Brasil

  Rio Grande do Sul

Zero Hora de 31/03/02

 Menu

 Página inicial
 Quem sou
 Trabalhos
 Artigos
 Notícias
 Assuntos 
da semana
 Livros 
 Cartas e Respostas
 Charges

 Contato para pales-
tras e assessorias

 Links 
Recomendados 
Outros
 E-mail
 Enquetes anteriores


 

OS RASTROS DO CARTEL DE CALI NO
SUL DO BRASIL

Balneário Camboriú (foto), Gramado e outras cidades do Sul foram escolhidas pelo
colombiano Joaquim Hernando Jimenez (E) para lavar mais de R$ 100 milhões
do narcotráfico (Arte sobre foto de Paulo Franken/ZH)

Os negócios do Cartel de Cali no Sul
Colombiano é investigado por tentar legalizar R$ 103 milhões no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina

HUMBERTO TREZZI

O elo: preso em Perequê (SC), Jimenez (C) foi transferido para o Estado, onde manteve contatos para a compra de imóveis (foto Tamires Kopp, Banco de Dados/ZH – 1/03/2002)

        Procuradores gaúchos chegaram a uma surpreendente conclusão: a maior organização de narcotraficantes do planeta escolheu o sul do Brasil para legalizar R$ 103 milhões.

        Os investigadores rastrearam movimentações financeiras do colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez, apontado pela CPI do Narcotráfico como o elo brasileiro do Cartel de Cali.

        Documentos apreendidos com Jimenez indicam que, em um ano de peregrinações pelo Rio Grande do Sul e por Santa Catarina, negociou a compra de nove imóveis e fez milionárias aplicações financeiras. As transações foram abortadas com sua prisão, em fevereiro, na praia de Perequê (SC).

        Zero Hora refez os passos de Jimenez e constatou que o colombiano firmou, desde abril passado, contratos para a compra de imóveis avaliados em R$ 10 milhões.

        Estavam na mira de Jimenez um hotel em Gramado, uma casa no balneário de Atlântida, uma mansão na zona sul de Porto Alegre, cinco apartamentos e um andar de salas comerciais em Balneário Camboriú (SC) e uma área para construção de um porto privado em Itajaí (SC).

        Documentos com a Promotoria Especializada Criminal gaúcha apontam para movimentações de US$ 39 milhões (R$ 92,2 milhões) de Jimenez com bancos do Panamá, da Venezuela e dos EUA. O Ministério Público estuda a formalização de um pedido a essas instituições financeiras para que enviem cópias das conversas com o colombiano (os bancos norte-americanos costumam gravar os diálogos telefônicos com clientes) e das transferências feitas por ele. Só assim será possível identificar se Jimenez realizou as transações ou se não passa de um estelionatário com delírios de grandeza.

        Em 1999, Jimenez ganhou os noticiários. Preso em Fortaleza depois de acertar a compra de apartamentos por US$ 1 milhão e não pagar, ele disse que era ligado ao Cartel de Cali e se dispôs a colaborar com a CPI do Narcotráfico.

Remessa de dinheiro em bacalhaus

        Em depoimento que durou mais de 10 horas, Joaquim Hernando Castilla Jimenez informou a CPI do Narcotráfico de que o Cartel de Cali teria investido US$ 720 milhões no Brasil entre 1993 e 1999.

        O dinheiro, segudo ele, ingressou no país, em sua maior parte, por bancos. Parte dos dólares, porém, chegava em carregamentos de bacalhau provenientes da Europa e importados por empresas do Nordeste.

        O dinheiro remetido por banco seguia do Citibank norte-americano para seis bancos brasileiros, onde bancários teriam ajudado a legalizar os valores, abrindo contas em nomes de laranjas. Cobravam entre 3% e 5%. Nem a advogada de Jimenez à época, Patrícia Fontenelle, se atreveu a negar que o cliente era ligado ao Cartel de Cali.

        – Ele faz parte do cartel. E, se levarmos em conta a quantidade de detalhes e a riqueza de depoimentos, é peixe grande – disse Patrícia ao jornal O Povo (CE).

        Jimenez informou que o cartel investia na compra de imóveis em seis Estados, relacionou nomes de doleiros que teriam lavado dinheiro do narcotráfico colombiano no Brasil e acusou juízes aposentados de Goiás de importações fraudulentas. Chegou a ser acareado com um dos magistrados e repetiu que ele trabalhava para o Cartel de Cali.

        As revelações resultaram na abertura de inquéritos por lavagem de dinheiro no Ceará, em Goiás, no Amazonas, em São Paulo e, agora, no Rio Grande do Sul. Procuradores gaúchos pediram a colegas uma investigação em Santa Catarina.

        Foragido e usando a identidade de Raul Castro, procurou em 2001 o criminalista gaúcho Joel Paladino para fazer sua defesa em um processo. Ofereceu R$ 200 mil por uma casa de Paladino em Atlântida, mas sumiu antes de concretizar o negócio e sem pagar os honorários.

        Ao ser preso no mês passado e interrogado sobre os milhões em investimentos que tentava fazer no Sul, disse aos promotores que são resultado de “anos de economia”.

O colombiano de 49 faces

        Quarenta e nove carteiras de identidade. Foi isso que mais chamou a atenção dos agentes federais que prenderam Joaquim Jimenez em Fortaleza em outubro de 1999.

        O colombiano carregava dólares sem justificativa e acertara a compra de um apartamento por US$ 1 milhão – à vista e em dinheiro –, detalhe que levou o dono a avisar a Polícia Federal.

        O rosto de Jimenez em 49 documentos de diferentes países bastou para que fosse preso e condenado por falsificação ideológica. Nascido em Barranquilla, já esteve preso em 1998 no Rio Grande do Norte, onde usava identidades de três países. Carregava um levantamento de pistas de pouso no Nordeste, que a PF deduz serem destinadas ao narcotráfico.

        Jimenez sumiu enquanto aguardava julgamento e foi preso depois no Ceará, pelo mesmo motivo. Cumpriu pena em uma prisão cearense e estava em regime semi-aberto quando sumiu da prisão, em dezembro de 2000. Só reapareceu com sua verdadeira identidade no final de fevereiro, na praia de Perequê (SC), ao ser preso pelo delegado federal gaúcho Sandro Caron.

        A dica para a prisão foi repassada pela Promotoria de Justiça Especializada Criminal gaúcha, que investigava o sócio e amigo do colombiano, José Carlos de Aguiar, com prisão preventiva decretada por lesar clientes da revenda da Peugeot em Caxias do Sul.

        Ao ser preso e denunciado pelo Ministério Público, Aguiar afirmou que Jimenez o contratou, por R$ 10 mil mensais, para assessorar negócios imobiliários e financeiros internacionais – o poliglota Aguiar é economista. O seu sócio na revenda, Lúcio Winck, também foi preso e denunciado, dias depois, por estelionato. Ambos dizem desconhecer relações de Jimenez com o narcotráfico. Ao ser detido, Jimenez portava uma pistola calibre 380 com silenciador. Não resistiu, pois, segundo atestam os que o conhecem, detesta tiros.

        É freguês da Polícia Federal desde 1997, quando foi preso acusado de tentar subornar um delegado da corporação. As autoridades cearenses investigam se ele usou de suborno para fugir da prisão em 2000, para onde retornou agora.

Nos planos, hotel de US$ 1,2 milhão
Sob nome falso, Jimenez pretendia investir no Rio Grande do Sul

        Uma vista espetacular do Vale do Quilombo, tucanos voejando por entre os pinheiros, veados pastando no fundo da propriedade e muita mata nativa transformaram o Hotel e Recreio do Chá numa referência aprazível de Gramado.

        Pois o colombiano Joaquim Castilla Jimenez também sucumbiu aos encantos do hotel, sua piscina e suas 10 confortáveis cabanas. Tanto que ofereceu US$ 1,2 milhão (R$ 2,8 milhões) pela propriedade de três hectares, situada às margens da rodovia que liga Gramado a Canela, nos altos da serra gaúcha. A oferta foi no verão passado.

        – Foi amor à primeira vista. O colombiano viu o hotel e me ofereceu aquele dinheiro no primeiro dia de contatos – recorda Érico Reiman, um dos donos do Recreio do Chá.

        Como de costume, Jimenez se apresentou com o nome de Raul Castro – a diferença é que, em vez da identidade argentina, deu sua verdadeira nacionalidade, colombiana. Foi a Gramado conduzido por um corretor da praia de Mariluz, onde estava adquirindo uma casa por R$ 200 mil.

        Castro impôs uma condição a Reiman: fazer todo o negócio sem que seu nome aparecesse e sem perguntas sobre a origem do dinheiro. Deu telefonemas para um banco de Nova York, usando o telefone do hotel. Falava em usar as cabanas para transformar a propriedade em motel, com ampliação das piscinas e reformas.

        Os irmãos de Reiman sugeriram que ele não pressionasse o empresário para fechar logo o negócio. Mas o dono do hotel insistia em ver a cor do dinheiro. No dia da assinatura do contrato, o colombiano não apresentou os dólares. Disse que esperava a liberação de um banco uruguaio.

        Reiman levou uma ducha de água fria no ânimo. Desistiu na hora, mesmo ante a insistência do colombiano.

        – Pelo número de contatos com bancos, acho que ele realmente tinha o dinheiro. Algo na operação bancária falhou, e ele teve de desistir – pondera Reiman.

Colombiano tentou montar terminal em porto
Joaquim Jimenez pretendia adquirir área às margens do Rio Itajaí-Açu, em Santa Catarina

        Um terminal de contêineres às margens do Rio Itajaí-Açu era o maior projeto de Joaquim Jimenez em território catarinense. Além desse empreendimento em Itajaí, ele firmou contratos para a compra de cinco apartamentos de luxo (cada um deles ocupando um andar) e um andar inteiro de salas comerciais, ambos junto ao mar, na badalada cidade de Balneário Camboriú.

        Todos os negócios foram suspensos com a prisão de Jimenez.

        Quando foi detido pela Polícia Federal, em 28 de fevereiro, ele passava o dia numa pousada em Perequê (praia de Porto Belo), mas residia havia cinco meses no Tower Beach, um edifício com piscina situado no coração da Avenida Atlântica, a principal de Balneário Camboriú. Pagava US$ 1,3 mil (R$ 3 mil) para ocupar o apartamento 1301, com três quartos e uma esplêndida vista frontal para o mar. Bastava atravessar a rua para pisar na praia.

        Passando-se pelo bem-sucedido empresário argentino Raul Ignácio Castro, Jimenez circulou nas altas rodas catarinenses, freqüentou bingos e acertou empreendimentos de vulto. O maior deles era a construção de um terminal portuário em Itajaí, às margens do rio que corta a cidade. A área é formada por terrenos baldios valorizados.

        Um dos donos da área é o empresário Artenir Werner, diretor da transportadora Dalçóquio (que lida com cargas perigosas) e que chegou a hospedar em casa o homem a quem conheceu como Raul Castro. Dizendo-se representante da multinacional Davenport SA, Jimenez acertou dois negócios com Werner: a aquisição dos terrenos para montagem de uma empresa de importação e exportação e a compra de uma área junto ao mar, no balneário de Governador Celso Ramos.

        Castro chegou a depositar dois cheques do Citicorp/Citibank de Nova York em favor de Werner, totalizando US$ 2,1 milhões (R$ 4,9 milhões), mas o valor nunca foi compensado. Conforme Werner, o colombiano alegou que seu advogado queria mais documentos sobre os terrenos. Quando o negócio estava por ser fechado, Jimenez foi preso.

        Informado de que o colombiano prestou depoimentos descrevendo operações de introdução de dólares clandestinos dentro de peixes, feitas pelo Cartel de Cali no nordeste brasileiro, Werner levou um susto.

        – Já imaginou do que me livrei? Será que ele queria construir o porto nos nossos terrenos para fazer uma coisa dessas? – cogitou o empresário, em entrevista a Zero Hora.

        Na vizinha cidade de Balneário Camboriú, Jimenez firmou, entre outros, um contrato para a compra de cinco apartamentos no edifício Arthur Fischer, situado na Avenida Atlântica e em fase de acabamento, avaliados individualmente em R$ 650 mil. Cada apartamento tem 370 metros quadrados de área e ocupa um andar, com quatro suítes, churrasqueira, três vagas na garagem e direito a sauna e piscina no prédio. Tudo de frente para o mar.

        Jimenez acertou também a aquisição do 11º andar inteiro, com quatro salas comerciais, no Camboriú Business Center, situado a um quarteirão da Avenida Atlântica. Pelas quatro salas, pagaria R$ 400 mil.

        Zero Hora tentou obter informações sobre o negócio com a Procave, empresa proprietária do edifício Arthur Fischer e do Camboriú Business Center. O diretor, Nivaldo Pinheiro, não deu retorno aos pedidos de entrevista.

CONTRAPONTO

O que diz Valmir Pinheiro, advogado de Joaquim Jimenez:

“Estou sabendo pela imprensa da apreensão destes documentos no apartamento ocupado pelo meu cliente. Não vi os contratos e, por isso, não tenho condições de comentar sobre as propriedades adquiridas. Aliás, não sei como estes documentos foram apreendidos, já que o mandado judicial contra o Jimenez era para prendê-lo – ele estava foragido da Justiça – e não de busca e apreensão de documentos. Que eu saiba, não existia ordem específica para pegar documentos, e a ação pode ter sido ilegal. Quanto ao Cartel de Cali, eu não era advogado do Jimenez na época em que ele depôs na CPI, falando sobre as ligações do cartel no Brasil. Portanto, nada tenho a dizer sobre isso. Nem ele, no momento.”

Noitadas de bingo e uísque escocês

        Raul Castro – ou melhor, Joaquim Jimenez – manteve uma rotina de boêmio nos quatro meses em que viveu em Caxias do Sul, na serra gaúcha.

        Dormia durante o dia e varava as noites em boates e bingos da moda. O quartel-general de Jimenez era um apartamento alugado no Bergman Hotel, um quatro estrelas do centro da cidade.

        Ao se hospedar, apresentou-se como Raul Castro, advogado argentino, usando documentos daquela nacionalidade. Ele pagava R$ 1,5 mil mensais, debitados no cartão de crédito do amigo José Carlos Aguiar, dono de uma revenda de carros na cidade, que o apresentou como sócio. O que não deixa de ser verdade: os dois acabaram presos juntos, acusados de estelionato, quando veraneavam em Santa Catarina.

        No hotel caxiense, as contas foram pagas rigorosamente em dia, com exceção do último mês de estadia de Jimenez, setembro de 2001, quando ele pendurou um débito de R$ 3,5 mil e sumiu da cidade. A dívida acabou saldada, em jóias, por uma pessoa ligada a Aguiar.

        Jimenez estava sempre acompanhado de uma cearense, apresentando-a como sua mulher. O casal saía por volta das 20h, circulava por bingos – o colombiano dizia estar interessado em comprar um estabelecimento, mas ganhou fama como viciado nas máquinas – ou em danceterias. Por vezes, cozinhavam no apartamento.

        O falso argentino bebia bem: o scotch Chivas Regal 12 anos. Em média, uma garrafa por noite, recordam pessoas que o conheceram. O casal andava sempre sorridente, alinhado e com carro do ano. Foi só na manhã de 1º de março deste ano que Caxias descobriu a outra face do emergente empresário Raul Castro, ao vê-lo algemado, estampado na capa dos jornais.

 

 

adicione o Polícia e Segurança aos favoritos.

Clique aqui para assinar o Livro de visitas
Clique aqui para ler o Livro de visitas.
As idéias e opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores.
 

Web designer: Otálio Afonso