Brasil

  Rio Grande do Sul

Zero Hora de 16/12/01

 Menu

 Página inicial
 Quem sou
 Trabalhos
 Artigos
 Notícias
 Assuntos 
da semana
 Livros 
 Cartas e Respostas
 Charges

 Contato para pales-
tras e assessorias

 Links 
Recomendados 
Outros
 E-mail
 Enquetes anteriores


Seqüestros relâmpagos assombram gaúchos
Estatísticas oficiais mostram que pelo menos um delito ocorre a cada dia no Rio Grande do Sul em 2001

JOSÉ LUÍS COSTA

        Estatísticas da Secretaria da Justiça e da Segurança mostram que o seqüestro relâmpago está em ascensão no Rio Grande do Sul.

        Em 2001, a média dos primeiros nove meses atingiu 29,6 casos por mês, ou um por dia. O segundo semestre do ano passado – único período de 2000 com estatística oficial deste tipo de crime – registrou 21,3 casos mensais. O crescimento de 39% nas ocorrências fez a Polícia Civil rotular o delito como o crime da moda no território gaúcho.

        Os números absolutos revelam uma preocupante elevação dos ataques no segundo semestre deste ano. Julho e agosto tiveram 36 registros. Em setembro, subiram para 39. Se comparados aos mesmos três meses do ano anterior, representam um aumento de 94,73%.

        O mapa da criminalidade mostra que o seqüestro relâmpago é um crime metropolitano. De um total de 267 casos registrados entre os meses de janeiro e setembro de 2001, Porto Alegre responde por 184 (68,9%), com um registro a cada 35,6 horas, em média.

        Mas a incidência pode ser ainda maior, pois nem os policiais acreditam que a estatística oficial reflita a realidade das ruas.

        – Existem muito mais casos que a polícia não fica sabendo ou que não é noticiado. O seqüestro relâmpago, assim como o estupro, entra na cifra negra, aquela margem de crime que a vítima deixa de registrar, por constrangimento. Preferem encarar o prejuízo como um golpe de azar na vida – avalia o delegado Alexandre Vieira, plantonista da Área Judiciária da Polícia Civil.

        Levantamento do Ministério da Justiça revela que o seqüestro tradicional, com pedido de resgate, como o do publicitário Washington Olivetto, em São Paulo, é o crime que mais cresceu no Brasil nos últimos dois anos. Entre os anos de 1999 e 2000, subiu 75%.

        Os números são suspeitos e estão sendo revisados. Apontam Pernambuco, Rio Grande do Sul e Acre como os campeões de casos. Curiosamente, São Paulo é sétimo, e o Rio, 19º, ao lado da Paraíba. Os casos com pedido de resgate, antes raros no Estado, começam a ser executados por quadrilhas especializadas.

        No início do mês, um suspeito foi preso depois de seqüestrar uma psicóloga e a filha dela, exigindo da família R$ 4 mil de resgate pela libertação das duas. O homem foi reconhecido por outra vítima, uma decoradora, atacada no mês de novembro, da mesma maneira, também na Capital. Um familiar da decoradora teve de pagar R$ 2 mil pela libertação de mãe e filha.

        Para agentes, delegados e policiais militares, o seqüestro relâmpago virou modismo por ser um crime fácil de cometer e rentável. Assim, pessoas comuns estão cada vez mais na mira dos bandidos que se contentam em roubar o que a pessoa tem na carteira ou depositado no banco.

        – Teve uma época que a moda era assaltar motel. Agora, é atacar motoristas. Eles andam sempre armados e em dupla. Basta pegar uma pessoa distraída dentro de um carro, levar até um caixa eletrônico e sacar o dinheiro que ela tiver. Isso demora 20 minutos. Dá para fazer vários num dia. A polícia pode passar do lado deles na rua e não suspeitar de nada. Muito menos arriscado do que assaltar um banco – interpreta um delegado.

        Essa facilidade, na opinião dos policiais, vem atraindo jovens, aventureiros e amadores, recém-iniciados na criminalidade, que transformaram o seqüestro relâmpago no “jardim de infância da escola do crime”.

        – Muitos são jovens sem antecedentes criminais. Não estudam, não tem trabalho em função da crise econômica e, como são usuários de drogas, praticam roubos numa busca desesperada por dinheiro – interpreta o juiz Umberto Sudbrack, da 6ª Vara Criminal do Fórum Central de Porto Alegre.

        O crime se tornou popular e, nos últimos tempos, já não tem mais hora para ocorrer. Percebe-se que os seqüestros relâmpagos são executados com maior freqüência durante o dia.

        Isso pode ser explicado porque, em junho, o Banco Central baixou uma resolução, determinando o fechamento de terminais eletrônicos entre 22h e 6h.

        Ficaram livres da medida apenas algumas salas de auto-atendimento instaladas em locais com acesso controlado como hospitais, aeroportos, entre outras.

        A iniciativa visava ao racionamento de energia, mas obrigou assaltantes a modificar o seu modo de atuação. Alguns costumam ficar rodando com a vítima até o amanhecer ou agem somente durante o dia.

Até policiais e familiares são vítimas

        A ousadia dos bandidos não tem poupado a categoria policial e seus familiares, cuja preparação pressupõe maior capacidade de prevenção às ações criminosas. Nos últimos três meses, dois agentes da Polícia Civil e um oficial da Brigada Militar foram vítimas de seqüestro relâmpago em Porto Alegre.

        Em setembro, um casal de inspetores foi atacado quando chegava em casa. O homem ficou preso no porta-malas por quase duas horas, enquanto a mulher teve de ir a um shopping sacar dinheiro numa agência bancária. Os bandidos fugiram com a carteira funcional e o relógio do agente. Não levaram armas porque o casal não portava.

        – É um problema social que atinge todos – lamenta o agente, sem se identificar.

        Em 7 de dezembro, a vítima foi um capitão da Brigada Militar, atacado no Centro. Por alguns momentos ficou preso no porta-malas do seu Kadett, com risco de levar um tiro, enquanto os bandidos tiroteavam com PMs de Canoas, sem saber que o capitão estava no veículo, amarrado. Os bandidos abandonaram o carro e escaparam sem ser identificados.

        Há 30 dias, a mulher de um escrivão teve o Corsa zero-quilômetro roubado quando saía da casa de uma amiga no bairro Intercap, na Zona Leste. A mulher escapou do seqüestro, mas até sexta-feira não havia recuperado o veículo. Soube que o carro estaria sendo usado para assaltos e que o celular, levado pelos assaltantes, foi habilitado em nome de terceiros.

        Em agosto, no bairro Menino Deus, dois ladrões fizeram refém o estudante de Direito Daniel Konig Pacheco, 20 anos. Filho de delegado, o rapaz teve documentos, cheques e o relógio roubados antes de ser libertado num matagal, em Gravataí. Para sorte do estudante, os bandidos não fizeram saques, pois os caixas eletrônicos já estavam fechados, e abandonaram o carro no dia seguinte. Mas deram um prejuízo que revoltou a vítima.

        – Apareceu uma multa de trânsito, registrada no dia e na hora em que eu estava na 2ª Delegacia da Polícia Civil de Gravataí. Recorri, e mesmo assim meu pedido foi indeferido. É um absurdo, a segurança está caótica e ainda temos de passar por isso – reclama.

Um crime fora do Código Penal

        A incidência cada vez mais acentuada de seqüestros relâmpagos pelo país motivou líderes partidários da Câmara dos Deputados a aprovarem a apreciação, em regime de urgência, de um projeto de lei que inclui esse tipo de crime no Código Penal.

        A proposta foi apresentada na quarta-feira, em Brasília, pelo deputado Eduardo Campos (PSB-PE). Poderá fazer parte de um pacote de segurança pública que está sendo preparado pela Câmara dos Deputados, a ser votado durante as primeiras sessões de 2002.

        – É uma modalidade nova de crime e não tem tipificação penal, o que leva o Judiciário a condenar os autores por roubo, com uma punição mais branda – justifica Campos.

        A pena para roubo, prevista no artigo 157 do Código Penal, varia de quatro anos a 10 anos de prisão, e multa. Há casos em que os bandidos são enquadrados no artigo 158 (extorsão), com pena idêntica.

        Se o projeto de Campos for aprovado pelo Congresso, os autores de seqüestros relâmpagos poderão ficar na cadeia de dois anos até 12 anos.

        A punição aumentaria de acordo com o tempo de duração do crime, conforme a gravidade da ação, se o autor for conhecido da vítima, se ela for criança ou adolescente, se tiver emprego de violência, se for praticado por quadrilha ou bando e se for usado o veículo da vítima para praticar o crime.

        – Com a tipificação do crime, a punição será mais rigorosa e assim teremos condições de identificar o perfil desses bandidos e o volume de incidência desse tipo de crime – assegura o deputado pernambucano.

Chefia satisfeita com trabalho

        O delegado Carlos Santana, chefe de gabinete da Chefia da Polícia Civil, define como satisfatório o trabalho de combate ao seqüestro relâmpago.

        – Diariamente, são presas pessoas roubando, extorquindo e praticando seqüestro relâmpago. Há treinamento de equipes para intervir em situações de flagrante. Admito que é preciso buscar o aperfeiçoamento – afirma.

        A polícia não tem o número de prisões de criminosos especializados em seqüestros. Santana diz que mapas detalhados com locais, horários e histórico dos casos, elaborados pela Secretaria da Justiça e da Segurança, fazem parte do planejamento de trabalho e estão ao alcance de todos os policiais.

        – As informações estão disponíveis. Basta ter interesse e ir atrás – assegura, rebatendo a crítica de policiais de que não há uma ação coordenada.

        Santana garante que o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) recebe os mapas e atua na repressão ao seqüestro relâmpago. Conforme o delegado, os números referentes ao segundo semestre de 2001 estão sendo revisados.

        O comandante do Policiamento da Capital, coronel Tarso Antônio Marcadella, diz que a Brigada Militar faz o seu papel, patrulhando áreas com maior incidência:

        – Colocamos homens nesses locais mais visados, que são as grandes avenidas e os pontos com rede gastronômica.

        Marcadella confirma que os assaltantes passaram a agir com mais freqüência de dia e diz que foi por sugestão da BM que os bancos limitaram os saques em caixas eletrônicos durante a noite:

        – As pessoas precisam ficar atentas nessa época do ano. Principalmente mulheres com crianças.

Investigação policial é deficiente

        Um das razões para a disseminação do seqüestro relâmpago pode ser a falta de um organismo especializado na repressão. A justificativa é compartilhada por boa parte dos policiais de Porto Alegre.

        – Se uma quadrilha da Vila Cruzeiro está atuando no bairro Petrópolis, por exemplo, a polícia da Cruzeiro pode saber quem são os caras, ter fotos deles, mas, se a vítima registra a ocorrência no bairro onde mora, os policiais dali não têm a menor idéia de quem sejam os ladrões – assegura um comissário, que não revela o nome.

        A prisão desses bandidos, em geral, ocorre em ações da Brigada Militar. Depois, eventuais vítimas são chamadas ou procuram a polícia para tentar reconhecer, entre os presos, possíveis suspeitos e, assim, esclarecer os crimes.

        – Fui seqüestrado em 30 de agosto no bairro Menino Deus, e nunca me deram retorno. E isso que meu pai foi delegado, imagina as outras pessoas – critica o estudante de Direito Daniel Konig Pacheco, filho do ex-delegado Jorge Pacheco, falecido há dois anos.

        A elucidação dos casos segue este método deficiente, segundo reconhecem alguns policiais, porque o efetivo é reduzido, a troca de informações é precária e, especialmente, em virtude da reestruturação do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).

        Em meados de 2000, o principal órgão investigativo da Polícia Civil gaúcha passou a combater somente crimes praticados por quadrilhas (o chamado crime organizado), transferindo as demais atribuições às delegacias de bairros.

        Também não chegam ao conhecimento dos agentes os relatórios produzidos diariamente pelos computadores da Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS), que mapeia locais, datas, horários e dados específicos de cada ocorrência registrada na Capital.

        – Nunca recebi essa informação. Sabe-se, por experiência, que os bairros nobres são os mais visados e quem são alguns ladrões, quando são presos – garante um policial.

        O delegado Lauro Santos, da 15ª Delegacia da Polícia Civil, diz que a dificuldade de identificar os bandidos se deve ao medo das vítimas em fazer o reconhecimento. Na semana passada, com ajuda de duas vítimas, ele esclareceu um caso, nos quais os ladrões inovaram ao agir.

        Dois homens presos em flagrante pela Brigada Militar, Wagner Carlos Gomes Bones, 19 anos, e Israel Padilha da Rosa, 21 anos (foto), são suspeitos de atacar durante o dia, contando com a parceria de uma mulher negra, grávida, com cabelos descoloridos. Ela costuma se encontrar com a dupla no bairro Bom Jesus, na zona leste da Capital, após a vítima ser capturada. A mulher entra nas agências para acompanhar uma das vítimas na hora do saque, enquanto a outra é mantida dentro do carro. A mulher está sendo procurada por agentes da 15ª DP.

O CRIME

O que é seqüestro relâmpago:

• Embora não exista tipificação oficial no Código Penal, o crime tem se caracterizado pela ação de assaltantes que mantêm a vítima reclusa por curto espaço de tempo, mediante o emprego de força ou ameaça, para com isso obter alguma vantagem financeira.
• Em geral, as vítimas estão em carros, atacadas quando estão chegando ou saindo de casa, de estacionamentos ou paradas em sinaleiras e cruzamentos.
• Os bandidos costumam roubar dinheiro, documentos e cartões bancários para fazer saques em caixas eletrônicos, enquanto a vítima é mantida refém.

PREVENÇÃO

• A maioria dos ataques ocorre quando as vítimas chegam a seu carro, estacionando o veículo ou dando a partida.
• Os criminosos preferem pessoas desacompanhadas, para dificultar a possibilidade de reação. Para acompanhar a manobra, é importante ter por perto uma pessoa que possa chamar a polícia.
• Ao sair de casa, informe familiares sobre o local, o destino e o horário em que vai voltar. Se ocorrer atrasos, avise.
• Mulheres são mais visadas.
• Com o fechamento de caixas eletrônicos entre 22h e 6h, ladrões passaram agir mais de dia.
• Se abordado, não resista, principalmente se o assaltante portar uma arma. Evite gestos bruscos.
• Não se preocupe em perder bens materiais, mas deixe claro que você não tem muito dinheiro no banco nem em casa.

 

 

adicione o Polícia e Segurança aos favoritos.

Clique aqui para assinar o Livro de visitas
Clique aqui para ler o Livro de visitas.
As idéias e opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores.
 

Web designer: Otálio Afonso