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O EFEITO DESCONFIANÇA Editoriade Zero Hora de 11/09/01 Levantamento
efetuado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Administração (Cepa) da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para a RBS revela que,
dentre 635 pessoas consultadas em Porto Alegre nos dias 5 e 6 deste mês,
59,9% não confiam na Brigada Militar e 64,4% externam idêntico ponto de
vista em relação à Polícia Civil. Se computados apenas os jovens de 16 a
19 anos, verifica-se que a rejeição à primeira corporação ultrapassa
80% e à segunda 63%. Mesmo considerando-se que a sondagem foi efetuada
poucos dias após o assassinato do jovem tenista Thomás Engel, estamos
diante de dados alarmantes. Quando os agentes da lei, os que detêm a
responsabilidade imediata e específica de garantir a proteção da vida, da
incolumidade física e do patrimônio, apresentam tão elevados percentuais
de inconfiabilidade, é porque há algo de profundamente errado em um
sistema de segurança pública. Torna-se
evidente, diante desses e de outros percentuais, que a incapacidade da
estrutura preventiva e repressiva de conter a escalada infrene da delinqüência
está concorrendo para a sua baixa credibilidade perante a sociedade, fato
que se agrava ainda mais com posicionamentos ambíguos das autoridades, inúmeras
vezes patenteados. A grande lição da sondagem é precisamente a de que a
forte sensação de insegurança dos cidadãos deriva de fatores concretos.
O Rio Grande do Sul ocupa hoje a vice-liderança nacional em algumas estatísticas
importantes de criminalidade, superando até mesmo um Estado estigmatizado
pela violência como o Rio de Janeiro. Comparados, os indicadores oficiais
na relação de ocorrências por 100 mil habitantes comprovam que nos
situamos em um indesejável segundo lugar no país em furto de veículos,
roubo a banco, roubo a residência, estelionato e seqüestro relâmpago. Os
homicídios, que estiveram em queda de 1,18% na capital fluminense de
janeiro a julho, aqui experimentaram uma expansão, em idêntico período,
de 31,7%. Parece
claro que algumas circunstâncias concorrem para o agravamento desse cenário.
Especialistas ouvidos por este jornal apontaram dentre outras as
desigualdades sociais, a urbanização acelerada, a ausência de freios
morais e religiosos, a estagnação econômica e o tráfico de substâncias
ilícitas, o grande financiador do crime organizado. É incontestável,
igualmente, que o poder público abandonou à própria sorte aglomerados
humanos onde faltam educação, cuidados de saúde, moradias dignas,
saneamento básico e segurança e sobejam fome, doença, violência,
promiscuidade e desesperança. Essa ausência do Estado leva não poucos
cidadãos a confiar em bicheiros, traficantes, assaltantes. Cumpre não
esquecer por fim que a família se desagregou em larga escala, que as agressões
começam em casa, que crianças de tenra idade sofrem com os ataques –
muitos de abjeta conotação sexual – dos próprios parentes ou responsáveis. Só
há um modo de reverter esse quadro de injustiças e iniqüidades. É
conferir à segurança pública grau de altíssima prioridade governamental,
dotando essa área de uma filosofia de ação firme, esclarecida e inequívoca,
que comece pelo restabelecimento das virtudes fundamentais de que a Polícia
Civil e a Brigada Militar não podem abrir mão: discernimento e
credibilidade. |
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