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UM DIA DE CHUMBO

Heitor De Paola 

 “Olha o Borel chegando aí, minha gente!”

    Este brado do puxador de samba, que antes significava a entrada na avenida de tradicional Escola de Samba da Tijuca e dava o sinal para a bateria começar a tocar, é hoje um aviso de horror para os moradores daquele bairro. Significa que o morro está descendo, mas ao invés de bateria de tamborins, surdos e atabaques, baterias de AR 15, lança-granadas e metralhadoras .50. A Comissão de Frente vem armada de lança mísseis, o Mestre Sala tem nome estranho aos tradicionais do samba, Fernandinho Beira-Mar, não-sei-o-que da Vila Vintém, Marcinho VP, Elias Maluco; a Porta Bandeira empunha uma cueca vermelha, símbolo do CV; os carros alegóricos são camionetes importadas cheias de bandidos armados até os dentes.

   Ontem, o Rio inteiro foi a Tijuca. Enquanto as ordens de fechamento do comércio se restringiam à tradicional Praça Saenz Peña ou subúrbios distantes, os demais moradores da cidade achavam que estavam a salvo. Não se tomava aquilo como prenúncio. Mas não se diga que esta tragédia não foi anunciada, e vem sendo preparada há muitos anos.

   Algum dia de 1983 em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio: estávamos nos primeiros tempos do “socialismo moreno” do Governo Brizola. Encontrava-me num borracheiro quando chegou um carro da PATAMO (Patrulhas Tático-Móveis). O motor resfolegava, falhando, o cano de descarga amarrado com arame, os pneus faziam inveja ao Kojak e a aquele furado, que era eufemisticamente chamado estepe, já estava todo remendado. Os policiais pagaram o conserto do próprio bolso, assim como faziam com o complemento de combustível, recebido em quantidade limitada. Estavam impedidos de subir os morros e qualquer atitude mais agressiva em relação aos bandidos dava inquérito na Comissão de Direitos Humanos e geralmente demissão. Um deles me disse: “moço, em pouco tempo eles vão dominar toda a cidade”.

   30 de setembro de 2002: por ordem do tráfico o comércio, os bancos e as escolas fecharam em dezoito bairros do Rio, incluindo Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo, Tijuca, São Cristóvão, Bonsucesso. E em cidades da área metropolitana da importância de Niterói, Duque de Caxias, Nilópolis, Nova Iguaçu. À noite, ao voltar para casa, vi restaurantes e bares tradicionais fechados. As autoridades, atônitas, não sabiam o que fazer nem dar nenhuma explicação. Enquanto isto o Beira Mar ria. Ria de que? Dos trouxas que o fazem um herói dos “excluídos” e o consideram um caso “social”, resultado de uma vida de pobreza e necessidades. Dos cineastas aproveitadores que glamourizam a vida dos bandidos ou pretendem regenera-los. Ria dos ridículos movimentos tipo Viva Rindo, perdão, Viva Rio, e da galhofa das passeatas pela paz, com uma multidão de deslumbrados vestidos de branco a protestar contra a violência num happening festivo. Pane et circensis para os marginais!

   Este dia foi a culminância de um processo que se iniciou há aproximadamente vinte anos, se intensificou há oito e tende a se aprofundar, seja qual for o resultado das eleições. Não é o resultado de outra “marcha da insensatez”, já que obedeceu a movimentos rigorosamente planejados, e suas conseqüências, não foram, portanto, imprevisíveis. Os principais fatores foram os seguintes:

   1- ainda no regime militar a co-habitação de presos políticos com presos comuns resultou num conluio explosivo: os primeiros ensinaram aos segundos as táticas de guerrilha aprendidas em Cuba e outros paraísos comunistas, preparando-os, portanto, como seus legítimos sucessores;

   2- a primeira cena descrita acima nada mais é do que um símbolo da desmobilização da polícia através de duas medidas simultâneas: a deterioração dos meios físicos (delegacias, viaturas, armamentos) e, pior, o cerco ideológico à ação da mesma através de comissões de direitos humanos, leis que impedem o policial de cumprir com seus deveres legítimos, leis que  diminuem as penas e facilitam a soltura de criminosos com o cumprimento mínimo das penas, isto quando chegam a julgamento;

   3- a pretexto de excessos cometidos pelos militares, e em verdade ocorreram, instalou-se um processo de desmoralização e sucateamento das forças armadas, incrementado nos últimos oito anos com a chegada ao poder de ressentidos e revanchistas, com a demonização do regime militar como expressão absoluta do mal. Como corolário inevitável do exagero, destruiu-se todas as fontes de autoridade, mesmo as legítimas, que foram equiparadas ao autoritarismo de regimes de direita, nunca aos mais autoritários de todos, os de esquerda.

   4- mas o pior, muito pior, foi a desmobilização das consciências através da contínua doutrinação sofrida pela população, e aproveitada pelos marginais, de que a bandidagem é fruto da injustiça e da exclusão sociais, de que a culpa é de toda a sociedade da qual eles são pobres vítimas. Os controladores da mídia, intelectuais (tenho dúvida em dar este título aos que aqui me refiro), artistas, sociólogos, psicólogos, “padres de passeata” (apud Nelson Rodrigues), senhoras desocupadas em geral, encarregaram-se desta doutrinação, que instilou progressivamente na mente das pessoas um relativismo moral suicida que tudo justifica à luz de obscuras e suspeitas teorias sócio-psicológicas, que se apresentam como anti-maniqueistas e, portanto, libertadoras. Passou a ser justo que os marginais e assassinos tenham direitos humanos, não as vítimas. Ainda não se viu o protesto de nenhuma ONG pelo prejuízo ontem sofrido por comerciantes e comerciários cujo montante, calculado por baixo, foi de 130 milhões de reais. O endeusamento dos bandidos não é casual, é necessário para idealizar os assassinos e ladrões que os treinaram: os Lamarcas e Marighelas, os verdadeiros causadores dos “anos de chumbo”, hoje incensados como mitos heróicos, louvados e merecedores de polpudas indenizações e até cargos no Governo Federal e nos Estaduais.

   5- Last but not least tenta-se aprovar uma lei de desarmamento das pessoas de bem – é, existem, sim, não é maniqueísmo – dando o monopólio das armas aos bandidos, por mais que todas as pesquisas indiquem que a grande maioria dos brasileiros é contra. Que importância tem a opinião da maioria se as ONGs querem? Por mais que se demonstre que o desarmamento civil na Inglaterra só resultou no aumento da criminalidade e na necessidade da polícia se armar, como várias entidades, principalmente a APADDI (Associação Paulista de Defesa dos Direitos Individuais), tem cansado de divulgar.

   Certamente nosso 30 de setembro não se compara ao 11 de setembro dos nova-iorquinos em perdas humana. Mas lá o desespero levou a um incremento do moral de um povo covardemente atingido – apesar das tentativas de mea culpa dos Chomskys e Sontags de sempre. Aqui, o dano moral foi infinitamente maior. A apatia, as piadas sem graça – Beira Mar para Presidente – ameaçam perdermos de vez toda confiança que restava num futuro melhor. Este sim foi um dia de chumbo, prenunciando verdadeiros anos de chumbo, se estas tendências não forem revertidas.

 

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