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EDUCAÇÃO, INSTRUÇÃO E DOUTRINAÇÃO Luiz Carlos da Cunha Entre
os suicidas participantes dos últimos atentados terroristas na América,
predominavam moços de instrução primária. Todos oriundos de escolas islâmicas
de instrução doutrinária. Para decorar aforismos e repeti-los à exaustão,
basta distinguir letras ou símbolos sonoros de uma língua. Nada mais. Se
conota-se esta constatação às sociedades ortodoxas de países onde a
religião confunde-se com o Estado, inicia-se a compreender o processo político-educacional
capaz de preparar suicidas em série. Nos países muçulmanos
fundamentalistas, entre os quais extrema-se o Afeganistão, é proibida a
instrução da mulher. Sabendo-se da importância da mãe na educação da
infância – a mais longeva de todos os animais – é fácil imaginar o
primariíssimo aprendizado que pode receber um filho de mãe analfabeta,
justo na fase mais importante da assimilação cerebral. Apenas superstição. Ainda
que seus adeptos atribuam este costume à tradição, preceitos familiares,
cultura ou qualquer outra justificativa palatável, na verdade é um
instrumento masculino de domínio e opressão sobre a mulher, castrando-lhe
todo os direitos fundamentais da civilização, hoje estipulados em Carta
Universal. A
educação do indivíduo se processa em três esferas: a familiar, a escolar
e a social. Esta última determinada pelo meio de convivência. A escola pública
universal e obrigatória, dominante entre nós a partir das revoluções
francesa e americana, democratiza o acesso ao conhecimento e o preparo mínimo
para o indivíduo inserir-se na cadeia produtiva e convivência social. Ela
é precipuamente democrática em razão de nivelar as oportunidades aos
filhos provindos de famílias de díspares graus de instrução, bem como
disciplinar e harmonizar o conhecimento auferido no aleatório meio social.
Assim, a escola primária propicia àquelas crianças que portam deficiência
educacional de família nivelar-se às demais educadas de berço, provê-las
de ensinamentos necessários, preencher a lacuna trazida da carência
familiar e do aleatório social. A
escola se encarrega daquele conjunto de conhecimento instrutivo, o ensino
das matérias propedêuticas – ler, escrever, contar, expressar-se –
componente do conjunto maior definido por educação. Doutrinação é uma
instrução especializada, destinada a incutir um padrão de pensamento
unificador de ação e comportamento. Pode ser religiosa, política, filosófica.
Trata-se de um corpo de preceitos mais ou menos coerentes de dogmas, cuja
assimilação exige apenas a crença. Eis por que as doutrinas rudimentares
são facilmente assimiláveis pela massa ignara. Os
dogmas podem condensar-se em sentenças, frases rotundas, verbosidade
retumbante, ditos reivindicatórios, ou qualquer expressão agressiva que
identifique entre si os sectários. Alá é grande! Reforma agrária já!
Morte ao tirano! Pão, paz, terra e liberdade! Fora o FMI! A compreensão do
conteúdo verbal pode ser obscura ou nenhuma ao postulante. O que importa é
o reforço do impulso sonoro à disposição física da agressividade. Isto
se prova na ação da massa. Os ditos ecoam qual linguagem unificadora da
massa contraditória de manifestantes. Amalgama a unidade e solidariedade
entre os indivíduos rebelados. O
processo de doutrinação é inverso ao pensamento científico, que atiça a
dúvida e exige a prova objetiva. Em outras palavras, a doutrinação é
antagônica à instrução escolar. Ou doutrina-se a criança, ou bem
ensina-se-lhe a pensar. Houve entre nós um pedagogo que ganhou notoriedade adotando em lugar das palavras básicas na formação de sílabas – ovo, uva – nas cartilhas tradicionais e eficientes criadas pela experiência de respeitáveis educadores e filólogos, em várias gerações, por... fome, foice, terra. Sua cartilha visava alfabetizar camponeses em Pernambuco. Tempos atrás, ouvindo a Rádio Internacional da França, atentei para uma reportagem: o então secretário de Educação de Porto Alegre descrevia a “revolução” que realizava no ensino primário. Os pais de famílias de bairros periféricos – excluídos sociais – participavam na formação dos programas escolares. A jornalista interpôs dúvida quanto ao resultado educacional, ponderando que as crianças alvos provinham de camadas de escassa formação educacional. Como poderia ser revertido o processo de exclusão social, mantendo-se os limites educacionais num círculo vicioso? A resposta deixo a cargo dos leitores de bom senso. O mais espantoso, talvez, seja saber que o ex-secretário de Educação é hoje reitor da recém criada Universidade Estadual. |
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