Brasil

  Rio Grande do Sul

Zero Hora de 08/08/02

 Menu

 Página inicial
 Quem sou
 Trabalhos
 Artigos
 Notícias
 Assuntos 
da semana
 Livros 
 Cartas e Respostas
 Charges

 Contato para pales-
tras e assessorias

 Links 
Recomendados 
Outros
 E-mail
 Enquetes anteriores


Os heróis mortos em confrontos
Assassinato de capitão e de sargento eleva para seis o número de PMs vitimados em serviço neste ano no Estado

JOSÉ LUÍS COSTA
RODRIGO CAVALHEIRO
Honras militares: dezenas de colegas se despediram do capitão Carlos Augusto Vieira, sepultado no início da noite de ontem no Cemitério João XXIII, na Capital

Honras militares: dezenas de colegas se despediram do capitão Carlos Augusto Vieira, sepultado no início da noite de ontem no Cemitério João XXIII, na Capital (foto Mário Brasil/ZH)

        Uma série de trágicas coincidências abateu o moral da tropa da Brigada Militar na terça-feira à noite. O capitão Carlos Augusto Cabral Vieira, 32 anos, e o sargento Ari Frank, 48 anos, foram abatidos em confronto por bandidos, quando participavam da Operação Reconquista, uma ofensiva contra o crime no Estado.

        Os dois militares usavam coletes à prova de balas, mas foram alvejados em pontos vulneráveis. Vieira, na cabeça, e Frank, na veia femoral da perna direita. Ambos colecionavam elogios por bravura e fariam aniversário na próxima semana. Para cada um, estava sendo preparada uma festa por parte de colegas e amigos. Eles agonizaram no Hospital Cristo Redentor e morreram com diferença de 50 minutos.

        – A Sociedade gaúcha e a Brigada Militar perderam muito com essas mortes – resumiu o chefe do Estado-maior da BM, coronel Tarso Antônio Marcadela, que esteve no enterro do capitão, ao lado do subcomandante-geral, coronel Luiz Antônio Brenner Guimarães.

        O secretário da Justiça e da Segurança, José Paulo Bisol, não foi ao enterro de Vieira, mas enviou uma mensagem à família do oficial.

        Vieira e Frank engrossam uma lista que soma neste ano a morte em serviço de seis policiais militares durante combates.

Morte de oficial deixa órfãs 20 crianças carentes

        O tiro que matou o capitão Carlos Augusto Cabral Vieira, aos 32 anos, fez dezenas de outras vítimas.

        Ficaram órfãs 20 crianças abandonadas pelos pais em abrigos e idosos esquecidos em clínicas geriátricas.

        Desde que passou a atuar no Destacamento Especial Sarandi, na zona norte de Porto Alegre, no final do ano passado, o oficial se engajava em campanhas em favor de desamparados. Lotado na 3ª Companhia, costumava angariar recursos entre empresários para compra e distribuição de cestas básicas em creches e asilos. Dedicava-se a palestras nas quais alertava para os males das drogas em escolas e colaborava com a Fundação Projeto Pescar – programa formado por um conjunto de empresas que treina jovens para o mercado de trabalho.

        Uma das paixões de Vieira era o Centro Social O Samaritano, instituição que abriga 20 crianças de zero a 12 anos, expulsas do convívio familiar por maus-tratos e abuso sexual. Vieira tinha o hábito de visitar a casa para aconselhar os mais rebeldes.

        – Ele veio aqui um dia, conheceu as crianças, fez amizade e voltava sempre que precisávamos de ajuda. Os pequenos tinham medo da Brigada, e ele mostrava os aspectos sociais da polícia – lembrou a comerciante Patrícia Xavier, que administra o abrigo com o marido, Oldemir Xavier.

        Chocado com a morte de Vieira, o casal lembrou que o oficial promoveu a última festa de Natal.

        – Foi a melhor que tivemos. O capitão comprou torta e bolo, providenciou refrigerantes e salgadinhos e trouxe um Papai Noel com um saco cheio de presentes. Ele já estava planejando outra festa, para o Dia das Crianças – contou Oldemir.

        Segundo colegas de farda, Vieira morreu fazendo o que mais gostava: capturar bandidos. Comandante do Pelotão de Operações Especiais (POE) da unidade do Sarandi, o capitão e outros três PMs perseguiam um trio que roubara um Pointer na terça-feira à noite. Na Avenida Souza Melo, no Sarandi, iniciou-se um sangrento tiroteio, que resultou em três mortes.

        Alvejado na cabeça, Vieira foi levado para o Hospital Cristo Redentor, onde morreu três horas depois. Um dos assaltantes, Iroceli Reus Pinheiro Pires, 29 anos, tombou no local. Volmir Quevedo de Araújo, 35 anos, ferido nas pernas, morreu às 6h30min de ontem, no Cristo Redentor. Pires tinha condenações por roubo qualificado. Araújo era foragido da Justiça, por crimes de homicídio e roubo. Um terceiro ladrão, ferido, teria escapado.

        Casado e pai de um garoto de dois anos, Vieira era natural de Porto Alegre. Ingressou na Academia da BM em 1993, formando-se tenente em 1997, ano em que comandou o Esquadrão de Polícia Montada de Uruguaiana. Em 1998, foi transferido para o Destacamento Especial Partenon, e, em 2000, comandou a unidade de Dois Irmãos.

        Em outubro passado, Vieira retornou à Capital, sendo promovido a capitão no mês seguinte. Casado e pai de um menino de dois anos, o oficial foi sepultado ontem à noite no Cemitério João XXIII.

AS BAIXAS

Ano

PC

BM

1995

3

7

1996

6

6

1997

16

11

1998

3

9

1999

6

6

2000

2

9

2001

8

8

Total

44

54

Um líder comunitário

Cortejo: corpo de sargento foi levado para sepultamento em Santa Catarina (Júlio Cordeiro/ZH)

        Enfrentar bandidos nunca foi preocupação para o sargento da BM Ari Frank, 48 anos.

        Na tarde de terça-feira, ao deparar com dois suspeitos, em Alvorada, agiu com o mesmo destemor que o caracterizou em 25 anos de serviço e lhe rendeu elogios como confronto com a quadrilha dos irmãos Galhardo, perigosos assaltantes de banco da década passada.

        Surpreendido pela reação de um dos homens abordados, levou um tiro na perna direita que dilacerou a veia femoral direita e o levou à morte horas depois, por perder muito sangue.

        – Era um homem valente. O único medo dele era o coração. Hipertenso, costumava dizer que, se desse um problema com o “bobo” (coração), que eu não deixasse ele morrer sozinho. Queria estar entre amigos – lembrou a auxiliar de enfermagem Vânia Fabian, 49 anos, amiga e comadre do PM que atuava no Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), em Porto Alegre.

        Vânia contou que Frank fora líder comunitário em cidades onde morou. Sentia-se à vontade em galpões de CTGs. Desde que ingressou na BM, em Três Passos, passara por Frederico Westphalen, pela Casa Militar, pelo Quartel-general da BM e pelo BPRv. Era considerado um ótimo colega e tinha comportamento excepcional.

        Frank passou o último dia de vida longe do batalhão, colaborando com um blitz na RS-118, em Gravataí. Ao perceber que uma motocicleta desviara da barreira, saiu em perseguição e acabou morto ao tentar dominar o bandido. O assassino sumiu. Seu parceiro, Luís Osmar Carvalho dos Santos, 37 anos, foi capturado e preso em flagrante.

        Frank era natural de Seberi. Casado pela segunda vez, deixa um filho de 18 anos. Um cortejo o levou a Frederico Westphalen. À noite, seria velado e depois seguiria para Palmitos (SC), onde será sepultado hoje.

“Somos uma família, estamos no mesmo barco”
Entrevista: Wagner Artini, PM baleado em serviço

        Em 24 de julho passado, o soldado Wagner Artini, 35 anos, escapou vivo da linha de frente na qual pereceram o capitão Vieira e o sargento Ari Frank, na terça-feira. Artini esteve perto de morrer. Passados 15 dias, enquanto se recupera em casa dos ferimentos causados por três disparos, Artini foi surpreendido com a notícia da morte de dois colegas em confrontos.

        Chocado, o soldado contou a ZH os momentos dramáticos da caçada que resultou nos ferimentos em seu corpo. Ele perseguia o foragido Gelson André de Oliveira, que minutos antes baleara outros dois PMs na 21ª DP. Um dos projéteis perfurou o intestino do policial. Confira trechos da entrevista:

        Zero Hora – Como o senhor recebeu a morte dos dois policiais em serviço?

        Wagner Artini – Mesmo não os conhecendo, senti muito. Somos uma espécie de família, estamos no mesmo barco, para evitar agressões.

        ZH – O risco da morte é lembrado nas operações?

        Artini – Sabemos que podemos ser alvejados, mas nunca esperamos, mesmo com o treinamento de tiro.

        ZH – Como foi o dia em que o senhor foi ferido?

        Artini – Não tinha noção de quantos tiros me acertaram. Sentia dor na perna e no ombro, mas não percebi o ferimento na barriga. Fiquei calmo.

        ZH – Foi a primeira vez que foi ferido?

        Artini – Já tinha sido acertado no Presídio Central por uma arma artesanal, nas costas.

        ZH – O senhor já perdeu algum colega em ação?

        Artini – É estranho lembrar que cumprimentou alguém e descobrir que essa pessoa morreu.

        ZH – A experiência muda algo no trabalho?

        Artini – Volto sem medo. Por instinto, não gritei ao ser acertado. Se tivesse desviado a atenção dos colegas, talvez eles pudessem ter sido alvejados.

        ZH – Como está a sua recuperação?

        Artini – Tirei os pontos hoje (ontem). Os médicos tiram os órgãos, limpam e põem para dentro, fica a sensação de que está tudo remexido. Com o tempo passa.

PMS MORTOS EM 2002

• Jair Francisco Leão Quinteiro, 44 anos, morreu baleado em Três Coroas por uma quadrilha que tentava assaltar uma agência do Banrisul no dia 21 de fevereiro. Ao levar para a cidade de 19 mil habitantes a mulher e três filhos, Quinteiro elogiou a tranqüilidade do lugar em relação a Canoas, onde morava.

• Natural de Bagé, José Eduardo Moraes Fagundes, 43 anos, tinha 23 anos de BM. Morreu em 22 de abril, perseguindo um assaltante em Guaíba, onde vivia havia 10 anos. Morador do bairro Santa Rita e integrante do movimento negro da cidade, era conhecido e respeitado no meio cultural local. Era casado, tinha cinco filhos e a fama de brincalhão.

• Ao investigar um veículo roubado no Morro do Paula no dia 15 de abril, em São Leopoldo, Rogério Trindade da Rosa levou um tiro na cabeça. Nascido em Canoas, o soldado de 32 anos foi criado no bairro Niterói e ingressara havia 12 anos na Brigada Militar.

• O policial militar Deroci Gonçalves Brandolt foi baleado três vezes ao repreender um homem que atirava pedras contra uma capela em Quaraí. Brandolt, 40 anos, chegou em casa após o trabalho na madrugada no dia 27 de abril. Mesmo já sem a farda, morreu tentando conter o vandalismo denunciado por uma vizinha. Deixou mulher e três filhos.

 

 

adicione o Polícia e Segurança aos favoritos.

Clique aqui para assinar o Livro de visitas
Clique aqui para ler o Livro de visitas.
As idéias e opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores.
 

Web designer: Otálio Afonso