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Zero Hora de 05 e 20/07/02

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Cenas típicas da violência do Rio se incorporam ao cotidiano gaúcho
A chacina de um casal e de uma criança em disputa por ponto de drogas em Porto Alegre fez guarnições ocuparem o Morro da Polícia, rendendo imagens semelhantes às que mancham de sangue o cotidiano de favelas cariocas

HUMBERTO TREZZI

Os padrões de guerra urbana das grandes cidades brasileiras começam a ganhar espaço na Grande Porto Alegre.  
      
 Foto Mauro Vieira/ZH
Neste ano, moradores da Região Metropolitana vivenciaram cenas ao pior estilo carioca de criminalidade. Entre elas, a incineração de criminosos por seus parceiros (em Alvorada), chacinas com morte de crianças (em Porto Alegre), toque de recolher em vilas dominadas pelo narcotráfico e moradores submetidos a cerco e a triagem policial.

        A semana começou e terminou com operações diárias de agentes civis e militares no Morro da Polícia, numa caçada aos autores de uma chacina que não pouparam uma criança de 11 anos. De beco em beco, pulando esgotos e saltando cercas, policiais com o dedo no gatilho de escopetas percorreram o outrora tranqüilo morro, nos últimos tempos palco de selvagens acertos de contas entre gangues de narcotraficantes. Nem as blitze policiais impediram novos tiroteios. Moradores tentaram linchar um suspeito da chacina, importando outro modelo carioca: o justiçamento.

        São fenômenos que têm se incorporado ao cotidiano gaúcho. Nos últimos três anos, combates de rua entre criminosos da periferia forçaram a polícia a realizar ações nas vilas Cruzeiro e Maria Degolada (Zona Sul), Vila Jardim (Zona Leste) e no bairro Rubem Berta (Zona Norte). Nesses locais, criminosos submetiam moradores a um Estado de Sítio: a população só circulava em horários considerados seguros. Mesmo assim, crianças foram alvos de balas perdidas.

        Algumas das batalhas são travadas com armas de última geração. Em dois anos, policiais gaúchos apreenderam pelo menos seis fuzis e duas metralhadoras na Grande Porto Alegre. O fuzil pode furar paredes de tijolo e coletes à prova de balas. E tão letal que os policiais gaúchos estão proibidos de usá-lo.

        Felizmente para os gaúchos, são esporádicas no Estado desgraças consagradas no centro do país. Chacinas, embora crescentes, são raras no Rio Grande do Sul. A taxa de homicídios registrada em 2001 em Porto Alegre, 18 para cada 100 mil habitantes, é metade da registrada no Rio (35) e ínfima se comparada aos 49 por 100 mil moradores de São Paulo.

        Alguns indicadores colocam Porto Alegre num patamar pior. A taxa de latrocínios é 2,6 por 100 mil habitantes/ano, maior do que a registrada no Rio, que é de 1,7 por 100 mil. A taxa de roubos em Porto Alegre é 1.437 por 100 mil habitantes, contra 673 por 100 mil entre os cariocas.

        Os gaúchos levam vantagem com relação a outras capitais no quesito investigação. A maioria dos homicídios e cerca de metade dos casos de roubos de carros são resolvidos em Porto Alegre, incluindo a devolução dos veículos. Em locais como o Rio, a solução desses crimes varia entre 10% e 20% dos casos.

        O sociólogo Túlio Kahn diz que homicídios estão relacionados à pobreza e desigualdade social. Já os roubos crescem em regiões com maior padrão de vida. Isso explicaria a contradição em Porto Alegre. Kahn não estranha que cresçam no Estado chacinas e cenas de crueldade como as do Rio:

        – Criminosos copiam padrões e modus operandi. É o efeito contágio, que popularizou seqüestros e chacinas.

        O sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-consultor de segurança da prefeitura de Porto Alegre e hoje no governo do Rio, diz identificar na capital gaúcha um padrão de criminalidade semelhante ao carioca.

        – Embora a violência gaúcha esteja numa escala inferior, a fixação territorial do tráfico é semelhante. E a tendência é que cresçam a crueldade e a morte de inocentes nos acertos de contas, como no Rio.

SAIBA MAIS

Crimes

Porto Alegre

Rio

homicídios

18/100 mil

35/100 mil

latrocínio

2,6/100 mil

1,7/100 mil

roubos

1.437/100 mil

673/100 mil

lesões

1.478/100 mil

650/100 mil

furtos veículos

497/100 mil

198/100 mil

roubos veículos

220/100 mil

326/100 mil

Fonte: Ministério da Justiça

RS é rota de armas de traficantes do Rio
Polícia tenta aumentar fiscalização nas fronteiras

CARLOS WAGNER

        Uma das batalhas da guerra entre traficantes e policiais pelo domínio do Rio está sendo travada nos 1.003 quilômetros da fronteira gaúcha com o Uruguai.  

        A região, de campos rasgados por estradinhas despoliciadas, é uma das portas de entrada de armas e de munição. A mais recente evidência de que o Estado é rota de armamentos para o Sudeste é o caso do ataque à prefeitura do Rio, ocorrido na segunda-feira da semana passada.

        Das 132 cápsulas deflagradas contra o prédio, seis eram do tipo Wolf, calibre 7.62 com 39 milímetros de comprimento, fabricadas nos Estados Unidos, raras no Rio e compatíveis com cerca de cinco fuzis, dos quais o AK-47 é o mais comum na cidade. A munição levou a polícia a desconfiar do envolvimento do traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, no atentado.  

        A quadrilha de Uê já havia utilizado munição desse tipo em um ataque a uma delegacia. De acordo com as investigações da Polícia Civil, a munição fabricada pela Wolf sai dos Estados Unidos por uma rota de contrabando que passa pela África e Argentina até chegar ao Brasil, segue pelo Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso até o Rio.  

        O contrabando de armas nas fronteiras brasileiras é feito por inúmeras quadrilhas. A maior delas, segundo investigações da Polícia Federal (PF), tem ramificações por vários Estados e é conhecida como Máfia Libanesa (embora não tenha nada a ver com a comunidade libanesa).  

        Os mafiosos estão postados em pontos estratégicos nas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia (em Corumbá e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul), Paraguai e Argentina (em Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná), e com o Uruguai (no Chuí e em Santana do Livramento).  

        Parte das armas é trocada por drogas no mercado internacional, dominado pelo ex-agente da CIA (a agência de inteligência norte-americana) Sergis Soganelian. De origem armênia, ele está preso nos Estados Unidos enquanto seus negócios são tocados pelo filho, Garaiebe.  

        O Rio Grande do Sul serve de passagem para as armas que protegem os traficantes nos morros do Rio. Elas chegam no porto de Montevidéu, no Uruguai, e ingressam no Brasil pelo Sul. Seguem rumo ao Paraguai, à Bolívia e à Colômbia, de onde são distribuídas para traficantes cariocas e outros grupos criminosos na América do Sul – entre eles, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que têm ligações com Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.  

        Preso na Penitenciária de Segurança Máxima de Bangu 1, no Rio, o traficante ainda comanda o tráfico de drogas e de armas.  

        Outro receptador de armas que usa o Estado com passagem é a família do fazendeiro gaúcho Erineu Domingos Soligo, o Pingo, estabelecido em Aral Moreira, ao norte de Capitán Bado, município paraguaio dominado por Beira-Mar e maior fornecedor de maconha para o Brasil.  

        Segundo explicou um policial federal, a passagem de armas pelo território gaúcho se intensificou nos últimos tempos devido ao aumento da vigilância nas entradas tradicionais de armas e munição no país – as cidades paranaenses e do Mato Grosso do Sul, as fronteiras paraguaia e boliviana, e a Baía da Guanabara, para onde são trazidas de navios, alguns dos quais depois de uma passagem pelo porto de Montevidéu. As ações das autoridades contra os contrabandistas de armas nas fronteiras gaúchas já estão ocorrendo, apesar de invisíveis.  

        – Porque são de inteligência (rastreamento de quadrilheiros por meio da movimentação de contas bancárias de suspeitos e de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça) – explicou uma fonte da força-tarefa que combate o crime organizado no Rio, sob coordenação do Ministério da Justiça.  

        Sufocar a entrada ilegal de armas no Rio é fundamental, atesta a inspetora Marina Magessi, chefe da operações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Civil do Rio.  

        – A figura do comerciante de armas transita na sombra do conflito entre policiais e traficantes. Não lembro de ter visto um deles preso. Acabar com eles seria a mesma coisa que quebrar as pernas do tráfico – diz Marina.

 

 

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