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DESARMAMENTO: ABRINDO UMA CAIXA PRETA

por Peter Hof - 25 de maio de 2005 - Publicado no MSM 

Resumo: Uma detalhada observação sobre a violência demonstra como os defensores do desarmamento mentem descaradamente sobre o assunto, e ainda pretendem jogar fora centenas de milhões de reais que poderiam ser empregados na segurança pública. © 2005 MidiaSemMascara.org 

Então não seremos mais como crianças, arrastados pelas ondas e empurrados por qualquer vento de ensinamentos de pessoas falsas.

Essas pessoas inventam mentiras e, por meio delas, levam outros para caminhos errados.

Efésios, 4,14

 

- A Campanha do Desarmamento não tem o objetivo de reduzir a criminalidade, mas mostrar ao cidadão de bem de que ter uma arma em casa representa um risco para si mesmo e para a família – Antonio Rangel Pestana, Diretor da ONG Viva Rio em O Globo, 27/2/05, pág. 16.

- A Campanha do Desarmamento tem por objetivo tirar armas das pessoas de bem e evitar maiores tragédias, como brigas no trânsito e nos estádios – Marcio Thomaz Bastos, Ministro da Justiça em O Globo, 10/12/04, pág. 10.

- A proibição da venda de armas e munição para civis tem como principal objetivo reduzir as mortes provocadas por crimes fúteis. – Ilimar Franco, jornalista em O Globo, 08/03/05.

- Por isso, o principal reflexo (do Estatuto do Desarmamento) é na redução da violência passional, relacional, e no número de acidentes com armas – Rubem César Fernandes, O Coerente, Diretor da ONG Viva Rio em O Globo, 23/02/05.

- A campanha visa a desarmar o cidadão comum, retirar de circulação aquela arma guardada descuidadamente e que costuma ser a causa de tragédias em famílias, em simples desavenças no trânsito ou entre vizinhos – Editorial de O Globo, 15/11/04.

- O objetivo (da Campanha do Desarmamento) é acabar com as mortes em brigas banais de vizinhos, acidentes domésticos, rixas de família, discussões no trânsito, etc. Que não são poucas. - Editorial de O Globo, 24/02/05, pág. 13.

- Isolada, a campanha não resolve o problema da violência, mas é uma das medidas que ajudam a diminuí-la, principalmente crimes bobos, cometidos em estádios de futebol, em brigas de casal ou de crianças que encontram armas em casa – Marcio Thomaz Bastos, Ministro da Justiça em O Globo, 15/02/05, pág. 8.

- A campanha (do desarmamento) está atingindo o objetivo ao retirar armas da classe média.- Rubem César Fernandes, O Coerente, em O Globo, 10/10/04, pág.16.

- Ainda com alento, lembremos aos de boa-fé que continua óbvio o que era evidente no começo da campanha: com armas de fogo por perto, brigas de amantes, parentes ou amigos sempre terão mais chances de terminar em tiros – inclusive nas crises românticas entre adolescentes. Acontece todos os dias. - Luiz Garcia, jornalista em O Globo, 30/04/05, pág. 7.

Num período de seis meses, o leitor do jornal O Globo leu as afirmativas acima, todas feitas por profundos conhecedores do problema da violência e da ameaça que as armas de fogo representam. Quem disse essas frases foram cientistas sociais, advogados, um Ministro da Justiça e jornalistas.

Fundamentado nestas afirmações, eu e qualquer leitor de O Globo pode traçar o perfil do cruel assassino que tem desgraçado este país: ele é um profissional liberal ou comerciante, com no mínimo o curso secundário completo, de classe média, sem histórico de envolvimento em crimes, um destemperado que mata por motivos fúteis no trânsito, em estádios, brigas de casal, brigas com vizinhos, violência passional. Além disso, é um descuidado que deixa sua arma ao alcance dos filhos, causando incontáveis tragédias.

Chamou-me a atenção o fato de que o mesmo jornal, que publicava as opiniões que abrem este artigo fornecia, diariamente, um perfil diametralmente oposto ao das pessoas envolvidas nos eventos citados. Em outras palavras: o que os experts proclamavam não condizia com a realidade.

Talvez como reflexo dos quase dez anos que passei como gerente de pesquisa de mercado e de um sólido embasamento estatístico, uma outra ocorrência chamou-me igualmente a atenção: falava-se muito em fatos, mas nunca ninguém apresentava dados ou números que corroborassem suas assertivas. O Globo, por exemplo, em um editorial de 24/02/05, pág. 13, afirmava, da forma mais vaga possível, “que não são poucas” (as mortes por motivos fúteis).

Nos últimos 20 meses, quando resolvi colecionar recortes sobre o assunto, o número de mortes atribuídas ao assassino de classe média parecia o segredo da fórmula da Coca-Cola: todo mundo sabe que existe, é citado por muitas pessoas mas só uns poucos têm acesso. Depois de escrever para jornais, ONGs, autoridades e membros do Congresso Nacional, sem jamais receber resposta, concluí que a melhor maneira de colaborar para o fim de tão intrigante mistério seria recorrer às minhas pastas de recortes e levantar quantas mortes poderiam ser atribuídas ao perfil do assassino que desenhei fundamentado na opinião dos experts.

Para minha surpresa, com base apenas no jornal O Globo, num período de seis meses, para cada morte por um cidadão classe média havia 26 outras causadas por marginais. Ou seja, todo o espalhafato, todo o dinheiro gasto pelo governo tinha como alvo 3,7% do total de mortes por armas de fogo! Em números absolutos e usando-se 36.000 mortes por ano estávamos falando de 1.333 mortos/ano. Sem querer negar que são seres humanos que tiveram suas vidas ceifadas, este é o número de pessoas que morrem em acidentes de trânsito num período de apenas 14 dias.

Como este experimento mostrou-se promissor, resolvi aperfeiçoá-lo. Primeiro, passei a usar o jornal O Dia, no lugar de O Globo. A razão é que O Dia é um jornal mais popular, menos elitista do que O Globo e que dá mais ênfase a crimes cometidos na sua área de cobertura. O passo seguinte foi criar uma planilha onde as mortes seriam classificadas segundo seus sub-segmentos (vide quadro abaixo). Também é registrado o dia em que a morte ocorreu e a página do jornal em que ela foi noticiada. Este material é arquivado, em ordem cronológica, separadamente das pastas gerais de recortes sobre o assunto Desarmamento.

O período de observação será de seis meses tendo começado em 23/03/2005. A área de cobertura será a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, conforme definida na Lei Complementar Nº 87, de 16 de dezembro de 1997.

O que vou mostrar aqui é o resultado parcial referente aos dois primeiros meses de observação:

1) Este estudo, embora não tão completo quanto eu desejaria que fosse, é uma vela acesa na escuridão que paira sobre o assunto. Nunca antes o Governo, que dispõe de grandes equipes e ilimitados recursos, nem ONGs, que recebem farta ajuda tanto do Brasil como de governos estrangeiros, fizeram algum esforço para mostrar algo semelhante;

2) O método empregado para a coleta de dados foi o clipping, uma técnica amplamente aceita e que é compilar informações impressas sobre um determinado assunto. A Folha de São Paulo, do dia 24/4/05, pág. E3, publica uma pesquisa usando a técnica de clipping para avaliar a cobertura do julgamento do cantor Michael Jackson, comparando a cobertura do New York Times e das revistas Time e People com base em espaços dedicados ao assunto por aqueles órgãos da imprensa americana.

3) Ficarei extremamente feliz caso alguém se disponha a apresentar tal pesquisa com um maior rigor estatístico.

4) Desde já, convido os leitores do MÍDIA SEM MÁSCARA a realizar tal tipo de pesquisa em suas cidades. Quem quiser usar as planilhas que desenvolvi para este estudo pode solicitá-las ao site que eu as enviarei prontamente.

Sobre as tabelas abaixo algumas notas explicativas se fazem necessárias:

1) Uma semana após o início da coleta dos dados houve a terrível chacina da Baixada Fluminense. Como se trata de um fato isolado (pelo menos todos nós esperamos), sua inclusão poderia deformar os resultados já que as 29 mortes em um dia certamente se enquadravam fora dos três Desvios Padrão à esquerda ou à direita em uma Distribuição Normal. Toda a análise e conclusões aqui apresentadas baseiam-se na tabela que exclui a chacina.

2) A tabela está dividida em dois sub-grupos:

Sub-grupo 1: Mortes não evitáveis pelo Estatuto do Desarmamento: são aquelas resultantes de confrontos entre policiais e bandidos, assaltos, invasões de domicílio praticadas por delinqüentes, guerra entre quadrilhas rivais. Bala perdida - A: aqui só foram computados eventos em que testemunhas apontaram o atirador ou a análise do projétil indicou que foram originados de armas de calibre de uso restrito. Razão Não-identificada: quando a vítima tenha sido morta por arma de fogo, mas não se identificou o motivo. Este tipo de morte é muito comum em regiões periféricas e pode ser atribuído aos ‘esquadrões da morte’ que atuam nestas áreas. Portadores Legais: foi a forma como denominei pessoas autorizadas a portar armas e que cometem um crime. É o exemplo do policial que matou a mulher e cometeu suicídio. Ele legalmente tinha direito a portar arma, assim o Estatuto do Desarmamento não teve nenhuma influência em prevenir ou evitar sua ocorrência.

Sub-grupo 2 - Mortes evitáveis pelo Estatuto do Desarmamento: Este é o grupo que vem sendo acusado por autoridades e ONGs como os grandes causadores de tragédias relacionadas a armas de fogo. Brigas em bares/festas. Aqui só são computadas brigas que tiveram origem durante, dentro ou nas cercanias de um bar ou festa. Em outras palavras, se alguém foi morto por indivíduos que vieram de fora e cometeram o crime sem discussão prévia ou motivo aparente, trata-se de uma execução.

2-C) -Nessa fase do estudo não será computada a morte da professora Ana Cláudia do Carmo (O Dia, 19/04/05, pág. 13). A razão da exclusão é a opinião divergente entre a polícia, que suspeita de crime passional e o testemunho de três amigas próximas da vítima que afirmam que ela teria sido assassinada por engano. Tão logo haja uma opinião definitiva sobre o motivo da morte ela será computada na tabela do primeiro mês de observação.

O que se verá nesse artigo é o resultado dos primeiros dois meses, de um total de seis meses de observação. Acredito que nesse período será possível obter dados menos sujeitos aos efeitos da sazonalidade e da estacionalidade, embora o verão, período não coberto neste trabalho, seja sempre a época de maior incidência de crimes.

 

MORTES POR ARMAS DE FOGO 

A - Não evitáveis pelo Estatuto

Policiais mortos

17

7.9%

Bandidos mortos

83

38.4%

Bala perdida - A

10

4.6%

Assalto

31

14.4%

Razão não Identificada

28

13.0%

Invasão de Domicílio

8

3.7%

Por portadores legais

7

3.2%

Execução

23

10.6%

Chacina

0

0.0%

Sub-total A

207

95.8%

        

               

B – Evitáveis pelo Estatuto

Brigas no trânsito

0

0,0%

Brigas em Bares / Festas

2

0,9%

Brigas em família

1

0,5%

Crime Conjugal / Passional

2

0,9%

Bala perdida – B

1

0,5%

Encomendado

0

0,0%

Suicídio

1

0,5%

Outros

2

0,9%

Sub-total B

9

4,2%

 TOTAL GERAL

216

100,0%

 Relação B/A :    1/24

 

Para facilitar a visualização apresento uma segunda tabela, na qual os diversos tipos de óbitos são mostrados por ordem decrescente de ocorrência:

 

RANKING POR TIPO DE EVENTO

 

Evento

Quant.

%

1

Bandidos mortos

83

38.4%

2

Assalto

31

14.4%

3

Razão não Identificada

28

13.0%

4

Execução

23

10.6%

5

Policiais mortos

17

7.9%

6

Bala perdida - A

10

4.6%

7

Invasão de Domicílio

8

3.7%

8

SRED - Por portadores legais

7

3.2%

9

Brigas em Bares / Festas

2

0.9%

10

Crime Conjugal / Passional

2

0.9%

11

Outros

2

0.9%

12

Bala perdida - B

1

0.5%

13

Brigas em Família

1

0.5%

14

Suicídio

1

0.5%

15

Brigas no Trânsito

0

0.0%

16

Encomendado

0

0.0%

 

T  O  T  A  L

216

100.0%

 

Embora seja prematuro tirar conclusões definitivas, alguns eventos, dado a sua predominância, já começam a ficar bastante claros e tudo indica que irão se solidificar quando da última compilação dos dados.

Se o leitor voltar ao começo desse artigo e ler as opiniões emitidas sobre o problema de armas em mãos erradas vai chegar de imediato às seguintes conclusões:

A) Os itens de 1 a 8, são eventos que representam 95.8% das mortes no período: não podem ser evitados pelo Estatuto do Desarmamento. Esses eventos continuarão a ocorrer, talvez até com mais intensidade, pois suas causas são bastante conhecidas e não têm sido combatidas com a seriedade e o rigor que o caso exige.

B) O perfil dos mortos indica que o assassino da classe média é um mito inventado com o pretexto de, por motivos obscuros, recolher armas desse estrato social.

C) A classe média entra sim, mas como vítima das ações de marginais e não como o propalado algoz. Assaltos na rua ou a veículos, e Invasão de Domicílio representam 18,1% dos eventos (e aí estão as vítimas de classe média). Se acrescentarmos a metade das execuções, chega-se à alarmante conclusão de que uma em cada quatro vítimas é um cidadão de classe média.

D) Houve, sim, nesse período, uma das maiores tragédias a que se refere o Ministro da Justiça, (vide acima). Só que esta não foi, ainda segundo ele, resultado de brigas no trânsito e nos estádios. Os vinte e nove assassinatos não ocorreram em estádios nem no trânsito, nem foram causadas por um suposto assassino da classe média. Foram cometidos por aqueles que deveriam estar zelando por nossa segurança. Uma segurança que o Estado, que deveria prover, não o faz, e num ato de extremo desrespeito pelo cidadão nega a ele o direito de se auto-defender.

E) Peço ao leitor que releia a última citação – a do jornalista Luiz Garcia – transcrita no começo deste artigo. Lá o jornalista, supostamente um profundo conhecedor do problema da violência, cita vários tipos de homicídio e afirma que Acontecem todos os dias. Como se explica então que hoje, decorridos 60 dias do início da coleta de dados, apenas seis, repito, seis, dos casos citados pelo jornalista ocorreram? E estamos nos referindo à cidade do Rio de Janeiro e à Baixada Fluminense, uma das regiões mais violentas do Brasil e uma área que abriga 7.7% dos 183 milhões de brasileiros. Para tão baixa ocorrência de tais eventos, em contradição com o escrito pelo senhor Garcia, existe uma explicação estatística. Para a afirmação do jornalista Luiz Garcia também existe explicação: ele escreve sobre um assunto que não conhece.

F) Brigas no trânsito e em condomínios não apareceram nenhuma vez no período. Do ponto de vista da Teoria da Probabilidade, se eles são motivo de preocupação e estardalhaço por parte do Ministro da Justiça, O Globo e ONGs, uma quantidade consistente com sua propalada importância já deveria ter ocorrido neste período de sessenta dias. Será que o jornal O Dia, por alguma razão, tem restrições em mostrar mortes resultantes de brigas no trânsito? Não acredito. A resposta virá quando a pesquisa for completada.

G) O número de mortes por armas de fogo no Brasil, segundo afirmam O Globo e as ONGs satélites do jornal, é de 36.000 ao ano. Os homicídios evitáveis pelo Estatuto do Desarmamento mostraram, até agora, ser apenas 4,2 % do total de eventos. Isso significa que O Globo e as ONGs estão fazendo um enorme espalhafato por um total projetado de 1.512 mortes por ano. Para comparação, esse é o número de mortes por acidentes de trânsito em 15 dias, e é o número de crianças nordestinas, com menos de um ano de idade que, por falta de assistência governamental, morrem em um período de 21 dias.

Vamos agora aguardar os resultados que nos trarão os próximos quatro meses.

Conclusão (até agora): serão esbanjados 570 milhões de reais para resolver 4,2% de um problema, enquanto verbas para atacar e combater os 95,8 % são irresponsavelmente cortadas.

 

 

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