família soubesse de algo, não admitiria que ele fizesse. Bandido tem de morrer, tem de ser punido, mesmo que seja um familiar nosso – comentaria um parente, no velório.

        Às 9h30min de 11 de maio, o corpo, seguido por cerca de 50 pessoas, foi levado para a sepultura 15 da linha 19 da quadra B. O pai falou com orgulho do filho que desde os 12 anos trabalhava numa padaria, que com o salário comprava roupas e ajudava em casa, que jogava futebol e não gostava de sair. Ele partiu do Cemitério Municipal Nossa Senhora da Conceição, em Viamão, carregando uma pergunta:

        – Alguma coisa que eu conte sobre ele poderá mudar essa imagem de bandido que ficou?

LAÇOS NO SUBMARINO

O confeiteiro Leomar de Oliveira, 18 anos, brincou de pegar na frente de casa, na Vila Augusta, em Viamão, na tarde de 9 de maio. Às 19h, se despediu da mãe e saiu para ir à escola, onde cursava a 6ª série. A quilômetros dali, na Vila Paraíso, o auxiliar de gesseiro Fabrício Wietzycoski, 19 anos, jogou futebol, tomou banho e rumou para o colégio, onde freqüentava o 2º ano do Ensino Médio. Uma hora e meia depois, os dois amigos saltaram da vida de jovens sem antecedentes policiais para o mundo do crime. Os dois atacaram um advogado e policial civil aposentado que chegava em casa, no bairro Partenon, na Capital. Obrigada a passar para o banco de trás, a vítima sacou seu revólver calibre 38, baleou os dois e foi ferida.

A liberdade durou pouco

FÁBIO SCHAFFNER
Casa Zero Hora/Pelotas

        A Kombi bege 1982 da Funerária Bom Jesus cruzou os portões do Cemitério Boa Vista, em Pelotas, carregando o corpo do assaltante Júlio César Melingue Viegas, 21 anos. Por R$ 80, pagos pela prefeitura, o dono da Bom Jesus, Leonel Godinho, deu a Júlio os mesmos serviços fúnebres dispensados aos indigentes.

        – Quando é cliente particular, o transporte é na Quantum, 1997. Mas os casos de carência são na Kombi – explicou.

        Dezenas de amigos e parentes compareceram ao velório, realizado nos 24 metros quadrados da capela 2 do Boa Vista. O irmão mais velho, Luciano, pagou R$ 35 para o motorista José Carlos Ramalho lotar um ônibus com 41 vizinhos da Vila Peres e transportá-los por quatro quilômetros até o velório.

        Às 11h, sob o açoite do minuano e uma sensação térmica de 5ºC, amigos e parentes acompanharam o féretro pelo enlameado terreno do Cemitério Boa Vista. O cortejo teve fim ao pé do túmulo 94-SI, emprestado à família por amigos. Na despedida, o silêncio dos movimentos do coveiro, assentando os 28 tijolos que fecharam a sepultura, contrastava com choros incontidos e a pregação de um pastor evangélico.

        – Em nome de Jesus Cristo, te pedimos, ó Deus, venha consolar os corações neste lugar – suplicou o pastor.

        Preso em flagrante no dia 16 de fevereiro, acusado de tráfico de drogas, Júlio César viveu 80 dias de cárcere. Saiu de lá para encontrar a morte, no retorno à delinqüência, três dias depois de solto.

        Na noite de 10 de maio, saiu de casa de bicicleta dizendo à irmã Núbia que visitaria a namorada. Não retornou.

        Às 20h do dia seguinte seu corpo nu cruzava os 150 metros que separam o posto do Departamento Médico Legal (DML) da Santa Casa de Misericórdia sobre uma maca enferrujada.

SURPREENDIDO NA SAÍDA

A liberdade durou pouco mais de 72 horas para Júlio César Melingue Viegas, 21 anos. Solto do Presídio Regional de Pelotas, Júlio teve a vida abreviada por um projétil calibre 38 que lhe rompeu o crânio ao assaltar um minimercado. Com outro rapaz, Júlio havia furtado uma moto e invadido o minimercado Novo Mundo, no bairro Três Vendas. Roubou R$ 148 e, na fuga, foi surpreendido por disparos vindos do outro lado da rua. Teve tempo de revidar com quatro tiros. Enquanto o comparsa fugia, teve a têmpora esquerda perfurada. A polícia investiga a autoria do crime.

Quatro horas fora da cadeia

        Às 7h de 29 de julho, um domingo, Rodrigo Lumertz, 23 anos, deixou a Penitenciária Industrial de Caxias do Sul, onde cumpria pena por roubo no regime semi-aberto, para visitar os avós. Morreria quatro horas depois, em um tiroteio no Sacolão Minuano, no Jardim América.

        Natural de Caxias, o rapaz foi sepultado no jazigo da família, em São Marcos. Pouco mais de 50 pessoas estiveram no velório e no enterro.

        Aos 20 anos, uma dona de casa engravidou de um namorado que rejeitou a paternidade. Sozinha e sem condições financeiras, entregou a criança aos avós, que moravam numa pequena casa, no bairro Planalto. Rodrigo nunca soube quem era seu pai.

SAPUCAIA CHEGOU A TER "RECANTO DOS BANDIDOS"

Como estratégia para coibir a criminalidade em Sapucaia do Sul, Luiz Francisco Corrêa Barbosa lançou, em 1994, quando prefeito, o polêmico Recanto dos Bandidos. Seria uma área do Cemitério Pio XII reservada a criminosos.
– A idéia era intimidar, mostrar que estávamos dispostos a reagir com firmeza aos ataques. E funcionou, pois os índices de criminalidade diminuíram – diz Barbosa.
O ex-prefeito ressalva não ter oficialmente criado o espaço:
– Alguém ouviu minha idéia, foi lá e colocou a placa no cemitério. O Ministério Público (MP) reagiu contra mim. Mandei mudar o nome para Recanto dos Bonzinhos.
O MP alegava que familiares de pessoas enterradas no local poderiam processar a prefeitura por discriminação e danos morais. O delegado de Sapucaia na época também reagiu, dizendo que Barbosa estava “atraindo desprestígio para a cidade com uma coisa ridícula e folclórica”.
O prefeito foi comparado a Odorico Paraguassu, personagem da novela O Bem Amado que não conseguia inaugurar o cemitério por falta de defunto. Em Sapucaia, ninguém foi enterrado no Recanto dos Bandidos, extinto meses depois de criado.

 

O confronto final com a lei
A história de foragido terminou em tiroteio com PMs na véspera de comemorar 23 anos

ADRIANA IRION

Foto Samuel Martins, AJB, Banco de Dados/ZH – 3/05/01

        Com a faixa “Feliz aniversário. Nós te amamos, Cristiano” presa à parede ao lado do caixão, o assaltante Cristiano de Oliveira Torquato foi velado em 15 de junho.

        Naquele dia, carne para churrasco, salada, bebidas, bolo de aniversário e balões o esperavam em casa, no bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre.

        Um confronto com a Brigada Militar, na noite anterior, transformou em velório na capela 4 do cemitério João XXIII o que deveria ser a comemoração dos 23 anos do rapaz que tinha contas a acertar com o Estado até 2008, por roubo, e havia duas semanas estava foragido do Instituto Penal de Mariante.

        A mãe de Cristiano, a doméstica Iolanda de Oliveira Torquato, 55 anos, se preparava para trabalhar quando ouviu no rádio a notícia do rapaz morto em tiroteio no Jardim Lindóia. Como o jovem estava ainda sem identificação, a notícia passou quase despercebida por Iolanda.

        Ainda era manhã daquela sexta-feira quando a companheira e irmãs de Cristiano ligaram para delegacias e o necrotério em busca do rapaz. A definição chegou com um telefonema. Um homem – possivelmente um dos que acompanhavam Cristiano no momento do tiroteio – avisou que o foragido estava morto.

        Numa visita que recebeu da mãe na prisão, duas semanas antes, ele disse que não suportava mais a cadeia. Envolvido em assaltos desde os 18 anos, Cristiano teve quatros fugas registradas pela Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe).

        À família, dizia que queria mudar de vida, trabalhar, criar as três filhas.

        – Ele era um filho amado, maravilhoso. Envolveu-se no crime, em assalto a banco, por causa das companhias, gente mais velha. Mas nunca matou ninguém – diz Iolanda.

        Era uma noite fria aquela em que Cristiano comemoraria 23 anos, e a faixa na parede, assinada por todos irmãos dele, chamava a atenção de quem passava pela rua ou participava de velórios em outras capelas. Na manhã de sábado, dia 16, a chuva era miúda e fria quando o padre falou por 10 minutos para cerca de 30 pessoas, antes que o corpo passasse a dividir a sepultura do pai e da avó materna de Cristiano.

        A faixa de aniversário, feita quando o jovem completou 18 anos, foi retirada da parede e carregada pela mãe. A carne, a salada e o bolo de aniversário foram consumidos nos dias seguintes. Os balões enfeitariam a festa de aniversário de cinco anos de uma das filhas de Cristiano.

A PERSEGUIÇÃO

Dois homens caminhando ao lado de um Logus que trafegava lentamente, na Avenida Sertório, uma das mais movimentadas da zona norte de Porto Alegre. A cena chamou a atenção de PMs do Destacamento Especial do Sarandi, na noite de 14 de junho. Ao ver a patrulha, conforme a Brigada Militar, um dos homens correu. O outro, Cristiano de Oliveira Torquato, 22 anos, embarcou no carro, que ingressou na Avenida Panamericana. Testemunhas disseram que o veículo seguia com as portas entreabertas para que o passageiro atirasse contra os policiais. A perseguição continuou até a Rua Maria Montessouri, onde um pneu do Logus foi atingido por um disparo e o carro, descontrolado, bateu numa árvore. Conforme os PMs, Cristiano desceu com a arma em punho, caindo morto logo em seguida. O condutor José Pedro Machado, 39 anos, foragido do sistema penitenciário, afirmou que Cristiano invadira o veículo. O terceiro envolvido jamais foi encontrado. O Logus não tinha ocorrência de furto ou roubo, e a polícia não localizou o proprietário até hoje.

Estelionato lesa funerária

         Apesar de ter ficado por quatro dias abandonado no necrotério da Capital, é certo que o assaltante Márcio Pereira de Souza da Silva, 25 anos, tinha amigos poderosos no mundo do crime. Um homem não identificado mandou buscar a mãe dele no Paraná, onde o jovem nasceu, e encarregou um testa-de-ferro de retirar o corpo.

        Ao negociar os serviços funerários e a compra de uma sepultura perpétua, o desconhecido deixou um rastro de cheques roubados e sem fundos. E um prejuízo de R$ 2,8 mil para a funerária e o cemitério.

        Cinco pessoas aguardaram o corpo no Cemitério Memorial da Colina, em Cachoeirinha. Não houve velório, e nenhuma lágrima foi derramada até o momento de o caixão descer à sepultura 118026. Neste instante, a mãe deu uma olhada no rosto do único filho e soluçou.

        O rapaz morreu em confronto com PMs depois de assaltar uma lotérica, em14 de julho. Encurralado enquanto seus dois parceiros fugiam, ele invadiu uma loja de som automotivo e fez refém um funcionário. Não adiantou. Tombou baleado.

        Por três anos, seu corpo ocupará de graça a sepultura. Depois, os restos mortais serão recolhidos a um depósito.

Coveiros do Rio rejeitam “demônio”

        O assaltante e homicida carioca Marcelo Melo Gonçalves dos Santos, 37 anos, ficou insepulto por três dias. Nenhum familiar, amigo ou parceiro de crime compareceu ao funeral de R$ 347 pago pelo governo do Rio.

        Em protesto pela violência do crime cometido por Marcelo, os coveiros do cemitério São Francisco Xavier, na zona norte do Rio, se negaram a levar o corpo ao túmulo.

        O capeleiro Jessé Cândido de Oliveira aceitou a missão. Mesmo assim o caixão ficou abandonado quase meia hora sob o forte sol de 3 de maio. Sozinho, o funcionário não conseguia erguê-lo até a gaveta. Contrariados, dois coveiros o socorreram.

        – Vamos acabar logo com isso e enterrar esse demônio – disse um deles.

        Marcelo cometeu algo inadmissível até mesmo no mundo da delinqüência: estuprou e matou uma mãe, a fonoaudióloga Márcia Maria Coelho Lira, e violentou a filha de 13 anos dela, ao invadir uma casa no bairro Santa Tereza. Marcel foi entregue à polícia pela própria mulher, Erinalva Barbosa, 42 anos.

        – Roubo ainda passa. É para botar comida em casa. Mas matar? Estuprar? Isso não tem cabimento – explicou.

        Três dias depois, o marido foi encontrado na cela enforcado com o fio de um ventilador. A perícia atestou suicídio.

A despedida aos malditos
O trágico destino de homens, em sua maioria jovens, que optaram pela marginalidade

ADRIANA IRION

Solitário retorno: 16 anos depois de sumir, José Ruppenthal volta a Canela, dentro de um caixão (foto Robinson Estrásulas/ZH)

        Estas são histórias que trazem senso de Justiça para uns, dor para outros. Personagens sepultados como “menos um” a intimidar seus inimigos amarguram quem perde um filho, um irmão, um familiar. Estas são histórias de criminosos mortos. Durante quatro meses, Zero Hora acompanhou o enterro de 14 deles, desvendando um ritual maldito.

        Nesta reportagem, a ser completada amanhã, os homens fulminados violando a lei, geralmente jovens e sem identidade, ganharam nome, sobrenome e uma história.

        A incursão aos enterros dos bandidos mostra o longo e humilhante caminho de familiares para encontrar o morto, identificá-lo no necrotério, obter liberação e dar explicações à polícia e a conhecidos. Há casos em que a face criminosa só se revela no ponto final da vida. É uma confirmação dolorosa, normalmente difundida pelos noticiários. Há situações ainda mais surpreendentes. Como a do assaltante José Ruppenthal, 43 anos, ironicamente “ressuscitado” para sua família ao morrer. Havia 16 anos, ao ser preso por roubo e latrocínio, ele perdera contato com os parentes, moradores de Canela.

        Eles voltaram a ouvir algo sobre o sumido pelas ondas de uma emissora de rádio da cidade serrana: “Familiares de José Ruppenthal devem entrar em contato com a Delegacia de Polícia”. Tamanho o distanciamento, um irmão esteve no necrotério da Capital para reconhecer o cadáver, na noite do último 27 de setembro e se confundiu. Levou para ser velado em Canela o de um jovem de 20 anos.

        Quando abriram o caixão, já na Serra, outros familiares descobriram o erro. O corpo do rapaz, vestido com a roupa destinada a José, foi trazido de volta a Porto Alegre. No verdadeiro José, a roupa não serviu e apenas foi colocada sobre o corpo, inchado depois de três dias insepulto.

        Carregado em um carro funerário, José retornou a sua cidade às 3h de 28 de setembro, sexta-feira. Às 7h, quem olhava para o galpão da associação do bairro Bom Jesus teria dificuldade de perceber o velório realizado lá dentro. Com a porta e as janelas fechadas, silencioso e com luz fraca, o chalé abrigava três pessoas no começo da manhã.

        – Perdemos o contato com ele depois que foi transferido do presídio de Canela para Carazinho. Não tínhamos condições de viajar. Nossa mãe foi vê-lo uma vez. Depois que ela morreu, não tivemos mais notícias – explicou a irmã costureira.

        Como e por que o rapaz que trabalhava em reflorestamento foi parar na cadeia ainda é um assunto obscuro para os irmãos:

        – Parece que ele tinha matado alguém.

        A 13 quilômetros do local do velório, às 9h, o corpo chegou ao cemitério de Banhado Grande, interior de Canela. Chovia fino quando cerca de 10 pessoas desceram da mesma caminhonete para acompanhar o enterro. O sepultamento foi demorado. Os próprios familiares abriram e fecharam a sepultura no chão, no cemitério desprovido de coveiro.

PAVOR EM SÉRIE

Quatro horas depois de iniciar uma seqüência de assaltos no norte gaúcho, os foragidos da Justiça José Ruppenthal, 43 anos, e João Arnaldo da Silva, 34 anos, foram mortos a tiros por policiais militares na noite de 24 de setembro. Às 19h15min, em Condor, os assaltantes atacaram uma farmácia. Às 20h30min, outras duas em Palmeira das Missões. Às 23h30min, ao sair de uma farmácia de Frederico Westphalen, foram baleados por PMs antes de chegar a um Gol roubado em Ijuí. Na ausência de documentos, a polícia enviou fotos a delegacias e presídios da região para identificá-los. João, fugitivo do presídio de Passo Fundo, foi reconhecido pela companheira. José, com base em uma foto fornecida pelo Presídio de Soledade, de onde escapara em 9 de julho.

Uma dor dividida

        Conhecido assaltante em Gravataí, Daniel Apolo Duarte, 22 anos, despertou sentimentos contraditórios em sua família ao ser velado no Cemitério Municipal Central. Quando o corpo chegou à capela A, na noite de 10 de junho, a companheira o abraçou. Revoltada, indagava:

        – Por que ele (a vítima do assalto) atirou? Não precisava te matar.

        Conhecido como “Chico da Paula”, Duarte tinha antecedentes por roubo a pedestre, a residência e a motorista. Estava com prisão preventiva decretada.

        – Ele era bandido mesmo – declarou, abalada, uma das irmãs.

        Cabisbaixo e constrangido, o pai media palavras:

        – Ele aparecia, depois sumia. Eu nunca sabia o que ele estava fazendo.

        No dia do aniversário, Duarte esteve na casa da família. Ganhou da irmã Patrícia a corrente com um pingente em forma de dólar que, na noite do crime, brilharia no pescoço do corpo caído às margens da BR-290.

        A mãe preparou a mesa numa terça-feira para celebrar o aniversário do filho desgarrado, mas ele partiu sem jantar. Reapareceria na sexta-feira seguinte para chamar a irmã Patrícia e preparar o plano do assalto que o levaria à morte.

        Muitas pessoas passaram pela capela A, mas, ao final do velório, havia poucas assinaturas no livro.

        – Foi uma madrugada movimentada, de muito entra-e-sai, tudo gente desconfiada, que não ficava muito tempo – contou um comerciante.

A HORA DO ALGOZ

Minutos depois de dizer à vítima “Vai ser aqui, chegou tua hora”, era ele próprio, o assaltante Daniel Apolo Duarte, 22 anos, que corria para fugir da morte, na noite de 8 de junho.
Baleado por sua vítima, Daniel correu 148 passos, atravessando a praça de pedágio de Gravataí, onde deixou um rastro de sangue. Tentou pular uma cerca. Caído na grama, debateu-se, mordeu as mãos de um socorrista e balbuciou:
– Me mata de uma vez.
E morreu, apesar do socorro.
Assim foi o desfecho do assalto executado por Daniel com a irmã Maria Patrícia Duarte, 29 anos. Os dois abordaram um militar da reserva de 48 anos, na zona norte da Capital. Colocaram-no no banco traseiro de sua caminhonete S-10 na mira de uma pistola empunhada por Patrícia. Ela se distraiu, o militar segurou a arma, sacou uma pistola e atirou quatro vezes contra a mulher e cinco vezes contra ele. Patrícia sofreu perfuração do intestino e do esôfago e laceração no pescoço. Recolhida à Penitenciária Madre Pelletier, aguarda julgamento.

 

Vidas que o crime abortou

ADRIANA IRION

        Zero Hora acompanhou o desfecho da vida de adolescentes que tiveram pelo menos uma coisa em comum. Suas vidas foram ceifadas muito cedo, antes de chegarem à maioridade, por envolvimento com o crime. Nesta reportagem, ZH encerra uma série iniciada no domingo e que retratou o enterro de 14 bandidos mortos em ação. Em todos os casos, uma mistura de constrangimento e dor marcou a despedida de familiares em ritual maldito.

        – Será que Deus está com um cara desses? – pergunta um funcionário do cemitério que observa a sepultura de Anderson Valdir dos Santos Oliveira.

        A dúvida inspira-se na inscrição “Deus seja Louvado”, improvisada no cimento ainda molhado da sepultura do garoto de 13 anos que empunhou um revólver calibre 38 e atirou dentro de um ônibus carregado com cerca de 15 pessoas.

        A beira da sepultura do policial Civil Mauro Vieira Rodrigues, 34 anos, passageiro do ônibus morto por Anderson, havia só certezas: tratava-se de um policial exemplar.

        – Estamos enterrando só um corpo, a alma de um homem bom como ele vai para outro lugar – afirmou a viúva.

        Anderson e Mauro morreram na noite de 27 de agosto. O policial caiu morto dentro do ônibus. Anderson desceu do veículo, caminhou até a vila em que morava e foi socorrido por amigos. Chegou ao hospital sem vida. Os dois entraram no necrotério, em Porto Alegre, com 10 minutos de diferença.

        Na tarde seguinte, policiais esperavam a liberação de ambos os corpos. O de Mauro seria levado para uma capela em Sapucaia do Sul, onde mais de 200 pessoas, entre familiares, amigos e colegas, o esperavam. O de Anderson estava sob suspeita. Em função da altura do jovem, a polícia duvidava da idade que constava da identidade. Mais exames foram feitos antes da liberação do corpo.

        O caixão do policial descia à sepultura sob aplausos e salva de tiros em São Leopoldo, enquanto o corpo de Anderson recém era liberado na Capital.

        O corpo do jovem chegou à capela A do cemitério municipal de Esteio depois das 18h. Era esperado por dezenas de pessoas. Entre elas, a mãe, cumprindo pena por tráfico de drogas em regime semi-aberto, e policiais disfarçados que pensavam encontrar no velório mais um dos participantes do assalto.

        Sem desconfiar da presença dos agentes civis, familiares se incomodaram com PMs que entravam e saíam do cemitério e com o carro da Brigada Militar estacionado na esquina. Não perceberam que os PMs foram ao local homenagear um colega velado na capela vizinha à de Anderson. E que o carro na esquina não fazia nada além do costumeiro patrulhamento noturno para coibir assaltos na região.

        Na manhã seguinte, agentes da lei e familiares de Anderson dividiram o espaço do cemitério. Sob escolta de duas patrulhas da BM, o irmão de Anderson, internado na Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem) por assalto, permaneceu por uma hora no velório.

        Com 16 anos, o rapaz costumava aconselhar o irmão a se manter longe do crime. A mãe, grávida de quatro meses e que passou mal durante o velório, foi breve:

        – O que tinha de acontecer aconteceu. Não há mais nada a dizer.

        Familiares vieram do Interior, e a capela permaneceu cheia durante as quase 20 horas de velório. Jovens e crianças rodeavam o caixão para enfeitar o corpo com pequenas flores. Observavam curiosos o aluno da 4ª série que gostava de assistir a desenhos e jogar futebol.

BRUTALIDADE NO ÔNIBUS

Anderson Valdir dos Santos Oliveira, 13 anos, levantou do banco que ocupava no ônibus 267 da Central e anunciou um assalto, na noite de 27 de agosto. Tiros ecoaram no veículo, e o policial civil Mauro Vieira Rodrigues, 34, e uma comerciária de 22 anos tombaram feridos. Ferido, Anderson fugiu com a ajuda da parceira, Carla Oliveira de Souza, 26 anos, mas morreu, assim como o policial.

Dois amigos velados aos 15 anos

FABRÍCIO CARDOSO

        Os 23 passos entre as capelas Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Conquistadora, no cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé, foram percorridos por parentes e amigos de Daniel Soares e de Rodrigo Amaro dos Santos. A faixa etária predominante denunciava que se despediam de vidas fugazes, encerradas aos 15 anos.

        Onze rapazes trajando calças de fundilho largo, bonés coloridos e brincos espalhafatosos carregavam no semblante a revolta. Caminhavam nervosamente de uma capela à outra, sempre com cigarro entre os dedos. Senhoras tratavam de dar ombro para as lágrimas das mães, cujo desconsolo crescia conforme se aproximava a hora do enterro.

        A mãe de Rodrigo, Oleusa Lima Amaro, não pronunciou nenhuma sílaba sobre a morte do filho. Carregava consigo um sentimento de culpa. Um mês antes, o menino havia se envolvido num furto a uma loja. Preso, acabou liberado com a garantia de que não contrariaria a mãe. Foi morto na noite em que escapuliu da vigilância das duas irmãs menores para ir a um baile.

        A notícia da morte dos amigos inseparáveis espalhou comoção pela Vila Ivo Ferronato, onde ainda vive a família de Rodrigo e onde Daniel passara a infância com a mãe e os sete irmãos.

        – Sei que ele estava fazendo coisa errada, mas não precisava ter morrido assim – repetia com o choro entrecortado por soluços a mãe de Daniel, Ana Rosa Soares.

        – Sobram más companhias, e faltam religião e educação na Ferronato – diagnosticava Maria de Lourdes Cunha, vizinha dos Amaro desde que Oleusa tinha 13 anos.

INSEPARÁVEIS ATÉ NO DELITO

Restavam minutos para o primeiro dia da primavera quando Daniel Soares e Rodrigo Amaro dos Santos, 15 anos, perambulavam pelos telhados da Avenida Sete de Setembro. O plano de furtar bens do Bar Kiss foi frustrado com três tiros disparados por um comerciante.
Ambos os adolescentes perderam os sentidos antes do arrombamento. Daniel quebrou o pescoço ao cair do terraço, atingido por um disparo nas costelas. Rodrigo recebeu atendimento médico, mas sucumbiu às perfurações na testa e na garganta.

A morte aos 17 anos

        Quando o filho Marco Antônio Rosa dos Santos, 17 anos, fugiu da Febem, em fevereiro, a doméstica Helena Santos sabia que seria preso ou morreria. Três meses depois, Marco estava morto, e o corpo do jovem pai de dois filhos voltava a ser escoltado por PMs. Oito agentes desocuparam a capela C do cemitério Jardim da Paz para que o irmão mais velho de Marco, recolhido ao Presídio Central, se despedisse.

        Cerca de 60 pessoas fizeram o cortejo silencioso. A mãe deixou o cemitério certa de ter feito o que podia pelo filho mais novo, que estudou até a 7ª série num colégio particular e fez catequese, mas se envolveu cedo com as drogas. Quatro dias depois de enterrar Marco, quando completou 45 anos, Helena remexeu fotos do filho e deu um recado a outras mães:

        – Quem tiver um filho envolvido em crime e puder fazer algo, que lute, vá até o fim para tirá-lo dessa vida. Não aceitei ele fugir, mas sabia que estava vivo. Hoje, só eu sei a dor que estou sentindo.

O CONFRONTO FINAL

Noite de sábado, 5 de maio. PMs da Capital desconfiam de quatro homens em um Monza. Constatam que o carro é roubado e o perseguem. Conforme a Brigada, os suspeitos reagem a tiros. A perseguição tem fim dois quilômetros depois, onde o Monza bate. O tiroteio recomeça. Baleado na cabeça e no pescoço, Marco Antônio Rosa dos Santos, 17 anos, morre no local.

 

 

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